CRÔNICA

 

 

Por Guilherme Maia e Paolo D’Aprile

 

 

Ya Ya, porque foi assim que tudo teve início. Ya Ya, no alvorecer da humanidade, no compasso do lento vagar da horda, no derradeiro pulsar do coração do bicho abatido, no crepitar dos elementos em fúria, na fome, rainha absoluta de toda escuridão. Ya Ya. Porque foi lá na África que tudo começou, quando mãos e pés ditam a dança no dum dum da festa, do rito, do ser que toma consciência de si. E o homem se faz ritmo, ondulação, úbere próspero na sinfonia polifônica de todos os tambores.

Mas da África é levado à força. Nas terras de América fecundadas por tormentos inimagináveis, surge Cuba com suas claves, a Jamaica na levada em dois por quatro, New Orleans embalada na alegre marcha dos Santos, surge Salvador: os insondáveis mistérios de todos os sambas. E no balanço de um deus menor, quando o mundo deu por si, no centro do umbigo está ele, verdadeiro pai do prazer, enjeitado na roda dos filhos da dor, motor imóvel, totem, circunferência cósmica, esfera primordial cujo centro é em toda parte e toda parte é o próprio centro.

Nascido do ritmo, dele se torna o absoluto senhor e como tal chama a si os melhores que aprendem com ele, e por ele, que a eterna harmonia só pode se manifestar pelo ritmo; aprendem que a sucessão horizontal das notas capazes de formar melodias universais, nada é, e nada será, fora do ritmo.

Seus inúmeros filhos artísticos, não foram educados para o mundo, mas para ele, e não importa que ao longo das décadas sucessivas, toquem piano saxofone trompete mundo afora, não importa que virem superstar, ganhando fama e dinheiro com milhões de discos vendidos, não importa. Ele ensinou a cada músico com quem dividiu sua aventura que todo instrumento é um tambor, e tudo é ritmo.

E assim fizeram, mensageiros do jazz, apóstolos da música: em cada nota tocada, em cada pausa, nos interstícios sincopados dos compassos, lá estava o mestre, espantando para sempre o horror vácui, o vazio da secura da alma, preenchendo todos os espaços e construindo o tempo sem tempo da eternidade, na forma de arte mais importante do século XX, o jazz. É quando as perguntas não respondidas esvanecem na impalpável matéria dos sonhos que ele aparece. Ele pedra, pele, pé descalço, homem nu, origem, afirmação, dor que me acompanha, espinho cravado, punho fechado em meu peito, grito de todos nós: Ya Ya porque foi assim que tudo começou. Ya Ya porque ele disse que era assim: Art Blakey.

 

 

Imagine arregimentar uma plêiade de gênios de gerações diferentes e fazer um som que entrou para a história da música como uma retomada, ou melhor, releitura do swing. O swing se encontrava na criogenia quando Art Blakey e Horace Silver centrifugaram o Jazz Messengers.

A energia sempre surgiu de um ponto inconfundível, Blakey, e irradiou para o infinito do acetato e do vinil. Era 1955 e o exímio baterista iniciou seu apostolado do Jazz, juntou nomes como Lee Morgan, Johnny Griffin e Clifford Brown a Keith Jarrett e Wynton Marsalis. Com efeito, esse amálgama promovido pelo baterista, num tour de force admirável, tornou o tempo algo bem mais relativo do que concebeu Albert Einstein: por causa do Jazz Messengers, o tempo deixou de ser igual para todos e variou pela velocidade, a gravidade e o espaço percorridos pelas baquetas onipresentes de Art Blakey.

Que vitalidade possuía Art até seus cabelos brancos despontarem na cabeça, aí teve de começar a dividir a bateria com John Ramsey.

Mas a origem do Jazz Messengers mantém-se como essencial para entender quem foi Art Blakey, ele era o pai, vale lembrar que Horace Silver retirou seu piano ainda em 1956, ou seja, permaneceu no grupo por quase um ano. Como o pai, seus entendimentos formaram o norte dos Messengers e, por isso mesmo, o nome do baterista se confunde com o da banda.

Blakey foi, ou melhor, é, o grande missionário do Jazz.

O Jazz na sua essência, entendido e sentido como algo libertário, aquela liberdade que está na Jam (improvisação) e nas desconstruções rítmicas e harmônicas que incutem o senso de livre quebra de paradigmas dados e, posteriormente, a formulação própria para sermos autênticos nessa nossa experiência no mundo material.

Parêntese: o grande pensador e cientista e padre jesuíta Teilhard de Chardin cunhou uma frase emancipatória: “não somos seres materiais que têm experiências espirituais, mas sim seres espirituais que experimentam a materialidade”.

Nesse veio, quero tocar no ponto da vocação missionária de Art Blakey.

Nasceu e foi adotado por um homem extremamente religioso, e isso quer dizer que nasceu em 1919 e seu pai adotivo era um fervoroso na prática da igreja Adventista do Sétimo Dia. Nessa denominação religiosa aprendeu a tocar o piano, porém, quando foi tentar a carreira profissional e conseguiu um contrato em um nigth club de Pittsburg, sua cidade natal; o dono condicionou sua apresentação à execução dos números musicais tocados por Art em uma bateria.

Com essa imposição, o mundo da música ganhou um de seus maiores e, para o Jazz especificamente, o baterista quem ao lado de Max Roach, engendrou o Bebop nesse instrumento.

Madurou artisticamente ao lado de Chick Webb e, em 1937, formou sua própria banda.

Enérgico, sempre se pôs na estrada. A partir de 1939 até sua morte ,em 1990,, viveu a vocação missionária. Errante e propagador da liberdade criativa que encanta e estimula o bem viver de uma existência plena, tornou-se Abdullah Ibn Buhaine após visitar a África e ser envolto pela fé islâmica.

A música era sua fé e pelo espírito de libertação se converteu ao islamismo ao mesmo tempo em que desenvolveu a polirritmia na bateria.

Com efeito, Art Blakey é um gênio que encarnou a beleza da religião verdadeiramente sentida – longe desses arremedos que vemos reduzirem o espiritual à imposições de dogmas vãos e mesquinhos -: Blakey propagou a beleza e a liberdade como busca do contato com a divindade!

Obs.: enquanto escrevo essas linhas, soube que Curtis Fuller, – o lendário trombonista que esteve na mesma missão espiritual de Art por décadas – faleceu ontem, dia 08 de maio de 2021.

Irreparável perda. Fica a beleza de seus voos!