CONTO

 

 

Por C. Alfredo Soares

 

 

No meu tempo de menino, minhas férias escolares eram passadas na casa da minha vó, que de tão amada, chamávamos de mãe Maria. Vovó Maria da Penha,  veio pra cidade  do distrito Imburizinho, localidade de São Diogo, divisa de Campos com o sertão de São João da Barra, hoje São Francisco. Ela viúva de Norival Sabino e mãe de 9 filhos, sendo que dois foram cedo pro céu e ficaram 7, sendo quatro mulheres e três homens.  Uma negra altiva e carinhosa, provavelmente uma Nagô, filha de Geraldo Leite, esse africano que dizia ser da África do Sul ou do sul da África. Vovó tinha porte de uma líder. A palavra final sempre foi dela.

Ela não negociava sua ordem, quando tinha que ficar com a gente – substituindo nossa mãe.  Por um período de tempo deixávamos de ser netos e passávamos a condição de filhos.

Daí vem o motivo dela ser chamada, por todos os netos, de mãe.

Mas mesmo assim ela esbanjava uma atenção única. Se preocupava com cada um e tentava agradar sem distinção. Mas ai de quem se atrevesse a sair debaixo da sua saia. Nos sentíamos protegidos estando ao lado dela. Certa vez eu e minha irmã Valéria fomos ao mercado municipal fazer as compras. Mãe Maria tinha um passo largo que fazia com que a gente corresse atrás dela. Me lembro dela andando por dentro do mercado enchendo a sacola de vime e outra de listras coloridas, com arroz, milho, banha de porco, feijão e farinha. As vezes comprava querosene, espiral pra matar mosquito, bomba de fritzz. Vovó carregava a bolsa com o dinheiro e negociava a cada box que chegava.

A gente dividia com ela as sacolas que iam enchendo de produtos e ficando pesadas.

O calor insuportável de janeiro fazia o suor escorrer pelo rosto. Nos corredores cheios de gente, ela não perdia a gente do olhar.

Vovó levava uma toalha pra enxugar o rosto e o pescoço – aquela toalha serviria depois de anteparo para que ela equilibrasse sua sacola na cabeça e saísse carregando as compras entre as bancas de tempero dos ambulantes com a habilidade de uma artista de circo. Tinha o moço do limão, o da água de coco, o da cocada de maracujá…

O alívio vinha quando meus tios apareciam pra recolher tudo e por em um fusca ou kombi e levar todos pra casa.

As vezes nossa mãe ficava com a gente nas férias e também ajudava nesse momento, levando Márcia, a caçula de nós três nos braços.

Mas voltando as compras no mercado campista, a sacola ia pesando e mãe Maria não parava de enche-la, pois nada podia faltar em casa… farinha de mandioca, carne seca, peixe salgado ou fresco e, pra nosso desespero, uma galináceo vivo amarrado pelos pés.

A fome batia no final da manhã e, então, parávamos na barraca do pastel, feito na hora, pra devorar uns acompanhado de caldo de cana geladíssimo. Aquilo dava uma moleza. Enfim a missão, que sempre acontecia nas sextas feiras, estava cumprida.

Dali partíamos pra casa. Não me lembro se íamos para o centro pegar a condução no terminal ou pra Alberto Torres, só sei que o ônibus da CTC era azul e pra chegar ao ponto do nova Brasília, carregando a bolsa cheia de compras, no calor do verão, era uma missão quase impossível. Levava a exaustão. Pra subir no coletivo contávamos com a ajuda de quem estivesse no ponto da condução.

Aquela aventura das compras no mercado municipal viraria estória a ser contada ao meu papai quando voltássemos pra casa em Teresópolis, motivo de risadas e boas lembranças. Seu Sebastião se deliciava. Até hoje aquele hábito causa na gente um tipo de memória olfativa, a ponto de sentirmos os cheiros do lugar. Registre que naquele tempo o cheiro era mais agradável que hoje. Mas as férias não se resumia a isso. Tinha a roça, onde íamos ver nossa terra e o tio Jorginho com sua filharada, tinha a casa da tia Mariazinha, que fazia bom-bocado pra gente, a casa da tia Josélia, que ficava do outro lado do rio, pra onde íamos pra ficar um período.  Eram trinta dias ansiados e perfeitos. Nossos tios valorizam a nossa presença. Faziam todas as vontades dos sobrinhos distantes. Tudo era intenso e sincero.

Tio Amaro, que nesse tempo trabalhava na antiga Cooperleite – uma cooperativa de leite instalada na Pecuária – todo fim de tarde trazia algo gostoso pra gente. Um dia era manteiga, noutro doce de leite ou ainda leite em saco.

Tio Rodoval trabalhava na loja Brasil auto peças.   Sempre que podia, nos levava pra passear no seu fusca. Titio Rodoval era um craque no balcão, tanto que logo depois teve a sua loja e ajudou abrir outras em diversos lugares. Tio Jorginho aparecia atarantado quando a gente estava quase voltando trazendo um bolsa cheia de aipim, batata doce, farinha, bananas, pra gente levar na viagem de volta.

Minhas tias Rosa Maria e Josélia, se revezavam entre ficar na cidade e ir para o Rio buscar uma vida melhor. Capitaneadas por minha mãe, Ledilce, elas buscavam na capital recursos para completar a renda familiar deixando pra traz, na maioria das vezes, seus filhos menores.

Elas chegaram a morar fora nesse período. Mãe Maria, na maioria das vezes,  colocava todos netos debaixo de suas asas, dando o apoio necessário para que as filhas fossem em busca de dias melhores.

Fui crescendo em meio aquilo sem fazer altos julgamentos.

Mesmo morando longe éramos alcançados por aquele sentimento de pertencimento. Um grande abraço fraterno e fundamental em nossas vidas. Havia pouco dinheiro, mas muita empatia.

Hoje, vejo que fui moldado naquela forma, mais até do que eu poderia supor. Talvez por isso vim morar em Campos e aqui constitui família e filhos. Essa é só uma parte. Tem muito mais a contar, como quando consegui passar um tempo na casa da tia Josélia e pude contar quantos vagões tinha o trem que vinha de Vitória/Es em direção ao Rio de Janeiro. O expresso noturno. O trem que minha mãe pegou aos 11 anos em direção à capital do Brasil.