Sucesso de Lira estampa vitória da direita sem projeto. Ganha o Centrão e perde o Brasil

03.02.2021 - Diálogos do Sul

Sucesso de Lira estampa vitória da direita sem projeto. Ganha o Centrão e perde o Brasil
Crédito da imagem: Wilson Dias/Agência Brasil

Por Giovani del Prete

É na bancada 4B  – da Bala, do Boi, da Bíblia e dos Bancos  -, que o Centrão se forma, majoritariamente; Bolsonaro definitivamente ancorou o poder no conjunto de seitas autoritárias

Com 302 deputados elegendo, em primeiro turno, Artur Lira para a presidência da Câmara dos Deputados, o governo Bolsonaro definitivamente ancorou no Porto insaciável de poder que é o Centrão.

Fisiológico, balcão de negócios espúrios, sem programa político, pragmatismo capitalista. Todos esses predicados do chamado “Centrão” indicam bem de que lado da história essa fração do poder está.

Mas, o que é esse tal centrão? Qual sua importância?

O Centrão é a direita sem vergonha de dizer que não tem um projeto de país e que reúne um conjunto de seitas autoritárias. É na bancada 4B  – da Bala, do Boi, da Bíblia e dos Bancos  -, que o Centrão se forma, majoritariamente. Lastreado no poder econômico dos grandes empresários (latifúndio, bancos, setor de serviços e indústria), o Centrão, mais uma vez, comanda as rédeas da política nacional em Brasília.

O Centrão é a direita que não tem vergonha de ser moralista sem moral.

Com deputados/as e senadores/as com forte vínculo com o grande capital privado (brasileiro e estrangeiro). São os políticos amigos/funcionários da JBS, do Edir Macedo, dos Marinho, dos Setúbal, Sadia, Taurus, TV Record, Globo, Fundação Lemman, Gerdau, Safra, Itaú, Marfrig e etc., que são os políticos mais influentes, que controlam frações inteiras dos principais partidos que historicamente são do Centrão. PP, PL (ex PR), Republicanos, Solidariedade, PTB são os “sangue puro” do Bloco, que com muita frequência recebem apoio dos votos do DEM, MDB, PSD e PSDB.

Ou seja, o Centrão é a direita. É a direita que não tem vergonha de ser moralista sem moral. De falar em defesa da vida ao mesmo tempo que faz lobby para liberar porte arma, para criminalizar a atuação dos movimentos e partidos progressistas ou apoia abertamente do genocídio com suas redes negacionistas em meio a pandemia.

Bolsonaro e sua prole nasceram, politicamente, deste antro de fisiologismo fundindo com um moralismo conservador e concentrador de renda e patrimônio. Quando falamos do Centrão, é disso que estamos falando: nada além do que a pior fração da direita brasileira.

Fatores desnivelaram o jogo para Bolsonaro, que espertamente se agarra na fração mais poderosa da política brasileira desde as eleições se 2014.

Hoje, depois de receber mais de 3 bilhões de reais em verbas públicas e liderar a governabilidade do país pelos próximos dois anos, o Centrão acolheu um Bolsonaro que já perdeu muito apoio desde que começou a governar há dois anos. A saída de Moro, a criminosa condução do governo durante a pandemia, a divulgação de alguns dos esquemas de nepotismo, funcionários fantasmas da Familícia (que condecorou o chefe do crime no RJ com medalha pública dentro da cadeia, com Fabrico Queiroz na articulação de tudo), esses e outros fatores desnivelaram o jogo para Bolsonaro, que espertamente se agarra na fração mais poderosa da política brasileira desde as eleições se 2014.

A partir da presidência de Eduardo Cunha, antigo líder do Centrão, o Congresso Nacional passou a cumprir a função do Executivo, o Judiciário a função de Legislativo e o Executivo assumiu o papel de Judiciário. O Golpe de 2016, que começa na presidência da Câmara de Eduardo Cunha, abriu a trincheira para que hoje, seis anos depois, estejamos sob a presidência de Bolsonaro e a liderança do Centrão pelos próximos dois anos. Eis o legado do fraudulento impeachment de Dilma para a democracia brasileira.

Carniceiro que é, o apetite do Centrão cobrará um preço muito alto de Bolsonaro. Uma coisa é comprar os votos para as eleições da Mesa Diretora da Câmara, outras e novas verbas e cargos terão que ser providos ao Centrão para garantir a Bolsonaro que chegue em 2022 forte e elegível.

O Centrão entendeu que quanto mais rasgar a Constituição, mais força terá para isolar e aniquilar os inimigos.

Entender este papel central do Centrão na política nacional é entender que o centro do poder do inimigo está na direita e, dentro desta direita, há uma fração poderosa que se fortalece a cada rasgo feito na Constituição a partir deste mesmo Congresso Nacional.

