Nós e nossa linguagem subjetiva tecemos novas formas de comunicação

05.10.2020 - Ciudad de Buenos Aires, Argentina - Esther Amelia Delvenne

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Nós e nossa linguagem subjetiva tecemos novas formas de comunicação

A linguagem das mulheres que lutam é universal. Não importa em que parte do planeta viva, todas falamos a mesma língua quando nos defendemos e exigimos por nós.

Vejo a 50 metros uma mãe que vem caminhando com um bebê, embora não a escute, percebo se a mãe está desafiando-o ou se está aceitando algo dele. Eu me dou conta na postura corporal das mulheres, embora não as conheça, se foram reprimidas, silenciadas, exploradas, agredidas ou abusadas por meio de uma linguagem corporal pela qual entendo minhas semelhantes perfeitamente.

Como é que isso acontece? Por que as mulheres percebem o que está acontecendo a muitos metros sem que ninguém nos explique? Por que por meio de gestos, o intangível nos faz evidente; nos damos conta imediatamente do que acontece?

Que outras linguagens de comunicação empregamos, como mulheres, na hora de unificar uma mesma expressão? A linguagem é o meio de comunicação dos seres humanos, utilizamos sinais orais e escritos, sons e gestos que possuem um significado atribuído por nós. Em troca, a língua é o inventário que os falantes empregam por meio da fala, mas que não “podemos” modificar. Constitui-se como sistema de comunicação verbal e escrito, regido por um conjunto de convenções e regras gramaticais, que é empregado pelos seres humanos para nos comunicar. Me lembro de participar do Encuentro Mundial de Mujeres por la Paz na União Soviética em 87, juntamente com mais de 10000 mulheres de todo o mundo, que falavam quase todas as línguas do planeta. A maioria não as entendia, mas quando nos juntávamos em alguma oficina, em algum discurso, debate ou apresentação de livro, de alguma forma nos entendíamos. Parecia que havia comunicação. O mesmo me ocorreu nas primeiras marchas lá em meados dos anos 80 , também pela Lei do Aborto, as do Ni una Menos, nos Encuentros de Mujeres, nas mobilizações em defesa da ESI (Educação Sexual Integral). Lá estávamos todas: as avós, as mães, as netas. Com muitas falávamos uma linguagem diferente, aparentemente, tínhamos muitas diferenças geracionais na forma e uso da língua. Parecia ser diferente mas, ali, todas lutávamos pelo mesmo e não era necessário falar para nos comunicarmos.

Há poucos dias atrás, voltei a ter uma experiência pessoal semelhante: me encontrei com mulheres italianas, que estavam organizando um movimento político em defesa dos direitos das mulheres. Trezentas mulheres de todas as regiões encontram-se por meio da plataforma Zoom e, mais uma vez, as compreendi mesmo sem falar italiano. As expositoras eram de diversas disciplinas, ecologistas, membros de ONG, ativistas de movimentos sociais, políticas, educadoras, entre outras. Pude compreender tudo: a intenção, a direção e a paixão que manifestavam para que se possa desenvolver as diferentes temáticas. Como é que isto aconteceu?

Uma menina de 10 anos foi estuprada em uma cidade do Brasil, ficou grávida e milhares de mulheres de todo o continente fizeram campanha para lutar por um aborto legal, seguro e gratuito. Não a conhecemos, mas todas entendemos aconteceu, o que ela sentiu. Uma amiga de uma amiga, em outro país, foi agredida até ficar inconsciente, todas reagimos, sabemos o que sentiu, como ela está agora, em que situação se encontra, embora não a conheçamos.

Em algum momento, no Japão, as mulheres tinham um idioma para que os homens não as entendessem quando falavam entre elas. Senti no meu corpo a mesma realidade do dia-a-dia.

Fiquei surpresa, por isso decidi escrever este artigo. Embora não seja semióloga nem linguista quero escrever sobre “o que dizemos e o que não dizemos com as palavras”. Estou falando da subjetividade, da linguagem intangível dos gestos, olhares e expressões; não só do falado.

Nós somos a subjetividade, degradadas e desqualificadas por não sermos objetivas, que bom! Precisamos recuperar a linguagem das mulheres, historicamente invadida pela maneira limitada da linguagem patriarcal e revisar a presença da subjetividade em nosso modo de nos comunicar. Se dermos lugar a estas linguagens intangíveis, podemos avançar pelo melhor caminho para um mundo que a humanidade precisa para seguir sua evolução.


Traduzido do espanhol por Paola Bastos Curcio

Categorias: Ámérica do Sul, Gênero e feminismos, Opinião
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