CRÔNICA

Por Paolo D`Aprile

 

Porque Nina é o pau, também é a pedra. Nina, sem dúvida, é o fim do caminho.

Dizem que George Harrison chorou a noite inteira quando ouviu sua música mais linda ecoar no piano e na voz da Nina. Percebeu que a partir daquele momento, a música não pertencia mais a ele, aos Beatles, ao mundo. Na voz e no piano da Nina, a doçura da sua composição muda de consistência: sem mais melodia, harmonia, acordes… a canção passa simplesmente a existir, como o pau e a pedra, como fim e finalidade de todos os caminhos possíveis. Existir por ela mesma, substancia última, primordial, definitiva, volúvel, contradição granítica, além, aqui e agora.

Sim, a voz da Nina, seu jeito quebradiço de tocar, sem autorização preventiva para criar tudo o que estiver nos limites de seu poder, cortam o cordão umbilical com a própria música: subvertem a regra do “bem cantar”, do som agradável, da vil benevolência para explorar o mundo das sombras, o inconsciente individual transformado em coletivo por osmose, mão do suicida, sentido único da dor.

Se a moral corrente, a moral burguesa, está intimamente ligada à violência da opressão, da submissão voluntária, Nina escolhe a luta que brota da sua mais profunda indignação, uma luta ao horror à vida tranquila e respeitável, ao emprego fixo, à cerca pintada, à grama bem aparada, ao dia de ação de graça… Nina se transforma em pau, em pedra, em imanência urgente e chega ao fim do caminho como mulher solitária, isolada, cuja única coisa a perder é realmente tudo.

Nina é a nota musical esquecida entre as pausas, é o som desconhecido que ninguém nunca inventou, é a febre terçã maligna que destrói as ruínas da existência. Nina é o anjo da História de Walter Benjamin, o anjo severo a contemplar escombros, conseguindo manter no abismo do seu ser todas as lágrimas da dor do mundo, anjo mudo, ciente de que não pode haver morte onde nunca houve nascimento.

Seu canto, sua voz, seu piano sempre oblíquo, são minha garantia, meu habeas corpus preventivo para poder sobreviver, fugir, escalar montanhas e, atordoado, embriagado por sua voz, esconder-me nos precipícios de mim mesmo. Ao invés de se manter nos limites preestabelecidos da opressão, na ponderação dos acontecimentos, sempre aceitos como verdade incontestável, Nina salta todas as barreiras transformando-se em água de março capaz de inundar o mundo: mosca na sopa, dedo na ferida, tempestade infinita, dor liberatória que pertence de corpo e alma, como orixá furioso, aos elementos, a tudo, ao nada. Nina é o livro inacabado de Schopenhauer que há tanto tempo achei no tronco oco do meu devaneio: descarado, definitivamente pó, com ela descubro quem nunca fui, sou e nem nunca serei. Nina é a poética do ponto de ruptura da linha invisível, minúscula teia de aranha capaz de embrulhar dinossauros. Nina é o beijo feroz que tudo quer, é pau, pedra, o Sim revelador, loucura, silêncio, voz derradeira, fim do caminho.

Nina fez George Harrison chorar. Nina faz Guilherme Maia chorar.

Mas quando aqui, bem aqui, o sol chegar, fique tranquilo, meu amigo, ela falou, ela anunciou, ela prometeu que tudo, tudo mesmo vai dar certo, It´s all right, It’s all right.

Então, finalmente, poderemos descansar.