CONTO

 

 

Um pardal caiu do ninho. Desesperado e ainda sem suas penas pensou que fosse sucumbir ali mesmo. Era ainda um bebê. Dependia da mãe pra tudo. Assustado começou a piar baixinho sentindo que o fim estava perto. Sua mãe tinha saído pra buscar alimentos ou talvez gravetos para por no seu ninho.

Fora ali e não demoraria pra voltar, mas o vento bateu e o tombou com ninho e tudo no meio da casa de alguém que poderia não gostar de pássaros ou mesmo ter um gato de estimação. Mas o fim antecede ao recomeço. O piso gelado do chão da cozinha, a mesa vazia, a janela aberta para além do muro. Faltava-lhe forças pra reagir. De repente o pardalzinho ouviu uma voz doce vinda do corredor que dava pra sala, a voz parecia de um anjinho, desses com asas nas costas e cabelo de cachos.

Era uma menina que vinha precedida de uma luz que a envolvia. Ao lhe ver ali naquele piso, em plena manhã, ela não titubeou, pegou-o em sua mãos retirando-o dali com afagos de mãe. A menina o levou para uma gaiola grande, onde a porta nunca se fechava. Era a casa de duas calopsitas que viviam soltas pela casa. Ali sua mãe passou a vir, sem medo, pra alimentá-lo. De papo cheio e confiante o pequeno pardalzinho ficou cheio de carinho pra sua nova amiguinha.

A menina não se dava conta do quanto alada era, mas aquele passarinho frágil percebia e nela se aninharia. O calor daquelas pequenas mãos lembrava seu ninho. O pardalzinho foi se restabelecendo dia após dia e, em troca, devolveu à pequena Maria, bicadinhas nas orelhas pequenas, cócegas com as patinhas na sua barriga, por ter lhe salvado a vida. Um belo dia sua mãe percebeu que era hora de partir, o avistou por sobre o muro branco da casa e com duas piadas o convocou pra partir.

O pardalzinho não titubeou ao ouvir o chamado e voou. Maria ficou chorando com a partida do passarinho. Mas, no fundo, ela sabe que a natureza de toda ave é voar. Inconscientemente, por vias que não cabe explicar, Maria se identifica com os seres alados a sua volta. Nos seus sonhos, vive sobrevoando as cabeças daqueles que não conseguem tirar os pés do chão e tocar as nuvens com seus carneirinhos e flocos de algodão. Maria conversa com os passarinhos nas suas revoadas. A menina passarinha. Eles, de fato, sabem de onde ela veio e quem ela é.