Cassia, cadê o disco voador?

30.08.2020 - Nova Iorque, EUA - Marco Da Costa

Cassia, cadê o disco voador?
(Crédito da Imagem: DasWortgewand. CC0)
CRÔNICA

 

 

“I’m wandering round and round here nowhere to go….While my eyes Go looking for flying saucers in the sky” Caetano Veloso, London, London (1971)

Cinco da manhã e o céu começava a clarear.

– Olha lá aquilo não pode ser estrela ! – Apontei para Cássia, que já sonolenta, esfregava os olhos e limpava os óculos, na esperança de me acompanhar. O pai dela, o professor Augusto, dormia no fusca azul, cercado de carros e barracas. Éramos mais de trinta mil pessoas, olhando para júpiter, esperando que seus astronautas chegassem.

Estávamos no início de março de 1980 em uma fazenda próximo a cidade de Casimiro de Abreu, no interior do Rio. Mas essa história cheia de extraterrestres começa um pouco antes, no subúrbio carioca de Rocha Miranda, em uma pequena escola chamada Santo Antônio de Pádua. O Professor Augusto, diretor, que nos guiava naquela aventura – e sua esposa Professora Ivone, eram os diretores e pais da Cássia. Ela era minha alma gêmea desde da quarta série do primeiro grau e estudávamos em uma espécie de semi-internato: entrava às oito da manhã e saia só às seis da tarde. Aulas pela manhã e muita leitura e criatividade na parte da tarde.

Sim, eu era um nerd, mergulhado na ciência, mas nesse tempo, antes da Internet, as atividades de crianças “estranhas” se resumiam a criar: histórias, conspirações e basicamente acreditar em tudo que víamos nas revistas de sobrenatural. Tentamos laboratórios químicos onde fazíamos truques como o “sangue do diabo”, uma solução vermelha que jogada na roupa das pessoas causava pânico, mas que desaparecia em alguns minutos, causando constrangimento em quem tinha feito escândalo. Cássia teve uma fase de mágica também, e fazia truques inacreditáveis – que nunca me revelou: “É segredo”, dizia. Foi ela que me apresentou o primeiro Walkman, uma pesada caixa com cassetes que tocava música, feita para colocar na cintura. Ela tinha treze anos e eu quinze, totalmente infantis e adoráveis.

No final de 1979, aos 14 anos, eu já tinha uma coleção de livros sobre ciências e fenômenos. O primeiro livro a chamar minha atenção foi “Eram os Deuses Astronautas?”(The Chariots Of The Gods?, em inglês), publicado em 1968 pelo suíço Erich von Däniken, em que o autor teoriza a possibilidade das antigas civilizações terrestres serem resultados de alienígenas. Meu avô Euclides era um grande incentivador das minhas leituras – e loucuras. Foi ele que me deu a câmera de super oito, o laboratório de química. Ao contrário do meu pai que sonhava com um filho jogador de futebol, Euclídes queria que eu fosse cientista.

Em uma das publicações sobre OVNIs descobri que o Brasil tinha uma cientista famosa – Irene Granchi. Depois de alguns contatos telefônicos – não havia e-mail na época – a pesquisadora aceitou nos receber. Professor Augusto nos levou ao seu apartamento no Leme, onde ela nos convenceu que Objetos voadores não identificados eram temas sérios e acho que até os pais da Cássia, naquele momento se convenceram que o melhor seria dar asas às nossas imaginações. Granchi – que não acreditava naquele pouso das naves de Júpiter – faleceu duas décadas depois, aos 97 anos, como a grande dama da ufologia na América Latina. Ela editaria anos depois do nosso encontro, um clássico, hoje vendido nos Estados Unidos chamado “UFOs and Abductions in Brazil”

Acho que foi pela nossa infantilidade – e leveza de alma que conseguimos convencer seu Augusto e Dona Ivone a nos escoltar a Casimiro de Abreu. Fomos informados que às 05h20 da manhã, alienígenas de Júpiter pousariam lá.

No melhor estilo da Sucupira de Dias Gomes, seriam recepcionados com toda a pompa pelas autoridades, desfile pela cidade em carro aberto estava programado e receberiam até mesmo uma enciclopédia comprada na época pelo prefeito. Estávamos preparados pelo já divulgado “Dez Mandamentos do ET”. Entre as recomendações, não ingerir bebida alcoólica, estacionar sem interditar a BR-101, não levar crianças pequenas, não entrar com nada metálico e procurar dominar as emoções.

Cerca de trinta mil pessoas acreditaram na história e jornalistas do mundo inteiro vieram para registrar o evento.

Assim que chegamos, depois de sete horas de viagem e um engarrafamento monstruoso, preparamos nossa base de observação. Eu levava uma câmera super oito, Cássia, uma máquina fotográfica. Estávamos também munidos de lanches e garrafas de água. Confeccionamos camisas com a sigla de um grupo de observadores de OVNIs, tudo muito organizado para nossa idade. Nossos professores e pais incentivaram aquela excursão.

Embora eles todos soubessem que tudo era uma loucura, nosso empenho e seriedade de alguma forma deve ter influenciado a que todos fossem solidários naquele momento. Se existiam discos voadores e se eles estavam de visita, teríamos que ver aquilo. De certa forma eles estavam certos em incentivar crianças que acreditam na ciência – tanto Cássia como eu hoje somos pessoas que abraçamos nossas causas com a mesma paixão e compromisso, e ambos somos pessoas que acreditam na ciência e respeitam cientistas. Ela se tornou uma pessoa que salva vidas na enfermagem e eu fiz longa carreira no serviço público na área de direitos humanos. Há experiências na infância que apontam caminhos.

Como está registrado na história, as naves de Júpiter não vieram naquela manhã – 40 anos se passaram e ainda olhamos para o céu em busca de respostas. Dona Ivone e Seu Augusto, meu avô e pais, todos se foram – a escola foi desativada nos anos 90. Ainda lembro com gargalhadas e certo orgulho, que fomos parte do primeiro e único “Woodstock extraterrestre” da história.

Hoje, quatro décadas depois, comemoro com Cássia – ambos cinquentões – pelo “WhatsApp”, essa nossa aventura. Usamos uma tecnologia inimaginável para aquelas crianças dos anos 70, em meio ao uma pandemia mundial que jamais nossos pais poderiam pensar. Os astronautas de Júpiter não vieram, mas nós fomos até eles e hoje flutuamos em uma rede mundial onde imagens e sons viajam a velocidades impressionantes. Nós fomos ao futuro para olhar aquelas duas crianças com mais ternura. De certa forma, tudo que imaginamos de fantástico e trágico, estamos vivendo.

O futuro nos abduziu.

Categorias: América do Norte, Cultura e Mídia
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