CRÔNICA

 

 

Por Guilherme Maia e Paolo D’Aprile

 

 

Mãos: caranguejos artríticos, asas endurecidas de borboleta em extinção, mãos que tudo enxergam, mãos a construir destroços com a energia e a velocidade de um trem, no eterno descaso da ferrugem do trilho desativado: vida na espera, sem mais esperança alguma, de um porvir negado ao nascer.

Corpo: pornográfico prazer entregue ao delíquio do êxtase, mergulhado no deserto barroco da alma musical de um mundo em busca das raízes perdidas para sempre. Corpo jogado aos cães, arrastado nota por nota no firmamento escuro do ser, onde a única luz não é a do fim do túnel, mas é o reflexo do sonho de liberdade no lamaçal do fundo do poço. Arrastado nota por nota, sim, como passo de bêbado balbuciante na tentativa de chegar ao boteco já fechado, lacrado para sempre. Nota por nota, sim, para experimentar o sofrimento da dúvida, em permanente suspenção, no ar rarefeito de um túmulo fechado.

E quando a música começa, sabemos que a existência de um além metafísico, capaz de contê-la, é negada imediatamente pela fatiga de termos sido condenados a viver na imanência desse mundo, aqui e agora, no aquém: nota por nota.

E o corpo segue as contorções de todos os sons na devastação, terra arrasada de um inter-play da tradição negada, na repetição abolida, na ameaça de um novo nascimento em que, no mundo delirante, conheceremos de antemão o momento da nossa morte.

Keith Jarrett é assim: a ameaça do céu desabando do teto do meu quarto, a vagarosa viagem na roda maluca do hamster; Keith Jarrett é a negação de todas as cores, é o véu cinza da imobilidade, a ilusão do impossível. Keith Jarrett é o silencio morto da música, Keith Jarrett é um quadro cubista, fotografia imóvel das convulsões do espaço. Keith Jarrett é o olho que tudo vê em eterna vigilância, é o absoluto das mil possibilidades negadas pela sua própria inadmissível enormidade. Keith Jarrett, das fundações do Everest, avisa o mundo que a Montagna é de papel, mas o rato parido por ela é um monstro feroz. Keith Jarrett é o múltiplo domínio do conhecimento, é a contemporaneidade dos acontecimentos, é a soberba da música se achando mais linda que o silêncio, é a disciplina alheia a si mesma, à lei e à regra. Keith Jarrett é a perversão sonora do porão escuro, é a baba imunda do Marquês de Sade, é o olho vítreo de Torquemada na masmorra, a vontade soberana da encarnação do Mal.

Keith Jarrett, dedo na ferida, cutuca o que sobra de mim para que meus derradeiros passos sejam lembrança da minha empáfia, quando eu tocava piano pensando nele, deitando na sua música como piolho debruçado em pústulas na careca infame, maltratando com vontade as ondulações melódicas, as harmonias subentendidas, trôpego passo de pé manco, preposição inútil de um discurso proferido pelo catarro da minha presunção. Sem compreender a razão da minha existência, batia nas teclas o meu desespero, justificando a mimese como citação: incapaz de inventar, eu imitava, copiava, repetia gestos, caras, bocas, tentando dominar a experiência musical muito antes de tê-la vivido.

E hoje, é ele, Keith Jarrett, através da multidão dos sonhos irrepetíveis, puxando minhas correntes de condenado, a me levar ao braço secular, para que, definitivamente, no momento supremo, de olhos bem abertos, eu aprenda que no verdadeiro mundo da música, da arte, da felicidade sem fim, lá, além do arco-íris, para mim não tem lugar.

Paolo D’Aprile

 

 

 

Em 1975, Keith Jarret levou toda sua verve de artista virtuose para o Opera de Köln, na Alemanha. Nos seus Piano Solo Concerts desde 1974 demonstrou ser um concertista de um nível altíssimo, como um Arthur Rubinstein da vida, um Hororowitz e um, por que não compará-lo em sua desenvoltura solo com Artur Moreira Lima (olha aí o complexo de vira-lata que nos alertava Nelson Rodrigues)?

Keith deixou de tocar com seu quarteto à maneira de Thelonious Monk – ou seja, de repente -, este quarteto é o que restara do Charles Loyd Quartet acrescido Dewey Redman (ponte entre Jarret e Ornet Coleman).

Merece detalhes: Charles Loyd fora quem descobriu Keith Jarret, que, em seus primeiros passos, tocava sozinho em um saguão de hotel em Boston. Loyd levou Jarret para tocar no East Village em fevereiro de 1966, auge da identificação do bairro como a Montmartre nova-iorquina. Não haveria lugar mais perfeito para o impulso desse grande jazzman.

Em meio aos Beatniks e à libertação seu piano singrou para a Europa. Foi o primeiro músico de Jazz a tocar no Fillmore Auditorium, em Denver, Colorado, após voltar do velho continente – o que é um feito marcante, haja vista ser este auditório o local onde o Rock Psicodélico bombou com tudo!

