CRÔNICA

Por Valéria Soares

 

Ainda que criada em família católica, não fui incentivada à tradicional celebração do Dia de Finados. Não visitávamos túmulos e não levávamos flores. Íamos à igreja e minha mãe acendia uma vela aos seus mortos, porque nós, seus filhos, só achávamos o dia triste e ruim para brincar na rua. A tristeza dos adultos a nossa volta não chegava a nos tirar o desejo comum a qualquer criança: viver.

A vida demorou a nos impactar com a “Indesejada das gentes”, quando o fez usou o argumento da velhice. Levou-nos o avô e tempos adiante, o bisavô. Nunca é fácil, mas é mais suave se conseguimos racionalizar.

A morte do meu bisavô levou-me pela primeira vez a um velório. Lugar que pensava eu ser espaço de tristeza e choro sem fim. Não era. Pelo menos não aquele. Encontrei ali parentes desconhecidos, velhinhos carecas ou com cabelos algodoados, mas principalmente encontrei deliciosas histórias e um riso solto de quem tinha sabedoria suficiente pra entender que naquela cena todos, em algum momento, seriam o personagem principal. Chorando ou não, a vida seguia e eles, diante do inexorável, escolhiam rir.

Meu biso foi sepultado na terra. Voltou ao pó coberto por pétalas de rosa. Um de seus amigos, completamente bêbado depois da noite no velório, reclamou:

– No meu não quero flores! Joga cachaça.

Tempos depois, seus filhos atenderam seu pedido. Seu Zé Rodolfo, um baixinho divertido e cheio de histórias, voltou ao pó ensopado por sua branquinha preferida. Cria, acima de tudo, que continuaria sua festa do outro lado.

Mesmo tendo compartilhado suas aventuras João Mundica, meu bisavô e Zé Rodolfo há muito viviam vidas diferentes. Enquanto um não chegava perto de um copo o outro levou consigo várias doses.

A tradição popular diz que Finados é dia de festa dos mortos. Imagino as piadas picantes e a gargalhada aguda do Seu Zé já trocando as pernas, amparado por outros. Meu biso tentando pregar peças ou fazendo seu café retinto pra comemorar. Talvez, acompanhado por Ringo e Brigite. Vô Zé cruzando o salão dançando com vó Vita e ela reclamando que ele não está dançando direito. Tia Laura e tio Alfredo implicando um com o outro assistindo a uma partida de futebol. Tio Hélio aproveitando pra vender picolé e Creuza fazendo seu doce de banana com suspiro.

-Oxente, oxente, oxente! – Vó Maria se espanta quando Seu Sebastião, meu pai, chega e a chama pra dançar.

Embora a imaginação viaje e tente trazer à nossa memória aqueles que se foram , viver é para os que aqui estão.

Afinal, a vida é daqui para adiante!