Olívia Wenzel e o racismo na Alemanha

06.02.2021 - Untergrund-Blättle

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Olívia Wenzel e o racismo na Alemanha
Foto com o lema “#indivisível; solidariedade em vez de exclusão” manifestação ocorrida em 24 de agosto de 2019 em Dresdem com cerca de 35.000 pessoas contra discriminação, empobrecimento, racismo, sexismo, retirada de direitos e nacionalismo. (Crédito da Imagem: Tobias Möritz)

A historia de uma mulher negra na Alemanha Oriental, que representa o reflexo de uma sociedade majoritariamente branca 

John-Henrysmo é uma sindrome que pode afetar as pessoas que estão expostas a experiências repetidas de discriminação e ao estresse físico e psicológico vinculado. Para pessoas negras, racismo é uma companhia diária:é sempre se sentir exposto ou ser constantemente encarado, prestar atenção quantos não-brancos estão ao redor, medo constante de ser vítima de violência e estar sempre elaborando as alternativas para evitá-las, isso para citar uns poucos exemplos. Para muitas pessoas é uma questão que as sobrecarrega e as leva à exaustão.

“No meu caso, é mais provável que eu seja espancada por três nazistas em um passeio pelos lagos em Branderburgo, do que ser vítima de um ataque terrorista islâmico em plena Nova Iorque ou em Berlim, no metrô ou em algum um restaurante” (Pag. 85). Mesmo sendo essencial, racismo não é o único tema do romance de estreia de Olivia Wenzel, ele trata de uma teia de muitas camadas de uma história de vida.

Luta pela vida

A protagonista – nos meados de seus 30 anos – lança um olhar sobre o seu passado e suas condições de vida. Ao mesmo tempo, ela tenta trabalhar as muitas feridas que se abateram sobre ela. Como filha de uma jovem punk da antiga Alemanha Oriental e de um pai negro, que regressou a Angola logo após seu nascimento, ela cresce sendo cuidada principalmente pela sua avó, uma senhora orgulhosa por ser membro do partido socialista unificado alemão (SED).

A reflexão desenvolve sua forma textual como um jogo, em diversos níveis temporais, na linguagem e nos lugares, uma estrutura de vida descrita como uma colagem. Uma constante alternância de diálogos, descrição de cenas e uma estrutura predominante de entrevista, na qual uma pessoa imaginária conduz a entrevista com a protagonista. Algumas vezes os questionamentos são como um interrogatório, outras como uma terapia, as vezes como uma conversa casual ou como uma conversa consigo mesma.

Somado às experiencias com racismo, o tema gira em torno do transtorno de ansiedade da protagonista, a perda do seu irmão gêmeo que se suicidou ainda jovem, problemas de relacionamento em geral, e a relação com sua mãe que raramente está presente, a quem sempre teve pouco acesso.

A protagonista lutou muito ao longo da vida. De início, ela procurou evitar cair em mais um grupo vulnerável, negando para si mesma que ela tinha atração por outras mulheres. Ela se esforça para ter auto confiança e, ao mesmo tempo, não buscava ser nada especial, apenas queria ser tratada como uma pessoa qualquer. “Eu sei apenas que houve feridas, o tempo todo. Na dignidade, no orgulho e no corpo.“(pag. 184). Mas a protagonista persiste, o tempo todo analisa as assimetrias de poder e opressões que a rodeiam.

Ser negro em lugares distintos

Vidas negras se diferenciam conforme os lugares de onde se analisa. “Nos Estados Unidos sou mais negra que na Alemanha”(pag. 19). Lá a protagonista vivencia uma comunidade negra onde tem a sensação de pertencimento em curto espaço de tempo. Logo de início, ela se sente aceita e menos marginalizada, diferentemente de como se sente na Alemanha. No entanto, depois ela perde a ilusão e se dá conta que nunca poderia realmente ser parte daquela comunidade uma vez que ela não compartilha o espaço de experiência histórico do lugar, a necessidade de resistir a séculos de escravidão e a persistência de, ainda assim, sobreviver.

