CRÔNICA

 

 

Por Marco Dacosta

 

 

 

O ar carrega pequenos fragmentos, que levitam e são visíveis sob a luz que invade o quarto. Salvador Dali ficava horas olhando os detalhes ao seu redor. Sua musa, Gala, as vezes desfilava para ele, como se imitasse os fragmentos. Os olhos de Dali eram como lentes que viam o mundo de forma diferente da maioria. Quando criança seus pais o fizeram acreditar que ele era reencarnação de seu irmão que havia morrido. Talvez por isso nunca fosse uma só pessoa, era uma multidão por dentro, forças em conflito, que as vezes precisavam sair. E suas mãos eram por onde toda aquela energia e vida encontravam o mundo.

Era uma tarde de ventania em algum mês perdido em 1969, quando ele, deitado no charmoso hotel “Le Meurice”, olhando para o teto de estrelas, as cortinas carmim, pensou que poderia novamente fazer um desenho. Tinha necessidade de agoniado, expressar seus sentimentos em tinta, sangue, pedaços de pano e telas rabiscadas. Mas precisava de musas, de outro olhar o julgando, uma outra força vindo em sua direção. Paris era uma passarela de musas. Sua Gaia foi inspiração para dezenas de obras. Muitas de suas criações chegaram a ser assinadas por ambos os nomes. A obra não existiria sem ela. Dali não seria seu salvador.

Paris em 1969 cheirava a perfume e pólvora. Havia agitação de passeatas ainda como extensão do ano anterior, marcado por revoluções. Exilados brasileiros se reuniam nos bares e hotéis para falar sobre como fariam para denunciar os crimes da ditadura. Por lá desfilavam nas vidas de pintores e artistas as mais belas mulheres do mundo: vinham de Saigon, de Roma, de todos os lugares, como mariposas em busca da luz. Kiki de Montparnasse, Nusch, Alice Apfel, entre outras, inspiraram poesia, livros, telas e filmes. Surrealistas sensuais ciganas, místicas, peles escuras como egípcias, todas exalavam perfumes fortes e doces.

Maria Garrido tinha apenas vinte e dois anos, nome e olhar das musas da Espanha. Estava em Paris porque havia vencido um concurso de poesias. Seus caminhos cruzaram Pierre Cardin e havia se tornado a única brasileira modelo de sua “Maison”. Por trás do glamour das passarelas era ainda uma menina da Urca, filha de mineira com um português, que não sabia bem ainda quem era aquele homem enlouquecido que descia as escadas no hotel.

Seus olhares se cruzaram e a multidão que vivia dentro de Dali olhou para Maria e a reconheceu de outras vidas ou quem sabe das vielas de Figueres, onde nasceu e passou sua infância, na Espanha.

Qual é seu nome minha bela? Dali havia saído em busca de algo que nem ele sabia, como sempre. E a resposta veio tímida, mas com voz imponente. Não era uma menina carioca perdida em Paris. Tinha uma postura de rainha, andava como tal. E respondia com uma força e energia que fez Salvador possivelmente lembrar de sua própria mãe. Ele se encantava com mulheres fortes, sentia-se dominado e dominador. Sua vida foi cercada de mistérios e dúvidas quanto a suas relações amorosas.

Salvador convidou a modelo de Pierre Cardin para uma de suas sessões criativas. Despejou sob seu rosto tintas de diferentes cores, fez trapos como se fosse um cachecol. Colocou-a contra a luz da janela, de onde saiam os raios de luz. E viu Maria Garrido também flutuando entre os fragmentos.

Gaia Dali acompanhava sem surpresa. A musa sabia que outras passariam por lá. Ela entendia o amor e entendia que Salvador precisava liberar essa energia criativa em outros corpos e belezas. Não era somente isso – Paris estava cheia de meninas lindas. Salvador Dali buscava uma estranha combinação de beleza e agressividade. De perfume e pólvora.

Naquela tarde, em 1969, o Brasil se exilava em Paris e uma de suas filhas fazia parte de uma obra de Salvador Dali. Maria Garrido de Espanha! – gritava o artista, tentando refletir o que ele via, talvez aquela mistura de belo e agressivo. Dali se confundiu nos delírios abstratos. Maria é e sempre será do Brasil, mesmo com o passar dos anos, mesmo depois de ter se casado com um senhor suíço que lhe deu um novo sobrenome que a faria nas décadas seguintes se tornar uma das mais intensas personalidades no país, enfrentando desigualdade social, violência policial. Como se fosse em uma passarela, sua vida passou pelos ares frios de Genebra, Berna, Zurique. Ele, grande amor de sua vida entendeu que os ares suíços eram lindos mas não conseguiriam comportar tanto amor e agonia que ela carregava em relação ao seu Rio de Janeiro. Queria estar em sua cidade natal, fantástica e quente, cheia de contradições.

Mas vida seguiu em Paris naquele 1969, com passeatas, bombas de gás lacrimogêneo, estudantes cabeludos nos bares e fumaça de cigarro embaçando os olhares nos restaurantes. Maria olhou o desenho de Dali naquela noite, deitada na sua cama, e entendeu tudo. Era uma projeção de seu futuro, com traços fortes, idas e vindas, perdas e ganhos. Uma vida fragmentada, mas cheia de amor. Dali era um bruxo, um visionário.

Madame Bourgeois poderia estar em qualquer lugar do mundo desfrutando das memórias, mas nas décadas seguintes dedicou sua vida a salvar vidas em favelas no Rio de Janeiro.

As passarelas de Cardin de sua existência foram substituídas por cozinhas industriais onde jovens ganhariam uma profissão e futuro. Centenas e centenas de mãos negras, pardas e frágeis ganhariam força e vitalidade por conta de suas brigas por justiça social. E briga mesmo, sem atenuar o grito na garganta. Uma vida que transforma outras vidas, graças – não ao perfume – mas à pólvora que ainda existe dentro dela.

Crônica trecho inédito da Biografia “Perfume e Pólvora” – a vida de Maria Bourgeois (em publicação).

Maria Bourgeois e Pierre Cardin – acervo pessoal de Maria Bourgeois