Cultura de Armas em Las Vegas

03.10.2017 - Gunther Aleksander

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Cultura de Armas em Las Vegas

Após massacre em Las Vegas, os EUA voltam a discutir o porte de armas na cidade onde até matrimônios são celebrados em lojas de armas.

Cerca de 58 pessoas morreram e 515 ficaram feridos, quando Stephen Paddok começou a disparar contra a multidão de mais de 22 mil pessoas que assistia a um show em Las Vegas. Com uma quantidade de feridos e mortos superior a outros atentados similares, voltou com força o debate sobre a compra e venda de armas nos Estados Unidos.

A venda de armas em Las Vegas é muito comum e mais liberal do que em outras cidades, colocando em xeque os argumentos contra o estatuto do desarmamento que tentam nos convencer de que “armas não matam” e “países que tem mais armas têm menos violência”. Neste episódio concreto ficou evidente que quanto mais armas circulando, maior o número de atentados, massacres e assassinatos.

Turismo para Fanáticos por Armas

Las Vegas é o paraíso das Armas, as agências de turismo oferecem até mesmo casamentos em lojas de armas e pacotes turísticos para ensinar seus filhos a serem atiradores durante as férias escolares, basta eles terem 14 anos.

Estandes de Tiros com Armas de Guerra

Além de dezenas de lojas de armas, galerias e stands de tiro, a cidade abriga também feiras anuais para aficcionados por armas, onde podem comprar facilmente Pistolas, fuzis, escopetas, metralhadoras… incluindo provas com metralhadoras automáticas de alto calibrearmas restritas para uso das forças armadas.

Muitas galerias de tiro oferecem pacotes fechados, tipo “Guerra Fria” ou “O Dia D”, que incluem as armas usadas nessas ocasiões e oferecem traslado em veículos militares para os turistas.

A Maior Feira de Armas do Mundo

Ao que parece, a Shot Show, organizada pela National Shooting Sports Foundation, é a maior feira de armas do mundo, e ocorre anualmente em Las Vegas, Nevada, nos Estados Unidos. A feira reúne expositores, atiradores, indústrias, compradores e entusiastas de todo o globo.

Na edição de 2016 da Feira,  podemos ver um conhecido político brasileiro, fazendo alusão das facilidades com que ele consegue comprar uma arma nos EUA, sem precisar de autorização nem documentos.

Para os loucos por armas, Vegas é o lugar ideal. Onde mais ir para sentir  a sensação de poder ao disparar utilizando as mais violentas armas da atualidade?

Cultura das Armas e Massacres a Tiros

O site Gun Violence registra uma estatística de 272 grandes massacres a tiros nos Estados Unidos no decorrer deste ano, o de Las Vegas foi o 273º atentado do tipo, somente neste ano de 2017. É um número gigantesco que não pode ser ignorado.

O Atentado de Las Vegas bateu recorde em número de mortos e feridos, superando até mesmo o massacre da boate Pulse, em Orlando, onde outras 49 pessoas foram vítimas deste mesmo tipo de “liberdade” de portar armas.

A Cultura das Armas e do Ódio se relacionam diretamente com estes constantes e repetidos massacres nos Estados Unidos. Para compreender melhor este ponto recomendamos assistir o documentário “Tiros em Columbine” de Michael Moore.

A cultura americana, além de extremamento materialista, cultiva o ódio, a violência, a vingança e a competição extrema onde “a melhor defesa é o ataque”, criando um clima de contínua desconfiança e discórdia entre os cidadãos americanos (e também entre estes e outros povos), provocando uma insegurança nacional que faz com que o medo seja um sentimento crônico que é compensado através de uma falsa segurança “armamentista” onde prima o ódio no lugar do amor e a violência no lugar do diálogo.

Assim as indústrias de armas ganham mais e consequentemente o governo lucra bem mais nos impostos. Agora querem exportar esta mesma cultura belicosa para todo o planeta, naturalizando a humanidade numa visão zoológica, baseado numa sorte de “darwinismo social” onde impera a “lei do mais forte” no melhor estilo “Cowboy do Velho Oeste” tão apreciado por muitos norte-americanos.

Exportando Campanhas de Ódio

É curioso como a imprensa ocidental e alguns setores políticos  tratam os ataques a tiros com um discurso duplo e contraditório.  Neste caso o Estado islâmico chegou a anunciar que estava por trás do ataque. Mas  o FBI informou que Paddock não tem nenhuma ligação com o grupo ou qualquer outra “organização terrorista internacional”.  Imaginem as narrativas xenófobas que surgiriam na imprensa caso o ato de loucura suicida tivesse vindo de um imigrante mexicano ou árabe.

Quando se tratam  de extranjeiros são tratados como “terroristas” e se aproveitam do fato para jogar a população norte-americana contra imigrantes e refugiados de outras nacionalidades, sobretudo se forem árabes ou latinos.
Quando se tratam de cidadãos norte-americanos são tratados como “atiradores”, chamados de “lobos solitários” com problemas sociais ou mentais que não tiveram a devida atenção da família ou algo do tipo.