A menção que fiz a Thelonious Monk (além de gostar de pronunciar seu nome sempre) diz respeito à forma repentina e abrupta com que Jarret deixou seus sucessivos trio e novamente quarteto em plena prosperidade de uma segunda tournée pela Europa no período de 1970 a 1971 para voltar-se exclusivamente para os seus Piano Solo Concerts. Digo isso porque Thelonious surgiu no estúdio da Columbia Records sozinho para gravar seu Solo Monk após uma tarde de efusivo sucesso com seu histórico quarteto nos night clubs da vida, no caso o It Club, em Los Angeles.

Assim é o gênio indomado. Guia-se pela pulsação artística interna sacrificando convenções: no caso de Monk em 1964 gravações de piano solo eram raríssimas e me vêm à mente apenas Art Tatum e Errol Gardner (às vezes acompanhado de leve por baixo e bateria – quase como se não estivessem lá). Já no que diz respeito a Keith Jarret, seus solos vieram em uma época de explosões elétricas de guitarras e progressive rock e, espantosamente, com arpejos inusitados e polifonia onipresente no espaço acústico ele consegue se firmar como uma inovação, um novo respiro ao Jazz em plenos 70!

1975 – Colônia, Alemanha

Sentou-se no banquinho à frente do piano, estalou os dedos; abaixou a cabeça e rompeu com a barreira que há entre o contingente e o absoluto.

Confundido músico e instrumento como um ser apenas tal é a sintonia da execução da música naquela hora.

Imaginem um filme de ficção científica dos finais dos anos 70 para os 80 numa tomada onde há uma passagem abrupta da visão das paredes do quarto do personagem adolescente para um emaranhado de tecidos simétricos verde neon dispostos em perspectiva. Parece um século atrás, mas esse era o efeito mais especial que aparecia na filmografia da ficção científica mediana daquela época. Mas o interessante é que esse verde neon fosforescente de linhas retas e geometricamente entrelaçadas soa exatamente como a decolagem do THE KÖLN CONCERT de Keith Jarret.

E como é espiritual com toques de ficção científica à La Azimov o desenvolvimento das linhas melódicas em polifonia interminável, quando estas sugerem arrebatamentos cheios de mistérios futuristas nos arpejos graciosos sucedendo acordes tão naturalmente que servem de ensejo para novas composições dentro de uma mesma peça. Um devir talvez da nova etapa na evolução das espécies.

Mas ao mesmo tempo Keith adiciona nuances impressionistas ao piano (mas de um impressionismo sui generis, idiossincrático ao universo do músico – um dom que só ele pôde e pode vislumbrar). THE KÖLN CONCERT faz a gente acreditar em Platão e, por decorrência lógica imediata, em deus, durante os quase 70 minutos de execução: posto que os dedos de Jarret levam nossa mente para um lugar à parte, onde tudo é perfeito, tudo é ideal e o jazzman está lá como um arauto dessa grandeza por meio de sua perfectibilidade.

Um aparte: um ser existente não pode ser perfeito devido a não pertencer ao Topós Noetós – ou “reino de Deus” como se convencionou chamar depois de tanta gente ter sido queimada a fogo lento. No entanto, Pico Della Mirandola, um dos artífices do pensamento renascentista, consegue uma brecha no pensamento anti-humano e inclui o conceito de perfectibilidade. A perfectibilidade é a apologia da grandeza humana sem afrontar o deus inquisitório de sempre, assim o humano através de seu esforço e estudo aplicado consegue chegar a um grau de alcance ao ideal perfeito. Impulso imprescindível para o desenvolvimento da intelligentsia que andamos necessitados de retomar!

Enfim: por meio da perfectibilidade de Keith Jarrett somos transportados ao passado e ao futuro de um plano que não encontramos aqui no palpável.

Ouvindo o THE KÖLN CONCERT conseguimos entender toda a bibliografia de Stephen Hawking (pronto… assumi que não faço a menor ideia do que seja gravidade quântica – a não ser que rima com Avenida Atlântica).

De fato, na Parte II b deste concerto inquietante dá para começar a deglutir que as singularidades matemáticas no espaço-tempo são habitués da relatividade geral e que teoria do buraco negro não tem nada a ver com o que o pessoal faz na Rua da Glória depois da meia-noite.

E não são mesmo as singularidades espaço-tempo constantes na relatividade?

Tenho certeza que sim ouvindo Keith Jarret passando do Old para o New Rag e depois decompor toda a matéria ao seu redor em Colônia, na Alemanha, em 24 de maio de 1975!

Naquela hora ele forneceu a todos uma tabula rasa para construção de todo um conhecimento novo de ser e estar no mundo ao lado do outro. Por sua vez, o ser vivente deixa de ser singular (indivíduo, uno e exótico) e passa a ser um frater (irmão, uma compreensão do viver como um ser-para-o-outro)! Claro: se a música dele eleva nossos pensamentos a um cosmo onde todos são e estão postos conjuntamente com toda a matéria e anti-matéria em pé de igualdade existencial: somos um e não há classes ou divisões entre os viventes.

Abracemo-nos ouvindo Keith Jarret em Colônia.

Vale muito a pena!