Como cantar no chuveiro e incomodar muita gente 3

25.10.2020 - São Paulo, Brasil - Paolo D'Aprile

Como cantar no chuveiro e incomodar muita gente 3
Adriano Celentano em Verona. (Crédito da Imagem: Nikita Kozyrev, Vladimir Bogdanov CC 3.0)
MÚSICA

 

 

História da Música Italiana em dez capítulos, entre delírios e falsidades. Cap. 3

Tudo bem, as canções de Cláudio Baglioni podem até ser lindas, mas para mim e minha flacidez abominável, cantá-las esgoeladas no chuveiro, seria demais, seria perda total. Mais fácil ir de reggae Get up stand up, ou melhor, ir só de riff. Quem já tentou arranhar um violão, sabe que o riff é a única coisa que conseguirá tocar. Smoke on the water, I can’t get no satisfation estão aí para confirmar minhas palavras. Quero ver agora quem sabe sustentar um riff, somente um, o mesmo riff, sempre igual a si mesmo por toda a duração do banho, e, assim fazendo, dançar como ele fazia. Ele, Adriano Celentano, vulgo, il molleggiato, o molejão… . No final dos anos cinquenta se apresenta como intérprete do rock ingênuo da época. O sucesso é imediato, a irreverência, a voz gritada, e principalmente os movimentos desconjuntados, como um mamulengo enlouquecido, entram para sempre no imaginário popular. O riff dos sopros, vulgares, estridentes, em um fortíssimo delirante, dão o andamento. Adriano Celentano é a encarnação da felicidade de cantar e dançar sem compromisso. E o sucesso dura até hoje, atravessou as décadas, cantou, foi ator, apresentador de televisão, fez teatro e cinema, mas de vez em quando não aguenta e diz: torno sui miei passi, quero voltar às minhas origens, sulla vecchia strada, pelo meu velho caminho, na via del rock and roll…, e o riff dos sopros, e eu, careca e barrigão, com ele. A vizinhança não vai gostar, eu garanto.

A popularidade alcançada é tão grande que sua música se submete ao personagem que ele mesmo criou. Na TV é onipresente, dono do mundo, faz o que quer, canta, dança, inventa palavras impossíveis, mexe, remexe.

Ganha a simpatia da Itália inteira com músicas fáceis de lembrar, de cantar, e recantar mil vezes: fala de especulação imobiliária, de ar poluído, de falta de espaço pra criança brincar: non so perché continuano a costruire le case e non lasciano l’erba, não sei porque continuam construindo prédios e não deixam a grama crescer. Lembra de sua infância pobre, volta ao antigo bairro para resgatar a velha casinha que não mais existe, só prédio, cimento e asfalto, antes tudo mato, agora uma cidade.

Ninguém antes dele havia conseguido um consenso tão grande. Sua música inclassificável, irreverente, sem o menor respeito pela construção melódica da canção italiana, estava acima de qualquer crítica e entrou definitivamente no coração do povo.

Pronto, ganhei o dia, molejão pra cá, molejão pra lá, desbanco Elvis, James Brown; os meus movimentos compreendem também braços e mãos, ombros e pernas, e aquela boca enorme dona da voz que encantou Louis Armstrong: é a maior cantora – branca – do mundo, disse o pai do jazz. E eu não estou nem aí se as cantoras negras vencem o desafio. Nenhuma delas dançou assim pra mim, pra eu aprender, pra eu imitar, pra eu cantar. Por isso, Mina, eu quero ficar insieme, insieme a te, junto, junto de você, dura un giorno la mia vita, io saprò che l’ho vissuta… minha vida dura um dia, mas eu saberei que vivi junto, junto de você, Mina!

Quando apareceu, foi um assombro. O frescor da juventude sacudia o torpor de uma música que vinha se arrastando pelos séculos, esmagada por uma tradição erudita que, se renovada não for, acaba sufocando toda e qualquer expressão diferente. Mina era um tigre. E assim era chamada por todos, tigre. Voz agressiva capaz de uma extensão inacreditável, swing, simpatia, beleza, presença de palco, e um gosto musical digno das grandes. Mina era tudo aquilo que as cantoras da época não eram. Belas, recatadas e do lar, queriam passar a imagem virginal da boa moça de família, que sai de casa para ir à igreja e vice-versa. E do ponto de vista musical eram menos de zero, uma verdadeira vergonha alheia, indignas de qualquer cantor de chuveiro, como eu. Nunca cantei e nunca cantarei nenhuma música daquelas mulheres horríveis. Os brasileiros lembram de Gigliola Cinquetti e seu olhar de colegial. Lembram de Rita Pavone, menina sapeca e nada mais. Mas não conhecem Mina, a maior cantora –branca – que o mundo já viu. Aqui vai, a mina vagante, mina terrestre, mina torpedo, mina bomba atômica: Mina La Tigre.

Com o tempo, veio a rotina à la Roberto Carlos, um disco por ano e nada mais. Nada mais de aparições na TV, nada mais de shows al vivo. Um disco ao ano e só. Mas não importa, Mina desde 1978 evita qualquer contato com a imprensa, fotos, entrevistas. Tornou-se uma voz, a voz maior que cada italiano defende como patrimônio pessoal, uma voz usada como parâmetro para definir todas as cantoras que apareceram desde então, “sim, é verdade canta bem, mas a Mina…”, “Ouviu que música linda? Parece a Mina”. As más línguas dizem que agora Mina virou assunto de elevador, ao invés de falar do tempo, se fala dela e de como cantava bem, nada a ver com a garotada de hoje, toda aquela parafernália eletrônica. Sua grandeza é tamanha que eu, pobre e esquecido cantor de chuveiro, além de imitar os movimentos das mãos dela, dos braços, caras e bocas, o que posso fazer? Nada. Não posso fazer nada, por isso io ti ódio…, poi ti amo…., poi ti ódio…, poi ti amo…, non lasciarmi mai più…, não me deixe nunca mais, sei grande grande grande e como te sei grande solamente tu.

Se Mina é patrimônio pessoal, defendida com unhas e dentes em todos os elevadores da república, amada por mim desde criancinha; o verdadeiro ícone coletivo, aquele que conseguiu juntar o povo, espantando a solidão de cada um, para criar uma comunidade nacional de cantores de chuveiro, unidos na convicção de que, apesar de tudo, a vida é bela e dias melhores virão, é ele: Adriano Celentano. Lançou a música e virou o verdadeiro hino nacional. Ninguém se comove em cantar “siamo pronti alla morte” estamos prontos para morrer, como diz sua letra a cada jogo da Azzurra, a gloriosa seleção nacional. Ninguém está disposto a morrer! Mas a letra onírica, a noite iluminada pela luz dos olhos abertos, a melancolia da ausência preenchida pela simplicidade do canto, são compreendidas por cada italiano. Todos acolheram a letra e a melodia no íntimo do coração, fazendo dessa música o verdadeiro hino nacional, um hino de paz, amor e felicidade, onde os trens dos desejos e dos pensamentos vão ao contrário, onde sem você nada pode estar no seu devido lugar; um hino nacional, pode crer, que canto todo santo dia.

Grazie Adriano, viva l’Italia!


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