CRÔNICA

Por Valéria Soares

 

– Tu é sujeito homem?

A frase saiu como um soco. Mais agressiva até. Os dois, envolvidos na discussão, eram homens, não havia dúvidas, mas a pergunta era mais profunda, vinha pra mexer com os brios. Para trazer à tona fraquezas ou revelar coragens.

Meu pai era um homem com valores muito claros. Convivendo com ele, sabíamos o que esperar. Seu nome o precedia, porque significava, antes de tudo, confiança, lisura. Andávamos pelo bairro sob a proteção desse nome. Éramos filhos dele, portanto, cuidados e vigiados por aqueles que o conheciam bem. Seu Tião Zé, nome que valia dinheiro no açougue, na quitanda, no bar da esquina. Era só chegar e dizer: meu pai mandou pegar um quilo de carne bem servido. Não tinha erro. Não tinha dinheiro. Só palavra. Palavra do Seu Tião Zé.

Os argumentos vinham em um português formal que nada deviam aos melhores oradores, mas naquele momento não conseguiam convencer ou responder a pergunta torta e capciosa. Entretanto, ela ecoava ferina pelos corredores como espada afiada dos dois lados. Amedrontava e constrangia na mesma medida. Impossível não pensá-la.

Era em nome de criar-nos dignamente que meu pai pagava o preço de ser quem era. Achávamos que tudo era muito fácil pra ele, porém havia sempre uma escolha a ser feita e em todas elas; nós, por ele, estávamos sendo escolhidos.

Não é fácil nem simples manter a palavra empenhada ou dizer a verdade mesmo quando sofreremos por dizê-la. Não é fácil escolher ser exemplo e a todo tempo cuidar das próprias atitudes e atentar para as consequências.

– Eu sou sujeito homem! Eu não minto. Você sabe disso.

Ainda que quisesse, não podia discordar. Na sua arrogância juvenil, não mentia. Apanhava, era preso, mas não mentia. Tinha uma coragem que envergonhava outros. Não escrevia bem, não argumentava a contento, mas convenceu como ninguém.

Tu é sujeito homem, moleque, como era seu Tião Zé e antes dele seu Zé Militão. Como são todos os homens e mulheres que têm o dom de dizer a verdade com a vida que levam e com as palavras que saem de suas bocas.

Viva! Ao Amor antes de tudo, à Verdade sempre.