RELATO

 

 

Por C. Alfredo Soares

 

 

São tantos os casos de Covid 19 que acabamos discutindo os números como se fossem uma tabela de campeonato de futebol macabro. Diariamente sentamos à frente da TV e esperamos apuração.

Tomar conhecimento deles é preciso, mas temos olhado e esquecido, as vezes, do ser humano que foi acometido pela doença, que está internado à espera de uma melhora que nem sempre vem.

São pais, avós, tios, primos, irmãos, vizinhos, amigos de faculdade…

Pessoas de idades variadas, que vem dos mais distintos lugares e classes sociais. Somos todos alvo do vírus que diante do diagnóstico médico nos recolhe aos leitos hospitalares.

Afastados dos entes queridos o que nos resta é acreditar que o dia seguinte chegará.

Ali, no quarto do hospital, os verdadeiros amigos passam a ser a equipe médica de plantão, formada por abnegados profissionais, que mesmo exaustos, lutam por cada vida como se fosse a sua. Ninguém melhor do que um paciente de COVID-19 pra avaliar isso.

É preciso humanizar o trabalho desses heróis anônimos (médicos, enfermeiros, equipe de apoio, fisioterapeuta, motorista de ambulância, etc…) Laira Alves de Souza, 34 anos, campista, casada e mãe de dois filhos, sabe bem a importância deles e fez um relato emocionado em sua conta pessoal no Instagram.

Ela, que recebeu alta na última terça feira, relatou sua angústia, sofrimento e alívio quando saiu pela porta da frente do hospital São José, em Goytacazes, distrito de Campos/RJ.

Laira traduziu em sentimentos os números da Covid, individualizou a doença que causam perplexidade em alguns e negacionismo em outros.

Esses números de milhares de cidadãos mortos – quase 500 mil – fazem parte daqueles que não puderam expressar tudo que viveram até o óbito lhes atingir, sem alertar os seus e demais o perigo do contágio.

Por isso a importância do seu relato. Alguém que esteve na linha de frente do combate, não como soldado com arma em punho e sim como refém da doença que continua matando, diariamente, em todo pais enquanto não nos imunizamos.

Confira abaixo o que ela diz dos 09 dias numa enfermaria de um hospital público tratando de se livrar do SARS-CoV-2…

 

Laira Alves de Souza

 

Hoje recebi alta da UTI – UPG1 da Unidade Pré-hospitalar São José

Mas não é só para comemorar a vida que retornou aos meus pulmões, que escrevo hoje, ou todo carinho que recebi, mensagens orações e preces.

Venho falar sobre um lugar em que passei os oitos dias mais tensos da minha vida. Juntamente com seres humanos que me fizeram dar a luz a essa escrita.

Quando dei entrada na Unidade, não conseguia respirar, minha saturação chegou a 75% .

Sua escala normal deveria estar +95%, fui rapidamente colocada em uma cadeira reclinável, ligada ao O². Essa unidade de atendimento foi a única em TODA Campos que me atendeu.

Mesmo em uma cadeira, estava feliz, conseguia respirar.

No mesmo dia, mais a tarde, descobri que teria que fazer uma tomografia, para saber como estava meu pulmão e descobri que não seria ali, que teria que atravessar literalmente toda a cidade para ir ao HGG fazer o procedimento.

Fui de ambulância, (que experiência, Jesus!). Mas um rapaz muito atencioso e preocupado, me ajudou com destreza, pois o balão de gás que me sustentava, estava no fim, e não tinha reserva só mesmo o da ambulância.

O procedimento transcorreu sem muitos percalços, a não ser a falta de energia na hora em que eu estava dentro do aparelho. Aí já viu né??? Quem me conhece sabe que tenho pavor a isso, elevando o grau da falta de ar, tosse e o problema COVID, só muita oração…

Voltando ao São José, conheci um Projeto de Pesquisa sobre COVID-19 que funciona no hospital da Santa Casa de Misericórdia.

Esse projeto pesquisa sobre a eficácia do antiviral Azvudine contra a COVID-19 , medicamento que pode estar associado à redução da replicação do vírus e à diminuição do tempo de internação.

Maravilhoso !

Aceitei participar, estava tudo certo para eu fazer parte desse projeto…

Porém eu piorei…

Meu quadro era crítico, os médicos cogitaram intubar. Porém é aí que a minha verdadeira história de gratidão começa…

Tudo, absolutamente tudo, é como você vê o seu próximo.

