CRÔNICA

 

 

Por Paolo D’Aprile e Guilherme Maia

 

 

E foi um susto geral.

Velho e doente, continuava a nos surpreender.

Estávamos em meados dos anos oitenta e, rodeados pelas habituais formas banais e recalcadas do jazz, velhas de vinte anos ou mais, nossa resignação só não era total pelo amor à música. Mas este disco, com sua primeira composição perturbadora, bagunçou tudo, de novo. Fora o baixo elétrico e o trompete, os outros sons provinham da infinita possibilidade criativa que a eletrônica podia proporcionar, sons inéditos, inventados, nunca ouvidos antes, acrescentados aos poucos numa verdadeira engenharia musical, vindos para escancarar as portas do futuro: Tutu, nome de bispo africano, Tutu, nome do disco que me acompanha nessas longas décadas evaporadas no delirante sopro da minha vida.

Poucos meses antes, frente ao êxtase de milhares de pessoas, no estádio da cidade de Perugia, uma longa nota, a mais longa de todas, nascida nas alturas e parida das profundezas do ser, mostrava que a modernidade dos teclados eletrônicos podia caminhar junto ao Blues imortal. E assim foi. Naquelas duas horas de música, eu vi The man with the horn, o homem com trompete, dobrar-se na fluidez, como um corpo sem órgãos, inundar a noite de estupor e maravilha: a música que fala de si mesma no mundo feito de vontade e representação dos sonhos nunca sonhados, das terras imaginadas, da felicidade que poderia ser e será. O castelo sonoro, hino da criação humana, bem na minha frente. Milhares de pessoas aquela noite no estádio, milhões de pessoas hoje pela internet, mas eu sei que foi para mim que ele tocou, foi para mim que mostrou a liberdade compositiva inserida no contesto da eletrificação, a subversão das regras por ele mesmo inventadas e desobedecidas para sempre; foi para mim que mostrou o virtuosismo deixado livre de expressar sua urgência, foi para mim.

Obrigado, Miles.

 

Quando a gente se pega pensando nesse deus do jazz, a primeira ideia que nos assalta é: mas ele era um jazzman e, de repente, virou um pai de santo, um líder espiritual, um xamã?…

Tudo isso para quem se apega às aparências. Ora, e o Miles Davis era um artista plural em todos os sentidos. Mais abaixo vou falar sobre o bíblico Kind of Blue, mas, antes, quero desfazer mal entendidos históricos.

Se formos entender o Miles como um fóssil no período anterior à sua mudança de indumentária, vamos ter de ignorar todas as revoluções harmônicas e rítmicas do Bebop, do Hard e do Cool Jazz. Seria, por exemplo, John Coltraine, Eric Dolphy e Le Morgan figuras vetustas? E Charlie Parker? NUNCA! E estaríamos nas perigosas plagas da heresia…

Nesse sentido, vale muito a pena analisar a figura toda do Miles, a começar pela sua Ferrari 275 GTB (apenas 280 exemplares vendidos) e sua Lamborghini Miura. Isso ainda nos 60 e 70.

Essa área prosaica da vida de Miles não teria importância se não fosse o caso de ele ser um todo de originalidade. Assim as ostentações de sua coleção de carros passam a formar uma face de sua personalidade como artista. Não como uma justificativa de acumulações absurdas de renda, mas como algo parecido com o Salvador Dalí e sua Carrer Dali-Gala (rua em catalão), onde o artista plástico manteve um castelo na cidade na cidade de Puból, na Catalunha – presente para a musa Gala.

Surrealisticamente, Miles conseguiu a peripécia de tornar ostentação em arte como Dalí o fizera. E isso também faz parte do todo da personalidade multifacetária do trompetista.

Isso importa? Agora fiquei na dúvida, por que, para mim, falar sobre o Miles Davis é difícil. Ele é muitas coisas!

Mas o que quero dizer é que Miles Davis sempre foi vanguarda, mesmo quando usava ternos para apresentar-se com o seu clássico Quinteto montado em 1955 (bem… John Coltraine; Red Garland; Paul Chambers e Philly Joe Jones).

Para conseguir me expressar com mais inteligibilidade, vou direto para o álbum Kind of Blues. Este um clássico absoluto e atemporal. Sempre vanguarda, sempre MÚSICA BOA e Haute Art!

Ressalva: esta minha dificuldade é devido a entender Miles Davis como um camaleão que é o mesmo em suas mais diversas adaptações ao ambiente.

Por isso este texto tem duas linhas-mestras: Miles Davis sempre foi o mesmo Miles Davis sem ser o Miles Davis sempre… Deu para entender? (Miles confunde um pouco a minha cabeça); e, para conseguir analisar um artista tão plural, centrar minha atenção no álbum Kind of Blues.

A primeira está exposta nas linhas acima. Sobre a segunda, começo logo abaixo.

Ano: 1959. Miles Davis, em duas sessões de gravação, encerra uma Obra Prima chamada Kind of Blues. Aliás, ele e outros titãs da música. A Terra tremeu nesse dia: Cannonball Adderley (Alto Saxofone); John Coltrane (Sax Tenor); Bil Evans (Piano); Paul Chambers (Baixo); Jimmy Cobb (Bateria) e Wynton Kelly (Piano em Freddie Freeloader).

Esse Jazz tinha uma vestimenta diferente denominada “modal Jazz”: onde as escalas se imbricavam umas nas outras sucedendo como uma série de escalas sobrepostas umas às outras.

Essa nova ruptura vinha de para substituir o papel dos acordes e harmonias intrincados nas improvisações das jam.

Miles era tão vanguarda que fez uma revolução sobre o próprio trabalho dele com Gil Evans de 1958 “Milestone” (ou “Miles” para os íntimos), e, também no excepcional Porgy and Bess, releitura da sagrada ópera negra de Gershwin. Nessa última, a pièce de resistence Summertime foi recalchutada para um desse tipo modal longo sem mudanças de acorde.

Essa genialidade transmorfa do Davis nos leva até o conceito de Antropofagia do Oswald e do Mário de Andrade: imagina deglutir uma teoria filosófica musical e formar uma releitura de standards: foi o que ele fez.

Lydian Chromatic Concept of Organization”, do compositor e alquimista da alta teoria musical foi uma das referências de Miles, em um primeiro momento com Gil evans, para dominar os limites da complexidade dos acordes e sua interação com o improviso jam.

Mas, enfim, este é Miles Davis e “So What”? – Como está na abertura de Kind of Blues!

Agora, mais seguro ao falar retomo a ideia de ser esse deus do Jazz sempre uma persona sobre todas as suas roupagens, de Birth of the Cool e Ballads and Blues até os cósmicos Bitches Brew e Pangaea e, ainda mais, You’re Under Arrest e Amandla: porque o passo à frente está em toda a obra dele.

Meu amigo, o italiano mais brasileiro do mundo Paolo D’Aprille, sempre com maestria, fala da fase “Tutu” (1986) e The Man With the Horn (1981), fase espetacular e suas últimas rupturas com tudo até mesmo com sua obra. Que sorte meu amigo teve de poder ver aquele deus do Jazz.

Miles sempre foi um avant-Miles, Miles sempre foi um antiMIles. Nunca deixou de estar à frente e, até mesmo agora, está à frente de nosso tempo.