OLHARES

 

 

“Com quantos gigabytes
Se faz uma jangada
Um barco que veleje

Que veleje nesse infomar
Que aproveite a vazante da infomaré
Que leve um oriki do meu velho orixá
Ao porto de um disquete de um micro em Taipé”

(Pela Internet — Gilberto Gil — 1997)

Nosso (ex) Ministro da Cultura do Brasil, talvez o único que conheci em vida que deu sentido ao cargo, sintetizou de maneira tranquila nessa canção o que reflito, duas décadas depois, sobre que tecnologias que são atemporais.

Tecnologia é interpretada como a ciência ou estudo (logos) da técnica (techné), que pode ser entendida como arte, ação ou raciocínio. A palavra foi absorvida com o passar dos tempos para atender às novas demandas da indústria e suas soluções para ampliar a produção. Como a tecnologia serve para definir a solução de problemas, ela vem se tornando um símbolo de qualquer coisa que seja vista como “moderna”, mas no sentido de tudo que sistematiza e desumaniza.

Perguntar para jovens, principalmente nos ambientes urbanos, o que elas e eles entendem por tecnologia, os faz sacar de seus bolsos um smartphone, ou apontar com desdém para um computador ou televisor. Televisão, que significa “visão à distância”, ou a transmissão de informação audiovisual, foi durante muito tempo a tecnologia mais utilizada para informação, sucedendo o Rádio, que tinha esse nome por transmitir, também à distância, informação sonora a partir de ondas de rádio. A transmissão era unilateral, onde empresas particulares emitiam a informação, e o público atuava apenas como receptor.

A Televisão migrou para o “formato controlado” e à cabo, onde a transmissão era paga e exclusiva para assinantes. Mais tarde, pela dificuldade de “correr cabos” pelo restante da cidade — durante um período político do Rio de Janeiro o prefeito viabilizou obras para essa instalação, atendendo interesses de grandes grupos de comunicação que investiram nesta “tecnologia” — as antenas parabólicas analógicas, e depois as digitais, trouxeram de volta a transmissão à distância, saindo do conceito de “TV aberta” por antena, para controlar os conteúdos para um público que queria e podia pagar por pacotes de canais com programação estrangeira, algo que provocava a sensação de controle sobre o conteúdo consumido. Ouço mais ecos de Gil:

“Antes mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena parabolicamará
Ê, volta do mundo, camará
Ê-ê, mundo dá volta, camará”
De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação.”

(Parabolicamará — Gilberto Gil — 1992)

A outrora chamada idiot box (caixa de idiotas), ou máquina de “mass distraction” (distração, ao invés de destruição, em massa) se tornou uma ferramenta de informação ou desinformação, sem qualquer interação do espectador, a não ser o consumo dos produtos anunciados como dinamizador da programação, que pouco evoluiu. Se criou um hábito onde gerações mais antigas não conseguem conceber a sala de estar sem o aparelho de TV ligado.

Hoje, o acesso à internet por telas fixas e móveis, como computadores e smartphones, cria essa “distração em massa” e beira o transe de cada pessoa, abrindo canais, disparando gatilhos mentais, expandindo em narrativas a dimensão da violência, do desejo, da saúde e até da alienação. A fidelidade de outrora dos espectadores televisivos, a partir do início deste século, se incorpora à tecnologia no novo século. A interação proposta pelos dispositivos de acesso à internet ilude aqueles antigos espectadores, que hoje julgam controlar parte de suas ações na rede, mas eles e elas se tornam apenas criadores de conteúdo para redes sociais e pagam por isso.

O Wi-fi, Wireless Fidelity, a “fidelidade sem fio”, se torna tão ou mais importante do que a TV Paga. É o segundo poder nas tecnologias móveis, após o próprio aparelho de acesso à internet, essa rede criada para transmissão de dados codificados à distância durante a guerra e, agora, como objeto de consumo nos lares, alimentando… guerras civis.

Acredito que quem criou o Wi-fi, enquanto tecnologia, não imaginava que sua importância cresceria em um momento de isolamento social, que sucedeu um apartheid ampliado da população entre as duas últimas eleições, marcadas por informação desqualificada, enviada à distância, e em redes articuladas pelos 4Gs e Wi-fis domésticos. Uma guerra-civil que, não satisfeita com as mortes físicas cotidianas nas periferias, mata ideais e a esperança, “disparando na cabecinha” pelo touchscreen.

A esperança, como já mencionada num texto anterior, na citação de Milton Santos, é aquela que está no futuro, enquanto, no presente, estamos tomando decisões que estão entre o passado que já se deu e essa esperança que está em construção.

Pensando sobre ancestralidade, e como ela nos afeta no que há de positivo nesta trajetória, entendo que essa “fidelidade sem fio” que nos mantém firmes diante de toda a violência que vivenciamos dentro e fora das telinhas, dessas armas wireless, estão transmitidas por outros satélites.

O “Orumsat” sempre esteve em transmissão, muito antes da TV, Rádio, Telefone, Telégrafo, e mais próximo dos sinais sonoros e de fumaça no ambiente. Um sinal “criptografado” e atualizado por 5 séculos só “neste lado das águas”. Está na voz sussurrada de algum lugar, na brisa sorrateira, na chuva inesperada, na lembrança de décadas que retorna, na erva com que os mais velhos curavam os males e temperavam os alimentos, ou nas palavras que surgem na mente quando, por exemplo, resolvo escrever alguns destes textos. Quanto a esse satélite ancestral presente em todo lugar, seu sinal vem principalmente pelo mar, numa transmissão de alta fidelidade e frequência nada moderada, usando como algoritmo o Sankofa, o caminhar para frente com o olho no passado.

Em nossos browsers, sabemos que, num passado recente, muitos eventos se repetem e estão acelerando uma limpeza étnica no território brasileiro. Isso se dá pela conveniência de quem pensa no próximo se ver imobilizado por uma pandemia, como se todo dia fosse o último capítulo da novela, na TV e na “vida real”. Mas algo que aprendi em chão de terreiro é que, se a roda gira como a história e o ciclo é contínuo, não adianta procurar onde ela começa, mas saber como foi na volta anterior para evoluir no novo ciclo.

Essa tecnologia ancestral, essa rede que nos liga com o outro lado do oceano, ou logo ali nas matas e montanhas do outro lado do rio, trata-se de um Wi-fi que só é possível acessar e nos alimentar de informação, quando a “rede paga” cai.

O Wi-fi sempre esteve liberado, mas poucos souberam usar. Conecte-se no ciclo e use a tecnologia ancestral para te apresentar as soluções no presente, para manter a esperança em um novo e melhor ciclo.


Agradecimentos a Tayna Arruda, André Sandino e Lu Ain-Zaila por suas contribuições artísticas e críticas à esse texto.