Tinha uns três médicos, uns quatro enfermeiros, fisioterapeuta,… uns tirando minha roupa outros conversando entre si, falando o que fazer e eu ali, tentando não surtar, sem ar e morrendo de dor.

De repente uma voz nova, de uma enfermeira veio ao meu ouvido e disse:

– Laira, se acalma, você vai ficar bem, estamos aqui para te ajudar, pode ser que não intube, mas só depende de VOCÊ, pois Deus já está fazendo a parte dele.

E fez uma prece linda segurando minha mão, que não ousaria repetir!

E me perguntou:

-Você consegue ficar de bruços?

Eu disse: – Só durmo assim

-Então você já está salva!

E mesmo com a máscara pude ver o sorriso que ela me dava.

Eu afirmo, esse foi o primeiro anjo enviado de Deus a mim.

Foram quatro dias assim, em posição de prona. No primeiro dia nem para comer eu virava, o medo daqueles tubos era maior que qualquer dor lombar futura.

Depois que eu e meu amigo oxímetro começamos a nos entender e eu passei a saturar melhor, começou um outro problema. Não comigo desta vez, eu estava bem, se é que pode -se dizer estar bem e ver tudo o que vi…

Uma senhora, quando chegou ao quarto me olhou com cara de desespero, eu tentei passar, mesmo que através da minha máscara de oxigênio, uma expressão tranquila e disse:

-Calma vai dar tudo certo!

Mesmo sabendo que ela não me escutaria.

Passei a noite olhando o monitor dela, a briga dela com o Sr. oxímetro era feia. Foi quando os médicos resolveram intubar, fizeram de tudo, mas infelizmente ela não conseguiu vencer… foi a primeira morte que presenciei na UPG1…

No dia seguinte nada diferente do meu caso, um paciente com falta de ar, tossindo muito falando que estava com dor, sem amizade com o oxímetro… vem médico, enfermeiro, fisioterapeuta

Ele tinha a minha idade, provavelmente casado, pois vi a enfermeira guardando a aliança na mochila. Olhar para ele, parecia que estava só rapidinho, que assim como eu, já já saia dessa…

Foi a segunda morte…

Minha rotina virou acompanhar monitores de oxigênio e pressão, passei a entender até os barulhos dos equipamentos quando soavam diferente…

Os profissionais exaustos, sem equipamentos muitas vezes necessário, tendo que se desdobrar para salvar uma vida. Trabalhando visivelmente sobrecarregados. Mas sempre com um sorriso para mim, e perguntando como eu estava…

Num outro dia que morreram dois de madrugada, eu estava com diarreia, estava prendendo o máximo possível, porque não podia usar o banheiro, afinal ali era uma UTI, e eu estava de fralda/sonda. Vendo tudo aquilo acontecendo, não tinha coragem de pedir para me limpar. Me segurava, ficava literalmente na merda. Esperando dar uma amenizada para pedir por higiene… risos

Tenho certeza que se eu falasse, na mesma hora, alguém parava e viria, mas para mim, não era certo chamar. Aguentei, por eles, pelas outras pessoas que precisavam deles.

Conheci profissionais animados, que mesmo perdendo todos os dias conhecidos, amigos parentes, estão ali, dispondo de seu tempo, da distância dos filhos e família para estar com a família de outros, cuidando e respeitando.

Todos, desde a mocinha que levava as refeições, aos médicos plantonistas, do remédio do próprios bolso da enfermeira para eu dormir que ganhei, pois o hospital não tinha(com autorização médica) Da busca por uma cadeira de rodas para me levar, mesmo “burlando” o sistema, ao banheiro para eu usar um sanitário ao invés de fraldas e deixando todo o hospital saber que eu queria evacuar (Risos de vergonha). Eram cordiais, chamavam pelo nome e o principal olhavam nos meus olhos!

Tá bem, tem um ou outro que destoa confesso. (risos) Mas são pontuais. Sempre tem né?

No total foram nove dias de internação, quatro foram flashes de acontecimentos. Quatro mortes presenciadas, e um sentimento de gratidão a Deus e a essas pessoas que cuidaram tão bem de mim

Sou péssima para lembrar nomes então, por isso, resolvi não os colocar. Mas cada um sabe o quanto foi especial para mim!

Gratidão amigos!”