CONTO

Por Valéria Soares

 

Pediu perdão. Ainda não sabia bem o que havia acontecido quando a porta bateu atrás de si. Como pudera?

Sentiu um misto de vergonha e desespero. Jamais seria a mesma. Não havia volta.

O coração doía como nunca. A porta fechada nunca mais se abriria. Sabia, e isso era doloroso. Uma parte de sua vida tinha se desmoronado. Fato! Pela primeira vez riu de si mesma.

Fez questão de atravessar a rua na faixa. Já havia se desviado demais!

Um vento morno anunciou mudança de tempo. Mudança! Irremediável mudança! O coração pareceu desmaiar dentro do peito. Não queria mudar. Vacilara, com certeza, mas todo mundo erra! Por que somente ela deveria sofrer tanto? Por que pra ela não havia perdão? Sentia-se só. Perdida. Por isso tomara o caminho errado. Por isso imaginou, por isso arriscou, por isso perdeu!

Teve vontade de voltar e novamente pedir perdão, mas sabia que não adiantaria. Repetiu, então, mentalmente, seu pedido de perdão tantas vezes quanto achou necessário. Desejou fortemente que a dor fosse somente sua.

Atravessou a noite querendo um ponto de restauração. O momento mágico em que a decisão ainda não tinha sido tomada.

Amanheceu sem forças com os olhos cansados de não dormir. Arrumou-se para encarar o dia e a nova vida que tinha pela frente. Vestiu-se de dignidade e respeito, armou-se de coragem e saiu.

Do outro lado da cidade, alguém amanhecia certo de que perdão fora feito pra ser concedido.