O susto

24.01.2021 - Redação Portugal

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O susto
CONTO

 

 

Por Maxi Elegido
Novembro de 2020

 

À Tania, que me transmitiu o seu grande carinho pelo México

 

Parece-me estranho caminhar com máscara pela praça do Zócalo, na Cidade do México, no Dia dos Mortos. É insólito que haja bastante espaço entre nós e que a algazarra se misture com silêncios intermitentes, neste lugar sempre com tanto bulício. Este espaço enorme convida a olhar em todas as direções, ainda que deva o seu nome a um projeto inacabado.

Uma caveira dançante com a boca tapada passa, empurrando-me para um lado, enquanto continua a trotar entre as pessoas.

Nesse momento, de repente, recordei esse grande bazar peculiar em que se converte o bairro de Tepito nos dias feriados, cheio de recantos diversos, onde inclusivamente há um pequeno templo à Santa Morte, não cabe nem um alfinete e avanças com dificuldades entre pessoas “sólidas”. Ninguém se distende e sentes fragilidade, pensando que neste lugar não existe a depressão. Todos têm uma imagem clara do que querem conseguir, todos têm o seu projeto. Também recordei o mercado de Sonora: entre os cheiros de tantas ervas medicinais, fazem-te uma “limpeza” de todas as tensões que acumulas no decurso da vida. E vi a Praça Garibaldi, à qual recorres depois de um golpe vital que trunca as tuas expetativas, onde os mariachis facilitam o pranto e o “toque elétrico” te levanta o ânimo… ou colapsa-te.

Que povo, onde convivem simultaneamente projetos, fracassos e novos começos! É velho e jovem ao mesmo tempo; mercados e praças estão perto uns de outras, mas sem se misturarem. Pode parecer um pouco ingénuo ou de vaga memória, mas é deste espaço vazio em que cabe um futuro novo, que vai buscar a sua força.

Fui movendo-me angularmente para um lado da praça e tenho a perspetiva de poder ver os grandes poderes religiosos, políticos e económicos, representados no Zócalo, ainda que, observando as pessoas, sinta agora esses supostos poderes como gigantes com pés de barro.

Vejo uma jovem com uns trinta anos sentada num banco; não tem disfarce e não parece esperar nada, ainda que a sua postura erguida não combine com a sua neutralidade. Sento-me a seu lado, respeitando a distância e começo uma conversa que foi das que me causaram maior impacto.

Se bem que foi a sua serenidade que me atraiu, vou descobrindo a sua beleza sem igual, mais baseada na graça do que nos cânones da moda, e que tenho visto em algumas ocasiões nestas terras latino-americanas. Os seus traços são marcados, firmes, mas harmoniosos, e da mesma maneira decorreu a sua cálida conversa.

“Olá, o que se passou?”, digo-lhe. Ela gira levemente a cabeça, olha-me com curiosidade e detém-se no meu olhar, que sustenho o mais calmamente que posso. Passado um momento, olha de novo para a praça e desenvolve o seguinte monólogo:

«Vim aqui neste dia porque andava confusa e desorientada e queria conectar com os meus mortos para tentar tomar decisões.

Há já mais de dez anos ficou difícil arranjar emprego, sem trabalho, às vezes ia fazendo inquéritos de marketing ou vendendo tacos em alguma feira, mas nada que me permitisse lançar projetos.

Passados uns anos ponderei emigrar para o norte e liguei ao meu primo, que me desanimou ao contar-me as dificuldades para conseguir documentos e sair dos trabalhos de miséria.

Descartei estudar ciências empresariais ou procurar um marido com recursos, porque era como vender a minha alma ao diabo e só de pensar nisso ficava angustiada.

Depois disseram que estávamos a recuperar a economia, mas não sei quem se estava a recuperar, pois eu e os meus amigos estamos igual…

E, finalmente, chegou esta “onda” do vírus, uma “pausa” de futuro incerto, em que várias pessoas próximas morreram e muitos que o tiveram continuam com fadigas e outras coisas. Agora dizem que as mulheres e os jovens devem esperar mais dez anos para poder começar a estar bem.

Muitos dos meus amigos e familiares estão na mesma onda, alentando-me nessa direção, que posso resumir com um “salve-se quem puder!”, mas que parece mais um “cada um por si”. Pode imaginar como me sentia, amarrada por todos os lados, cada vez mais imobilizada.

Andava eu nisso a ver o que fazer, rondando a Santa Morte, e se me deixava levar por ela…

Entenda-me bem, o importante não é tanto que antes de acabar uma crise me veja submergida por outra. O que compreendi é que não quero continuar assim, de tropeção em tropeção sem me perguntar para onde vou… é melhor assumir o meu fracasso do que continuar a fugir.

Então, amigo – prosseguiu após uma pausa – de repente uma porta abriu-se e um silêncio cresceu no meu interior, destapando-me. Algo em mim se tornou ligeiro e uma neblina permanente, que não costumo ver, dissipou-se.

Vi-me como a partir de fora, sentada no banco a refletir sobre o que fazer com a minha vida. Estava rodeada de pessoas, mas o estranho é que não me sentia como me costumo sentir ou como se supõe que devo sentir-me com estas considerações. Estava neutra, muito neutra, e conectada com as pessoas. Como se uma grande teia de aranha unisse cada movimento e cada um repercutisse em toda a rede.

Então, recordei-me de quando, ainda pequena, me perguntei pela primeira vez sobre a morte, pensei no que queria ser quando fosse grande, o que queria fazer com a minha vida antes de morrer.

E voltei a surpreender-me por poder estar tão calma com estes pensamentos.

Não me reconheço, não me sinto eu como me sinto habitualmente, algo se contraiu no meu interior e assustei-me. O susto formou de novo a neblina. Não o entendo, pois parecia-me muito bem essa forma de estar, muito desperta, diria eu.

Voltei ao meu ser e você sentou-se no banco», disse, voltando a olhar-me.

“Já decidi!”, afirmou. “Vou iniciar um caminho que me tornará muito mais feliz. Creio que vou à Universidade Claustro de Sor Juana, onde tenho bons amigos que me dizem que é um bom lugar para estudar Humanidades – e acrescentou, esboçando um sorriso – e Gastronomia… é tempo de fazer um bom guisado com a minha vida”.

Antes de que ela se levantasse, consegui dizer-lhe que há 26 anos estive num fórum humanista nesse claustro, tendo uma experiência muito enriquecedora. Um brilho nos seus olhos indicou-me que algo se tinha ajustado nela.

Enquanto ela caminhava decidida, contornando os transeuntes, fiquei surpreendido com a ressonância que houve nesse banco; se tinha sintonizado a esse nível com alguém com diferentes vivências, idade, sexo e cultura, parece-me que deve haver muitas pessoas à procura dessas portas que abrem verdadeiramente o futuro.

Categorias: América do Norte, Cultura e Mídia, Europa
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