CRÔNICA

Por C. Alfredo Soares

 

Mais um ano cristão se inicia. Já são muitos verões vendo os fogos iluminarem o céu, anunciando um novo tempo. Abraços e beijos. Algumas lágrimas sinceras brotam nos olhos. As promessas, infundadas, de que dali em diante tudo será diferente nos empurra para mais um ano, que logo na frente nos espremerá contra a realidade dos fatos.
Você irá correr feito louco pra mais uma vez pagar as contas do mês, pra colocar comida na mesa, pra tentar chamar a atenção do patrão, sempre ocupado em ganhar mais pra manter o negócio de pé em meio a mais uma “maior crise já vista”, como se o capitalismo não fosse autofágico. O chefe pode até te ouvir, mas no fim você irá dar razão a ele. Quem sabe até fará hora extra e se sentirá um “colaborador” da empresa, apesar de ser apenas um assalariado.
Logo o ano novo ficará velho e a agenda, agora eletrônica, estará cheia de compromissos tornando os dias exaustivos e iguais. Ao não ter controle do seu tempo, você se vê engolido pelo sistema e vira apenas suco da máquina de moer gente.
Saiba, seus sonhos não contam, sua remuneração, ardilosamente, volta para mãos dos poderosos: os agiotas, bancos e instituições. Somos aquilo que consumimos, o marketing está aí pra nos seduzir e convencer. Na rua o esgoto corre a céu aberto, na sala a TV 4K de última geração tem 50 polegadas, o sofá puído pelo tempo espera a vez de ser trocado.
Essa gente bacana, que mora nos condomínios de luxo das cidades, se refestela enquanto você sua sangue, voa sobre as massas, cruzam o céu sobre as palafitas do entorno das marginas saboreando Möet chandon. Não há fuga. Você mora longe e a condução às vezes não vem. Seu ponto é cortado sem dó ou compreensão. Todos os caminhos te levam a esse círculo randômico sem fim. Portanto acorde pra vida enquanto o tempo te favorece. Passeie, coma a sobremesa antes do almoço, dance enquanto os joelhos deixarem, beije a boca de alguém que sempre te quis bem. Transe e entre em transe. Se toque e sinta-se. Você existe. Assuma seu protagonismo neste palco e não tenha vergonha de rir alto das mancadas que vier a dar. Ser feliz é uma meta alcançável. Acredite e erre mais, até acertar. Se puna menos e mande, quem mereça, à merda. Você pode até não encontrar a saída desta armadilha que lhe impuseram, mas se sentirá melhor. Não se iluda pelo caminho. Feliz ano novo de novo.