O Centrão entendeu que quanto mais rasgar a Constituição, mais força terá para isolar e aniquilar os inimigos, ao mesmo tempo que abre espaço para que tome ainda mais conta da estrutura de poder nacional. Não há lei impossível de ser aprovada pelo Centrão, com maioria folgada no Congresso Nacional, qualquer Emenda Constitucional ou outro tema importante depende da votação do Centrão para se concretizar. Impossível pode ser pra Bolsonaro bancar esse apetite até 2022.

É assim que o Centrão suga a seiva da combalida democracia brasileira, com amplo respaldo (político e econômico) da classe dominante brasileira, com plena anuência da bancada dos 4B (bala, boi, bíblia e bancos).

Entendam esta estrutura. Na Mesa Diretora da Câmara, o presidente é Artur Lira. Mas os outros cargos dentro da estrutura interna da Câmara são tão poderosas quanto a presidência. Cito aqui o poder que tem a cadeira da Primeira Secretaria da Mesa Diretora. É o primeiro secretário que distribui as verbas e cargos de assessores provisórios aos deputados e ele/ela que define o orçamento para determinadas comissões trabalharem. Essas definições são frutos de acordos políticos com todos os partidos que estejam alinhados politicamente com a parlamentar que ocupa este cargo na estrutura interna da Câmara.

Impacta diretamente na capacidade de ação e articulação do trabalho dos deputados no Congresso.

Definir orçamentos das comissões e o número de assessores para os deputados impacta diretamente na capacidade de ação e articulação do trabalho dos deputados no Congresso. Quanto mais recursos às disposição, melhor deve ser a ação parlamentar, portanto, melhor é a relação com outros poderes da República (sejam eles públicos ou privados).

Valdemar da Costa Neto, portador de uma pesada tornozeleira, condenado no Mensalão e na Lava Jato, conseguiu renovar o seu Partido, o PL (Partido Liberal, antigo PR) no comando da Primeira Secretaria da Câmara para os próximos 2022.

Ou seja, é Valdemar da Costa Neto um dos grandes cacifes da política nacional, que costurou o acordo com o governo para que seu partido, que possui 39 deputados na bancada, seguisse comandando a primeira secretaria da Câmara. Bolsonaro amarrou sua governabilidade e projeto de poder a gente do tipo Valdemar Costa Neto, Geddel Vieira Lima, Moreira Franco, Temer, ACM, Kassab e seus pares.

Assim como sangraram Dilma, este mesmo Centrão sangrará Bolsonaro, como boa e eficiente sangue-suga que é. De nossa parte, além da torcida para que este conflito intra-direita faça destruir qualquer tese de que a saída para toda esta crise é pela direita, temos que seguir incidindo na batalha das ideias para a construção de força social que supere este estado de destruição, corrupção e privatização da coisa pública. Afinal, vivemos em sociedade, não há chances de vivermos neste mundo se não colocarmos o público acima do privado, a política acima do conchavo entre os ricos, a justiça acima do privilégio, a vida acima do capital.

Porém, cabe lembrar que o governo Bolsonaro é alinhado politicamente com o Centrão. Fato muito, mas muito diferente, do governo Dilma. Não parece provável que o Centrão queira articular o impeachment de Bolsonaro, mesmo que não estejam em boa relação. Esta constatação deve clarear ainda mais a leitura da esquerda sobre os desafios que temos pela frente, deixando de lado qualquer ilusão que alguém pode sequer nutrir ao considerar qualquer acordo com este tipo de gente.

plataforma mínima que seja anticapitalista e anti-imperialista

Que o episódio de 1º de fevereiro na Câmara confirme a clareza política tão necessária para nós, avançando na articulação da unidade da esquerda, na construção de uma Frente Única de Esquerda (numa plataforma mínima que seja anticapitalista e anti-imperialista), para que, num segundo passo, depois de conseguir tomar corpo em unidade, possamos negociar a composição de uma ampla frente pelas reformas na sociedade em aliança com outros partidos.

Hoje, nossa luta imediata é pela:

  1. Vacinação rápida, pública e gratuita,
  2. Manutenção do auxílio emergencial até que finde a pandemia,
  3. Prisão de Bolsonaro por estimular a propagação do vírus no Brasil (Artigo 267 do Código Penal).

Acumulando força junto ao povo, teremos melhores condições de avançarmos numa agenda que jogue na lata do lixo todo o entulho autoritário das reformas anti-povo aprovadas desde 2016: como a emenda do Teto dos Gastos, Reforma Trabalhista e reverter as privatizações/sucateamento das empresas públicas estratégicas (Petrobras, Embraer, Eletrobras e bancos públicos).

só facilitamos o trabalho dos capitalistas em promover a agenda neoliberal e militarizante

Desunidos, em meio a maior crise já registrada do capitalismo em toda a história da humanidade, só facilitamos o trabalho dos capitalistas em promover a agenda neoliberal e militarizante para saquear nossos recursos naturais, superexplorar nossa gente e manter as altas taxas de lucro do grande capital às custas do sangue, suor e muitas lágrimas da classe trabalhadora. Basta desse sistema de desigualdade social. Basta!

As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

Categorias: Ámérica do Sul, Opinião, Política
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