Durante umas férias que passou na Polônia, ela é confundida com uma refugiada depois de se confrontar com um grupo de nazistas. Em Marrocos, ela usa o nome do pai angolano, uma vez que lá o nome do seu pai tem mais valor. Ela vivencia o racismo ao longo de toda sua vida e em todas as partes. Ela vive na Alemanha – e seu passaporte alemão é um privilégio que lhe abre oportunidades. Mas ainda reflete: “Seu país de origem é seguro? – Sob quais crtérios?” (pag. 17).

“Eu tive mais privilégios que qualquer pessoa na minha família jamais teve, e ainda assim estou na merda. Eu vou ser odiada por mais pessoas do que minha avó poderia imaginar. Com essa argumentação, no dia das eleições nacionais eu tentei por 20 minutos dissuadi-la a votar em um partido de direita.”(pag. 47)

A violência em potencial é um tema que persiste: “Você tem melhor noção de quando a violência tende a emergir do que as outras pessoas”. (pag. 287)

Mercado da Literatura na Alemanha: Branco e Masculino

De acordo com Olivia Wenzel, seu livro não é voltado prioritariamente a pessoas negras, ela o vê como um inventário de situações. A autora mostra para a sociedade de maioria branca coisas que ela dificilmente era capaz de perceber. Isso a leva a ingressar na cena literária que, na Alemanha, é branca, masculina e academicista.

Enquanto as mudanças estruturais lentamente vêm acontecendo na cena teatral das grandes cidades, onde Wenzel se sente em casa, no mercado literário Alemão quase não há autores negros. Jackie Thomae e Sharon Dodua Otoo estão entre as poucas exceções de autores negros de sucesso

Olivia Wenzel alcançou amplo reconhecimento com seu trabalho de estreia. Para jovens negros – que frequentemente vêm de situações de pobreza – empregos na área da cultura não são uma opção atraente. A questão de quem realmente acredita que pode escrever, exercer a profissão e atingir as qualificações profissionais é também importante. A reputação como autor(a) é geralmente irrelevante e pouco desejada para círculos socio-econômicos convencionais. Obviamente, o mercado literário também cria um efeito de exclusividade por meio de suas estruturas formais e informais: quem decide sobre o que se escreve? Quem tem os recursos para isso?

Não apenas um caso isolado e infeliz

O livro de Olivia Wenzel foi incluído na lista do Prêmio Alemão do Livro. Ele entrelaça vários tópicos em uma colagem comovente e é convincente com muitas passagens fortes. A violência policial não aparece no livro, o momento da publicação não se relacionou diretamente aos protestos ao redor do mundo contra a violência e o racismo estrutural da polícia. Ainda assim tem grande relevância, pois mostra as violências intríncecas que as pessoas não brancas estão expostas e o que isso causa a elas. E esse racismo é potencialmente fatal – e não apenas desde a morte de George Floyd.

Livros como esse também são importantes, pois propiciam o encontro entre as pessoas afetadas, mostrando que não são de forma alguma casos individuais lamentáveis ou casos extremos chocantes. E quando o sistema é questionado e finalmente se percebe que esses casos estão se repitindo, girando em círculos, a resposta é curta e grossa: “O problema não é que as coisas que eu conto se repentem – PORÉM – que essas coisas se repitam, o tempo todo, e que nunca parem.” (pag. 270)

 

Tobias Kraus
kritisch-lesen.de

Olivia Wenzel: 1000 Serpentinen Angst. S. Fischer Verlag, Frankfurt am Main 2020. 352 Seiten, ca. 24.00 SFr. ISBN 978-3-10-397406-5


 

Traduzido por Ricardo Paris / Revisado por José Luiz Corrêa

Categorias: Cultura e Mídia, Direitos Humanos, Não violência
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