CRÔNICA

Por C. Alfredo Soares

 

Ontem, ao chegar a casa, minha mãe estava me esperando na varanda, sentada numa cadeira. Meu filho abriu o portão, pus o carro pra dentro e fui até ela pedir a benção, como sempre faço.

Essa imagem dela ali é esporádica, já que minha mãe mora há cerca de 300 km de onde resido, só que nesta semana ela esteve aqui comigo e meus filhos. Dona Ledilce tem 84 anos de vida, luta e dedicação à família que concebeu e guardou. Seu traço principal é a tenência à Deus. Sua fé é inabalável. Sempre foi assim e ainda é.

Quando éramos crianças sua presença em casa era menos comum, pois saia cedo pra luta ao lado do meu pai. Os dois eram cientes do compromisso de nos criar, mas cabia a minha mãe por ordem na casa.

Suas orientações tinham que ser seguidas por nós de forma exemplar.

Se ela determinasse que eu tinha que lavar a louça depois do almoço, ai de mim se quando ela retornasse pra casa, no final do dia, as panelas não estivessem brilhando.

Ela tinha o costume de passar o dedo nos pratos pra conferir se estavam engordurados. Nós, eu e minhas irmãs, sabíamos das consequências que a desobediência causava. Meu pai era o provedor. Seu amor generoso quase sempre nos salvava de enrascadas que nos metíamos ao longo do dia.

Mamãe tinha a determinação moldada pela sua mãe, Vó Maria, que todos os netos chamavam também de mãe, por ser acolhedora e uma segunda mãe de todos.

Incrível que este traço feminino do nosso DNA passou de forma tão clara pra demais gerações da nossa família. Vejo-o muito nas suas netas e netos, mas principalmente nas meninas.

Minha vó era brava e amantíssima ao mesmo tempo. Tinha um passo largo, um olhar altivo e um coração gigante.

Era capaz de nos repreender e logo depois fazer um bolo de fubá ou comprar uma rosca doce na padaria pra gente tomar café.

Mamãe é igualzinha a ela. Pra ela, seus filhos, não tem defeitos perante os outros, mas ai da gente desagrada-la, levamos reprimenda na hora e na frente de quem for.

Dizem que pra mãe filho não cresce, isto é a mais pura verdade. Minha mãe, minha vó, minhas tias. Esse matriarcado negro foi meu cinturão de amor que me trouxe até aqui.

Sou só agradecimento a elas, que abdicaram de muitas coisas, enfrentaram tantas outras, tudo sempre em nome da prole que conceberam.

Hoje vejo no semblante da minha mãe uma paz pela missão cumprida, por mais que ainda queira interceder por nós.

Sentada ali na varanda, ao lado do meu filho, ela continua cultivando seu legado de uma forma mais contemplativa, mas não menos atenta.

Tê-la por perto dá sentido a muitas coisas que acredito e faço.

Sou o que sou por conta do meu pai e da minha mãe.

Mesmo não sendo cópia perfeita, que gostaria de ser, me orgulho disso.

– Sua benção mãe!