CRÔNICA

 

 

Por Vera Lucia S. S. Gregorio

 

Se tem um lugar numa Faculdade onde se fica sabendo de tudo que acontece, esse lugar é a sala de xerox.

Lá tem de tudo. Tem o aluno que quer fazer uma cópia do material que o professor indicou, tem o aluno afobado com uma pen drive na mão implorando pra imprimir o trabalho de última hora, tem o professor que quer deixar material para seus alunos, tem aquele que se encontra com um amigo que não via fazia tempo e tantas outras coisas.

Em meio a essa balbúrdia, ainda antes da pandemia, enquanto espero minha vez de ser atendida, ouço uma voz que me chamou a atenção e anda me incomodando desde então.

Uma aluna, conversando com uma colega diz:

— Parei de estudar quando minha filha nasceu. Estou voltando agora e está tudo como era há treze anos atrás. Incrível, nem parece que fiquei fora tanto tempo.

No momento em que ouvi essa fala senti duas coisas: que bom que uma aluna que teve bebê precocemente estava voltando a estudar, pra terminar sua graduação; e , como um soco no estômago, nossa!!! Em treze anos tanta coisa aconteceu, mudou, progrediu, no terreno tecnológico então…

Desde então isso me incomoda. Nos meus trinta e tantos anos de trabalho na rede pública, tanto na Educação Básica quanto na Superior, ouvir isso incomoda.

Depois de tantos cursos de atualização, capacitação, especialização, pós graduação etc. Na verdade os cursos eram basicamente os mesmos. Só mudavam os nomes porque Fulano achava que um nome era melhor que outro (ou mais bonito, sei lá).

Imaginem que até curso de Gestão Estratégica, Gestão de Patrimônio, Tecnologia educacional eu fiz.

Pra chegar agora e ouvir que a “escola”—leia-se Educação – é a mesma de treze anos atrás?!

Olha, sei que é o que todo mundo diz, mas sou obrigada a admitir. A nossa Educação está estagnada por irresponsabilidade do Sistema. Não esse Sistema que todo mundo fala e ninguém vê. Como se fosse uma coisa abstrata, um ente superior, nome de filme.

Não. É o Sistema sim, formado por um punhado de pessoas que têm em suas mãos o poder (e o dever) de gerir os recursos físicos, financeiros e humanos necessários à uma Educação de qualidade. Pessoas que podem, como vimos com frequência , subtrair recursos da Educação, que já são insuficientes, para compor ou cobrir o déficit de outros setores, que também necessitam de recursos, nãos os da Educação, mas sim aqueles recursos que escoam pelos ralos fétidos da corrupção, da desonestidade de corruptores e corrompidos.

Refletindo sobre isso me chega às mãos o resultado do IDEB ( Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) 2019.

O IDEB avalia a evolução da aprendizagem no país, tendo como base o desempenho dos alunos em Português e Matemática. O objetivo é que o Brasil atinja a mesma média de alunos de países desenvolvidos -OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

A meta é chegar a nota 6, numa escala de 0 a 10 em escolas públicas e particulares.

O Brasil atingiu a meta somente no Ensino Fundamental 1.

No Ensino médio o Brasil passa longe da meta estabelecida.

Embora os especialistas considerem que houve evolução em relação à última avaliação, fica clara a inoperância do poder público federal diante desse resultado muito distante ainda do ideal.

Tivemos quatro, quase cinco, Ministros da Educação no atual governo que não implantaram nenhuma política efetiva para mudar esse quadro.

Além de não apresentarem nenhuma ação efetiva, tentam a todo momento desarticular as ações afirmativas que agora começam a mostrar seus resultados, na correção de injustiças sociais históricas, perpetradas contra as minorias, por anos a fio.

Começamos a ver os primeiros profissionais negros, indígenas, originários da Escola Publica se formando e estourando a bolha, injusta, formada por brancos, de “boa família” e boas condições financeiras e, portanto, com acesso ao capital cultural.

Esses profissionais conquistam seu lugar de direito, dando visibilidade aos “invisíveis”, tornando-se referência para os seus que, assim, acreditam que também são capazes. Reverberam na vida de muitas outras pessoas que são atravessadas pelas mesmas dificuldades, preconceitos e descrença em si mesmos.

O que temos de melhoria deve-se somente aos estados e municípios, principalmente, que desafiando o status quo deram continuidade aos seus Projetos de Gestão, ou implementaram metodologias mais eficientes, contemplando essas minorias que, de fato, são a maioria.

Me sinto assim representada pela fala do antropólogo, escritor e político Darcy Ribeiro, quando diz:

“…Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. (…).
Tentei fazer uma universidade séria e fracassei.
Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias.
Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.”


* Mestra em Cognição e Linguagem, M.B.A em Gestão, Especialista e Mediadora em EaD, Pedagoga.