CRÔNICA

 

 

Por Marco Dacosta

 

 

Um asfalto escaldante nos esperava na Rua Domingos Lopes. Eu e Jane marchamos seguindo o lento ritmo da banda de música, vestidos com um uniforme cor de vinho que odiávamos. Era manhã em 1982. O Brasil assistia “A mulher do tenente francês”. Nós – aos 17 anos – descobriríamos a democracia e o amor.

O desfile já ia começar e Jane não parava de falar. Eram os planos para o verão daquele ano. O cheiro do mar, o balanço do ônibus lotado a caminho a Barra da Tijuca, as areias finas que entravam em nossos dedos. Romances suburbanos tem gosto de picolé de uva do “china” no trem, feito com kisuco, beijo com groselha e talco para acalmar a pele depois do domingo no mar.

Foi um namoro que não vingou, como tantos da nossa adolescência. Romances embalados pelas traduções das músicas em inglês, nos programas do Alberto Brizola. Na época gostávamos muito de um tema mas não tínhamos a menor ideia do que se tratava a música. Jane me dava as letras escritas em uma página de caderno, perfumadas e desenhadas com corações. Havia também um caderno de perguntas e respostas, que circulava entre as meninas, revelando seus segredos e gostos. Ter acesso a isso tudo era prova de confiança e amor.

Jane me apresentou ao misticismo, ao espiritual em uma época que eu me aproximava de ideologias que eram opostas. Fomos a uma casa de uma de suas amigas, uma egiptóloga. Havia forte cheiro de incenso, estátuas na estante e nossos olhares surpresos. Foi a primeira vez que pensei no destino, no futuro, mesmo olhando símbolos do passado. Beatriz, se chamava. Os nomes aparecem e desaparecem na memória, todos ligados a sabores, ao olfato e a imagens. Tutankhamon me olhava e eu deslizava meus olhos nas pirâmides que ela tinha espalhadas pela casa.

Enquanto amigos me levavam a comícios, reuniões clandestinas para derrubar a ditadura, Jane me empurrava para os astros e o desconhecido.

Mas naquele setembro não queria falar só de política, queria ir às festas da rua Felizardo Gomes, comer maçã do amor, dançar na quadrilha da escola, sentir o gosto dos beijos e o calor de um corpo contra o outro. Queria viver a liberdade e independência da juventude e das primeiras experiências sexuais. Me deliciava também ao ouvir rádio, usar roupas que atraiam olhares. Não há como descrever um verão em que se descobre o corpo, o amor e as dores que nos causam as primeiras perdas. Jane, com certeza foi a primeira sensação de que eu iria experimentar muitas paixões e que elas saíram de mim com a mesma velocidade que entraram, embaladas por canções e lágrimas, por disputas, competição, comparações. Amizade e amor se misturam e não sabemos quando uma termina e começa a outra. Era muito mais simples quando todos eram somente amigos.

O desfile de sete de setembro nos aproximava da imagem do fim do ano e não sabíamos que a vida iria nos separar. Muitas vezes prometemos que vamos continuar nos vendo, mas a vida nos leva para tantos e diferentes caminhos que fica difícil seguir acompanhando com o olhar. Vizinhos mudam-se, amigos deixam de existir, pessoas desaparecem sem rastro, surgem as primeiras mortes e o corpo segue bombardeado por hormônios, que nos confundem. Corremos para o colo da infância quando temos medo do que virá, mas o mundo não nos vê mais da mesma forma, as espinhas brotam no rosto, os desejos aparecem e quem amávamos até ontem, passa à nossa frente com outro novo amor.

Vamos perdendo amigos como se fossem cadernos de escola, amontoados em estantes, alguns que nunca mais vamos ver. Mudamos de casas, de empregos, de amores e vamos perdendo esses cadernos. Naquela época, sem Internet, nosso círculo de amigos que estavam em contato eram só os que estavam perto fisicamente. Meu caderno não tinha mais de vinte contatos com telefones fixos. Os cartões de Natal eram a recontagem das amizades que sobreviveram.

Durante décadas, o sete de setembro me lembrava Jane e seus óculos, aquele uniforme vinho insuportável, o desfile que nunca acabava, o cheiro do incenso da casa de Beatriz.. Desisti de achar Jane ainda na década de 90, quando saí do Brasil e achei que não voltaria a ver minha caixa de correspondência – o único sobrevivente das minhas mudanças.

Mantida pela minha mãe, a caixa estava abandonada e envelhecida, quando resolvi matar as saudades e ver as cartas que recebi naquela década. Lá estavam postais, cartões de natal, bilhetes de amigos, fotos, muitas coisas que durante anos me recusei a abrir, para não ficar chateado em ter perdido tanta gente ao longo do caminho. Me lembro de bem no início da internet, ainda usando o navegador “cadê” ter iniciado a busca de nomes que estavam lá na caixa.

Cerca de três décadas depois daquela primavera de 1982, abri a caixa para ler novamente as cartas e listar os nomes das pessoas que gostaria de ver novamente. Uma carta de Jane, um postal da escola, uma cartinha de Suely, um bilhete de Aldo – amigo que se foi em 1999. Numa pesquisa descobri que Elmar havia morrido em um acidente. Parei e respirei fundo. O passado está cheio de desaparecimentos. Segui.

Sabia que seria difícil ler aquelas cartas – respirei fundo e segui garimpando, lendo e me emocionando. Decidi que Jane seria minha prioridade, mas tudo que tinha era saudade e uma carta amarelada de 1982. Quando a gente vai envelhecendo as lembranças passam a nos acompanhar nos filmes de fantasmas que possuem histórias inacabadas.

Finalmente localizei Jane no Orkut, em 2008. Nos emocionamos ao telefone, falamos da vida e de tudo que aconteceu nessas duas últimas décadas. Ela tem dois filhos, está divorciada. Nos encontramos para comemorar a tecnologia que nos deu essas ferramentas tão poderosas para unir pessoas. Meses depois fui a um encontro de amigos da minha infância e adolescência, quase todos localizados pelo Orkut e e-mails. Todos foram “transferidos” para o Facebook nos anos seguintes. Muitos hoje fazem parte de listas no Whatsapp.

Na época do reencontro Jane deu gritos de alegria na frente do computador quando me viu na webcam. Sua filha, com olhar surpreso perguntou por tanta emoção. Ela – que pertence a uma geração que está conectada aos amigos virtualmente, pode se mudar, pode ir pra China que seguirá se comunicando com quem quiser. Mesmo sentimos saudades dos cartões de natal, dos bilhetes escritos, dos envelopes com selo, temos que admitir que as redes sociais nos abriram um caminho de reencontro único.

Ainda não descobrimos todos os recursos que o futuro nos proporcionará, mas iniciamos a construção do nosso memorial digital, desse acervo imenso de fotos, sons, selfies, imagens que estão eternizados em bytes e nuvens, que flutuam sob nossas cabeças em, qualquer parte do planeta.

Jane ainda está em contato, mas sigo procurando muitos outros nomes. Às vezes vou ao Google, tento no YouTube. Cada reencontro é uma peça de um quebra-cabeça da nossa memória e de todos que compartilharam comigo de uma mesma época, experiência ou amor. Reconstruir esse mosaico não é essencial ao futuro, mas nos dá uma sensação de que nenhum afeto foi perdido. Todos abraços, beijos, carinhos, admiração que conquistamos ainda estão por aqui, próximos, do outro lado de uma tela, ao clicar em um mouse.