Por Luis Andrade Ciudad¹/Idehpucp

Depois da comoção causada pela iniciativa do primeiro-ministro peruano de começar seu discurso em quéchua durante o pedido do voto de confiança perante o Congresso da República, além da reação desastrada e racista de alguns membros da oposição, convém pararmos para pensar como se pode aproveitar o momento desafiador que nós, peruanos e peruanas, estamos vivendo para aplicar ações mais duradouras e efetivas em favor dos direitos linguísticos e do respeito à diversidade linguístico-cultural no país.

Talvez um primeiro ponto que deveria ter ficado claro após o incidente é que, num país que se diz multilíngue e pluricultural, é fundamental que instituições públicas como o Congresso estejam mais bem preparadas para implementar um sistema de tradução e interpretação quando o momento assim o requeira. Ações como estas não só nos aproximam a respeitar o direito que os falantes das línguas originárias têm de utilizar seus idiomas durante as atividades que exercem no espaço público, como também contribuem para construir aquela interculturalidade tão repetida no discurso e tão negligenciada nos arranjos institucionais concretos.

Considerando-se que há membros do gabinete que sabem usar a língua quéchua – e a utilizam, com todo direito, com diversos fins estratégicos –, tanto entidades públicas quanto instituições privadas, a exemplo dos meios de comunicação de massa, deveriam avaliar a necessidade de contratar tradutores-intérpretes; isso lhes permitiria garantir o cumprimento adequado do seu trabalho e ainda resguardaria a imagem pública dessas entidades e instituições diante de uma eventual impressão que indicasse ineficácia e rechaço à cultura. Quanto a esse episódio, a TV Perú foi uma exceção; ela conseguiu garantir a tradução adequada do fragmento mencionado para que o intérprete da língua de sinais peruana não interrompesse seu trabalho. Isso foi possível porque o canal de TV oficial conta com apresentadores que conseguem traduzir entre o quéchua e o espanhol.

Há vários anos, o Peru conta com um importante conjunto de tradutores-intérpretes entre as línguas originárias e o espanhol, os quais foram capacitados e certificados pelo Ministério da Cultura. O investimento realizado pelo Estado e o empenho dessas pessoas em sua formação constituem um ativo que deveria ser aproveitado de maneira mais ampla e consistente. Esse grupo de mediadores linguísticos não só é capaz de interpretar e traduzir entre o espanhol e os quéchuas de Cusco e de Ayacucho (que são as variedades do quéchua mais difundidas e ouvidas publicamente nas últimas semanas), mas também nas outras modalidades, para mencionar apenas a família linguística quéchua. Mesmo com um projeto recentemente apresentado ao Congresso por Flor Pablo sobre o tema (e anteriormente impulsionado por Alberto de Belaunde) e com um pedido formal da congressista Isabel Cortez, fica evidente que o Parlamento nacional está desperdiçando essa reserva de profissionais há vários anos, como bem salientou a Defensoria do Povo.

Com relação a essa iniciativa de formação, que vem sendo desenvolvida há quase dez anos, o segundo ponto que merece ênfase diz respeito, de modo mais geral, ao conjunto de avanços realizados pela Direção de Línguas Indígenas do Ministério da Cultura do Peru em prol do respeito aos direitos linguísticos dos falantes de línguas originárias e da diversidade cultural no nosso país. Desenvolver esses cursos de formação em tradução e interpretação e dispor do registro oficial de tradutores-intérpretes não foi pouca coisa. Também não foi tarefa fácil iniciar um programa de certificação de servidores públicos estatais com funcionários e funcionárias capazes de oferecer um atendimento de qualidade nas línguas originárias predominantes em suas respectivas zonas. Mais complicado ainda foi ter acordado e afinado uma política linguística nacional que contemplasse distintas ações de revitalização, fomento e transmissão intergeracional das línguas originárias a curto, médio e longo prazo.

“Se as políticas linguísticas não forem conduzidas com seriedade e com um olhar amplo e centrado na construção de uma cidadania intercultural para todos os peruanos e peruanas, a aparição esporádica dos idiomas indígenas nos espaços públicos somente acompanhará – e talvez ajude a reforçar – discursos excludentes e ultrapassados”.

Saber quais desses avanços serão mantidos e aprofundados na gestão do atual Governo ainda constitui um enigma num país em que as políticas se encontram afetadas pelo mal da reformulação total que costuma influenciar as autoridades públicas. Cabe fazer a mesma pergunta sobre a experiência adquirida pelos funcionários do Ministério da Educação, tanto em torno da educação intercultural bilíngue quanto da formação de docentes capacitados de maneira adequada para realizar esta tarefa difícil e crucial.

Como terceiro ponto, um aspecto que, a meu ver, ainda não foi suficientemente planejado em nosso país é a institucionalização, por parte do Estado, da formação em línguas originárias como segundas (ou terceiras) línguas com um enfoque no perfil de quem está aprendendo. O crescimento, nos últimos anos, da relevância de aprender esses idiomas – sobretudo entre filhos e netos de famílias que, por razões já conhecidas de discriminação histórica, deixaram de transmitir essas línguas às novas gerações – deveria trazer mais ênfase e mais investimento de recursos nessa modalidade de formação, assim como na capacitação docente em metodologias apropriadas para o ensino de segundas línguas.

O que acontece atualmente é que aquele que deseja aprender uma língua originária, a exemplo de uma das variedades do quéchua, pode embarcar em uma experiência de estudos particulares, mas não contará com a certeza de poder se aprofundar nos níveis médios ou avançados de aprendizagem, pois a maior parte dos cursos oferecidos em nosso país alcança somente o nível básico. As iniciativas já existentes são muito valiosas – algumas delas gratuitas, como as oferecidas pela Prefeitura de Lima e por grupos de ativistas como o Coletivo Quéchua Central. Porém, falta uma coordenação estatal que centralize, potencialize e delineie melhor essas experiências em benefício dos futuros estudantes. Se bem implementados, os esforços nesse sentido servirão para contrapor a ideia equivocada de que as línguas indígenas são códigos restritos à vida rural e que só aparecem nas manifestações culturais consideradas tradicionais.

Se existe vontade política de construir um país multilíngue e pluricultural, é necessário, em meio a conjunturas desafiadoras, ir além do uso tático das línguas originárias. Se as políticas linguísticas não forem conduzidas com seriedade e com um olhar amplo e centrado na construção de uma cidadania intercultural para todos os peruanos e peruanas, a aparição esporádica dos idiomas indígenas nos espaços públicos somente acompanhará – e talvez ajude a reforçar – discursos excludentes e ultrapassados que postulam a existência de “tipos de peruanos” contrapostos de maneira essencialista. Nada mais distante do horizonte plural e democrático que a complexidade do nosso país requer.

¹ Doutor em Linguística com especialização em Estudos Andinos pela Pontifícia Universidade Católica do Peru

O texto original pode ser lido aqui


Traduzido do espanhol por Nathália Cardoso / Revisado por Graça Pinheiro