A  dupla narrativa serve para explicar e naturalizar o episódio, reforçando estereótipos que favoreçam os projetos da casta de políticos profissionais de turno, que manobram a opinião pública através do ódio, com a finalidade de obter mais simpatia popular e mais votos.

O episódio em Las Vegas não foi um caso isolado,  os atentados a tiros e os repetidos massacres mostram algo óbvio: existe uma cultura que gera este tipo de atentados de forma repetida.  Se queremos “desarmar” esta situação, é preciso tomar uma série de medidas imediatas (como proibir a venda e o porte de armas) como também uma série de medidas culturais a médio e longo prazo para criar cultura de paz, de reconciliação e de diálogo (incluindo educação para não-violência no currículo das escolas, campanhas de entrega de armas de armas, conscientização através dos meios de comunicação, eventos artísticos e culturais, exibição de filmes e séries, etc ).

Outro perigo são os think thanks “liberais” patrocinados por mega-empresários norte-americanos, que seguem a mesma cartilha de ódio com objetivos eleitorais, exportando esta mesma cultura para a política institucional de outros países alvo.

Importando Campanhas de Ódio

Os mesmos grupos que defendem a derrubada do estatuto do desarmamento no Brasil, defendem a cultura do ódio, da intolerância e do armamentismo. Pode parecer um detalhe, mas não é. Se tratam dos mesmos grupos que assediam escolas, atacam galerias de arte, agridem imigrantes, pedem intervenção militar e que também defendem a venda irrestrita e descontrolada de armas. Um tanto perigoso, tendo em vista os numerosos crimes de ódio que já ocorrem no Brasil, caso consigam seus objetivos, teríamos uma escalada de violência.

Também é notável que os mesmos grupos conservadores que confundem nudez com pedofilia, não reclamem da violência diária que as crianças são expostas através dos meios de comunicação. Demonstram extrema preocupação com uma suposta exposição de crianças em museus e galerias de arte, e nenhuma preocupação com numerosos infanticídiosassassinatos de adolescentes negros e acidentes infantis produzidas com armas de fogo.

A desculpa é sempre a mesma, a necessidade de armar a população para supostamente aumentar a segurança pública, fato que já desmistificamos em artigos anteriores aqui no website da Agência Pressenza.

Movimentos contra as Armas

Não são poucos os que alertam para os perigos de uma sociedade hiper-armada, dentro e fora dos Estados Unidos.

Diversos movimentos  contra o porte de armas surgiram após matanças e atentados a tiros. Um exemplo é o grupo Moms Demand Action for Gun Sense in America (Mães que demandan sentido comum sobre as armas), que surgiram após o massacre na escola Sandy Hook de Newtown, em dezembro de 2012.  As mães unidas lançam diversas campanhas de conscientização sobre a cultura das armas e os perigos de ter uma legislação tão permissiva como a dos EUA.

Estes movimentos nos mostram que o ódio é um sentimento poderoso, mas que o amor é ainda mais poderoso.

Descontrole do Porte de Armas no Brasil

Atualmente o Brasil corre o risco de cair no mesmo descontrole do porte de armas que ocorre nos Estados Unidos.
Num breve estudo realizado pelo coletivo Vigência que foi resumido neste Vídeo sobre o Estatuto do Desarmamento, pode-se verificar a estreita relação entre a industria armamentista e a bancada da bala, composta por deputados que defendem dos interesses dos fabricantes de armas no congresso nacional.

Para confundir a população, a bancada da bala chama de “controle de armas” a proposta (PL 3722/2012) que derruba as medidas do estatuto do desarmamento com objetivo de aumentar o lucro da indústria armamentista.

Quem nos alerta para este perigo é o Instituto Sou da Paz através da Campanha contra o Descontrole do Porte de Armas, realizada para conscientizar a população e pressionar o congresso, mostra uma série de reportagens e infográficos em que as armas foram usadas para tirar vidas em situações que nada tinham a ver com autodefesa.

Semana da Não-violência

Após o término da Marcha  Mundial pela Paz e pela Não-violência, realizamos anualmente a Semana da Não-violência, entre os dias 02 e 07 de Outubro, para criar consciência sobre a história e a metodologia da não-violência ativa e fomentar uma cultura de paz.

Realizamos um conjunto de ações e manifestações, para conscientizar a população e pressionar governos de todo o planeta e também as nações unidas a assinarem tratados de desaramento nuclear e pactos de não-agressão entre os países.

Em parceria com o Instituto sou da Paz, o Instituto Pólis e a Unipaz, nós da Agência Pressenza e do Movimento Humanista, estamos organizando uma  roda de conversa sobre:

1) Controle do Porte de Armas no Brasil

2) Proibição de Armas Nucleares na ONU

A Semana da Não-violência é também uma homenagem a muitas pessoas que dedicaram suas vidas a combater injustiças e a construir um mundo de paz.

A programação das atividades, assim como fotos e vídeos dos diferentes eventos, poderão ser acessadas através da página no Facebook e do Website – https://semanadanaoviolenc.wixsite.com/2017

Categorias: Não violência, Paz e Desarmamento, Video
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