CRÔNICA

Por C. Alfredo Soares

 

As minhas meninas, os meus meninos.

Quando pequenos segurava nas suas mãos pequenas. Levava e trazia da escola. Ia as reuniões onde só tinha mães. Dava carona para os amigos, arrumava a cama para aqueles que vinham dormir com eles em casa.

Cobria-os com o cobertor na madrugada fria.

Pensávamos no final de semana, o que iríamos fazer, para onde levar, a merenda do piquenique, a roupa adequada ou mesmo o repelente que não irritasse a pele. O carro saia lotado. Parecia van de excursão. No álbum as fotos confirmam tudo.

No inverno, férias na serra, na casa da vovó. No verão, férias na praia, na casa da vó. Gargalhadas vinham do quarto. Também tinha discussões . Dormir entre cochichos era

uma luta. Viver era uma luta. Mas o desafio era bom. Qualquer espirro assustava. Olhava o cartão de vacina dez vezes pra ter certeza que estava em dia.

Tinha a vó, o avô, as tias, madrinhas, padrinhos e amigos. Todos a postos pra socorrer e receber de braços abertos a turma. Cresciam e se juntavam. No carro não cabia mais a tralha que se carregava, na cama as pernas compridas, as calças perdiam da noite pro dia.

Muitas foram as cambalhotas financeiras para que o feijão com arroz não faltasse, nem o uniforme e os livros escolares.

Cresceram rápidos como trigo.

Se lançaram ao vento e não mais precisam de tutela paterna. Agora são filhos de si. Cheios de certezas em meio a incertezas.

Se é bom? Creio que sim. Se não tenho mais controle, me sobra o olhar de admiração.

Espero que se encontrem felizes. Essa sempre foi a intenção. Cada um no espaço que a vida lhes conferir. A missão está cumprida até que outra nos desafie.

Um é doce, outro instável, uma é decidida, tem a romântica e a realista. Todos se entendem. Isso é bom. A irmandade venceu.

Se pudesse, e meu dinheiro desse, teria tido uns doze.

Ainda bem que Deus é pai, não padrasto.