CONTO

Por Valéria Soares

 

Enxergo poesia, vejo histórias em todos os lugares, se viajo, escrevo mentalmente, histórias que jamais tomaram forma na tela ou no papel. Quanto mais longa a viagem, mais tempo em silêncio com meus pensamentos. Entretanto, nunca precisei de uma viagem física para sair do lugar e percorrer mundos e encontrar pessoas e ouvir e falar palavras que apenas eu conhecia, que apenas a mim eram ditas.

Este é o ar que respiro: há poesia no contraste de cores inesperadas, na casa à beira da estrada, na flor que enfeita o jardim, na aventureira bicicleta que desafia o perigo, na placa informando que saímos de Oizeiro e entramos em Tororomba.

Há história na venda com balança verde e uma variedade de cachaça sem fim. Há história no homem mestiço de boné que se encosta preguiçosamente na manhã abafada

de sábado. Há rima nas casas caprichosamente pintadas e iguais.

Onde a estrada vai dar?

Já existem o tempo, o espaço, a gente.

A história se escreve no caminho.