CRÔNICA

Por C. Alfredo Soares

 

Bem, a primavera voltou, e, com ela, os ipês dando ar da sua graça com suas flores amarelas, que caindo formam um tapete de pétalas pelas ruas, travessas e alamedas da cidade.

Cedo acordo com a algazarra das cigarras pelas árvores que circundando meu quarteirão anunciando o novo dia. A cada arbusto uma sinfonia pra encantar suas parceiras e convencê-las que é hora de acasalar.

Ponho a água na chaleira e levo ao fogão, enquanto espero fever, me alongo todo pra enfrentar o dia. Logo o cheiro bom do café, que toma conta da casa, traz pra cozinha meu filho atrás do desjejum .

Lá fora centenas de cigarras já estão sendo banhadas pelo sol. Parecem milhares. Me acordam sem precisar que eu use o despertador. Seu canto, com o passar das horas, vai ficando mais ameno, indicando que, talvez, alguns da espécie já tenham se dado bem na missão romântica. Quem dera que eu tivesse essa mesma missão diária.

O dia irá me afastar de toda observação matinal. As contas, os compromissos, o trânsito me levarão a exaustão, até o retorno à casa. Tomo o café, meu remédio e me despeço do filho. Eu me visto com a roupa de trabalho, me encho de coragem e saio decidido.

Até me esquecerei que a primavera chegou cheia de beleza em cada canto que passo, como se quisesse me chamar a atenção pro ciclo da vida, que tenho deixado passar com minha pressa acumulativa, sem acumular nada. Estranho, junto pra deixar pra traz. Não levamos nada mesmo.

Queria ter esse desprendimento, esse desapego que só as estações do ano tem, sabendo que a primavera chegará, quando o inverno se for, trazendo suas cores, flores, cigarras, mesmo quando eu não estiver mais aqui. Em breve será verão e depois outono. A chamada racionalidade humana, em grande parte, nos faz mau. Que aflorem em mim os sentidos que deixei pelo caminho.

É primavera, Tempo fecundo e de conquista.

A cigarra não tem medo de se expor com seu canto matinal e vespertino.

E nós?

Veja, as flores dos ipês já estão caindo.