As águas tristes de Gorée

02.05.2021 - New York, EUA - Marco Da Costa

As águas tristes de Gorée
(Crédito da Imagem: Ilustração de Guilherme Maia)
CRÔNICA

 

 

Por Marco Dacosta

 

 

A brisa do mar em Gorée  é quente. O cheiro do sal e da maré encheu os pulmões de Benedita enquanto ela olhava para o horizonte. Seus olhos vagavam na pequena ilha a oeste de Dakar, no Senegal. Ela havia escolhido visitar o porto de onde saíram os navios negreiros que levaram seus bisavós à força até as águas da Bahia de todos os Santos.  Lá foram escravizados e enviados a plantações, no início do século passado. Só poderiam ser nobres de suas tribos – afinal de onde a pequena menina nascida na favela do pinto, no Rio de Janeiro, poderia tirar aquela postura de rainha ? Desde pequena destemida, teimosa. 

A viagem ao porto de Gorée era uma ponte com o passado, com os gritos e sussurros da dor de quem foi arrancado de sua terra, com a dor do açoite que cortava a pele nas noites em que o barco dançava no oceano. Ela percorreu as vielas de ruas de pé de moleque, da cidade criada pela riqueza da escravidão para olhar o mar e tentar sentir as águas que sua bisavó um dia derramou lágrimas e sangue. 

Uma dinastia de mulheres guerreiras – só podia ser a explicação para aquele olhar feroz. Tão diferente de tantos outros negras e negros acostumados com a cabeça baixa, com os gritos da casa grande. Benedita, a bisneta dos que saíram de Dakar, nasceu numa favela para onde foram todos os descendentes daqueles navios. Eram casas de madeira com zinco, que aquecidas no verão cozinhavam seus corpos. As curvas bem acentuadas do seu corpo foram tocadas sem sua autorização e vontade ainda adolescente, seus amores – ah quem se importa em amar quando falta a comida!  Benedita acordava abafada pelo calor das tábuas mal pregadas de suas paredes, corria atrás das galinhas para o almoço e dobrava as roupas que sua mãe lavadeira tinha que entregar. 

Mas a menina da favela não estava ali no Senegal para ver o azul do mar e honrar seus antepassados apenas. Era um retorno sofrido, como nascer ao contrário com seu corpo voltando à barriga de sua mãe. De lá um caleidoscópio de lembranças e angústias, todas as lágrimas desciam e voltavam ao mar. A menina, a mulher, mãe e avó, todas as memórias daquele navio negreiro. Provavelmente a única descendente de todas aquelas centenas de almas, a voltar à pequena ilha de Gorée. 

Benedita respira fundo. Olha novamente para o mar. Seca as lágrimas e dá um sorriso, daqueles que soltamos após uma vitória. Mostra os dentes, ajusta o cabelo e o chapéu cor de vinho, se reajustar no tailleur branco e pérola. Seu motorista à espera com a porta aberta de um carro oficial com as bandeiras de uma embaixada. É mais que uma visita oficial. No caminho do cais uma menina cruza seu caminho e lhe oferece flores. Poderia ser sua neta, se não tivessem levado seus antepassados à força daquele lugar. A menina sorri sem saber que é sobrevivente, que sua tribo sobreviveu ao comércio de corpos e almas. 

Benedita caminha para carro e deixa o vilarejo, no vídeo do carro as sombras do casario se refletem e desfilam como em um filme. E correm crianças a oferecer flores e a pedir ajuda com as mãos estendidas acompanhando o carro. E seus olhos encharcados de lágrimas se despedem do porto, do passado. A cidade desaparece pela janela do avião naquele voo que sobrevoou Dakar com destino ao Rio de Janeiro. Benedita olhou para aquele mar sem fim e viu barcos se reduzindo até virarem pontos negros. Ao desaparecerem como estrelas no céu. 

Naquele trecho entre o Senegal e o Brasil milhares de corpos desapareceram, lançados pelos traficantes de escravos – diz a história que quase metade dos navios morreriam de fome, sede, doenças ou tortura. Benedita sobrevoou um trajeto de um mês em poucas horas, mas  fechou os olhos e sentiu toda aquela dor, todas as angústias. Chegou em casa, abraçou o marido e os netos, mostrou as fotos como troféu. Havia voltado às origens e regressado em paz, orando pelas almas e sentindo gratidão pela superação de tantas heranças difíceis. 

Seu corpo descansava na cama enquanto olhava para o teto quanto as mãos de seu amor tocavam carinhosamente seu braço  – você está bem ? Perguntou Antônio. Eu disse que seria cansativo, mas você é …. teimosa. 

Benedita sorriu. – Meu cansaço é de uma paz tremenda. Agora eu sei de onde vim – e lá tem o pôr do sol mais lindo que já vi. 

Do livro “Teimosa” de Marco DaCosta (inédito), uma biografia de uma das mais conhecidas lideranças negras da América Latina, Benedita da Silva, que completou essa semana 79 anos.

Categorias: Ámérica do Sul, Cultura e Mídia
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