Lá da minha varanda sei de um tudo

11.10.2020 - Rio de Janeiro, Brasil - Redação Rio de Janeiro

Lá da minha varanda sei de um tudo
(Crédito da Imagem: Davison Alves**)
RELATO

 

 

Por Alfredo Soares*

Ouvi dizer lá no bar do Onofre, que fica em frente à igreja, na esquina da carpintaria, que vem um calor aí que derrete gente que nem picolé de groselha.

Vai ser de fritar os ovos no banco da praça. Tão mandando as “mulher” nem por maquiagem na cara que vai ficar tudo esfarinhado descendo fuça a baixo. Sem falar no cabelo que vai ficar lambido.

Fiquei sabendo que Dunga, que tem problema de pressão, vai ficar dentro da geladeira a pedido do médico. É prevenção, disse o doutor. Não sei como vai ser isso. Dunga é um nego gigante. Paulinho moleza já deitou na rede e disse que só sai lá quando o inverno chegar. Homem frouxo.

Dona Cleonice, já se pôs de joelho a orar. A Nega foi junto, pro modo de haver necessidade de reforçar a fé. Zé Rola roçou uma folhas de bananeira, colocou no chão, bem debaixo do pé de amora e disse que ali mesmo vai dormir, ainda mais que as muriçocas estão alvoroçadas zumbindo de alegria com a quentura dentro de casa. Quero ver o que ele vai fazer quando as lagartas de fogo cairem no rego gordo dele, enquanto dorme.

Eu to aqui. Sentado na varanda, lembrando do passado e olhando o presente… debulho meu fumo, pito meu cachimbo espero o tal calorão chegar. Ringo e Rinse,  meus “cão”, estão deitados no vermelhão. Nem latir eles querem. Imagina se eu saísse pra caçar preá? Não iam fazer alvoroço algum no meio da mata. Sem apoio deles, melhor ficar aqui.

No céu tem um sol pra cada um. Nem sei como o avião não derrete passando tão perto dele. Daqui a pouco vou lá dentro, pego o bule, o coador, água fervendo e côo o meu café, que colhi agora no quintal. Botei pra secar ontem no terreiro e já posso passar.

Deve tá pra mais de quarenta graus. Não sei como os moleques aguentam correr atrás de pipa pra cima e pra baixo. É tudo peste que não respeita quintal de ninguém. Em época de pomar carregado ainda levam as mexericas. Mesmo assim pouca coisa me aborrece.

Só saio do sério quando vento nordeste bate zombeteiro e tira meu chapéu da cabeça e tenho que me agachar pra pegar. Minha coluna já não é mais a mesma, chega ranger.

Se hoje tá calor, amanhã vai estar mais. Eu que não fique aqui quieto pra vê se não suo também. Não quero molhar meu lenço branco, limpando meu pescoço. Nem suar no pé entre os dedos. Ainda mais que o talco acabou e posso escorregar com essa sandália de couro. Fiquei vagaroso com o tempo.

Se tá quente hoje, demora um pouquinho chove. Aí refresca tudo, pra depois esquentar novamente. Já vi isso mais de 90 vezes. Depois parei de contar.

Fico olhando os altos da montanhas pra vigiar as nuvens. Dependendo de como elas vem, já sei como vai ser o dia. Mas tudo passa. Até a uva…

Eu já passei, só vim aqui prosear!


* Jornalista, radialista, escritor. Teresopolitano radicalizado em Campos/RJ. Instagram: alfredosoares49
** Pintor, cartunista e ilustrador. Também é professor de desenho. Instagram

Categorias: Ámérica do Sul, Cultura e Mídia
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