O milagre de Saint Germain

19.07.2020 - Nova Iorque, EUA - Marco Da Costa

O milagre de Saint Germain
(Crédito da Imagem: Marco Da Costa)
CRÔNICA

 

 

O avião desapareceu no céu, levando Tom para Londres. Não pude ir ao aeroporto, mas me despedi no dia anterior, quando lhe dei algumas páginas que imprimi na pressa e um guia da cidade, que usei no verão distante, no periodo em que havia estudado em uma pequena escola, próxima da Oxford Street.

Um abraço apertado, com bom humor, selou nossa despedida, um até logo bem humorado e um sorriso que desapareceu aos poucos, escondido pelo vidro do carro.  “Te espero lá, e obrigado por tudo”, disse.  Eu prometi que iria para Londres no ano seguinte, mas não deu. Acho que falei para incentivá-lo a deixar aquela pequena e monótona cidade da Flórida.

Tom Saint Germain é um exemplo de determinação que me inspirou sempre, desde que nos conhecemos, em uma pequena cidade, na costa do Golfo do México, em 2004. Filho de imigrantes haitianos indocumentados – nasceu na pequena ilha de Saint Thomas, no Caribe, onde seus pais trabalhavam em hotéis e resorts, antes de imigrarem para os Estados Unidos.

Vivendo na simplicidade por anos, sem direito a maior parte dos benefícios sociais que os cidadãos nos Estados Unidos possuem, Tom cresceu falando inglês, francês e creole em uma rua de um bairro pobre de Fort Myers.  Seu sonho, ainda no ensino médio, era ser senador.   Confessou-me sem pudor, animado com a eleição, na época,  de Arnold na Califórnia “Viu..eu posso também” me mostrou o jornal, com o êxito de Schwarzenegger, imigrante como nós.

Acho que sua ingenuidade não o deixava ver que existem diferenças imensas entre imigrantes brancos e negros ou latinos nesse país, especialmente na política.  Tom, como todo idealista e jovem, conseguia ver somente a vitória de um estrangeiro, naquela terra onde todos nós éramos, de alguma maneira, desafiados pela nossa origem, sotaque e cor.

Vi um “Senador” nos olhos de Tom. Como acredito em sonhos e na força que eles nos dão. Eu era diretor de uma pequena escola de inglês para imigrantes, muito próximo de onde sua família vivia.  Ofereci a Tom a possibilidade de ensinar inglês para brasileiros.

Este seria seu primeiro emprego e lhe daria tempo para estudar. Outros haitianos de sua comunidade, trabalham pesado em plantações ou em Mcdonalds e mal conseguiam tempo para os estudos. Em poucos meses, ele se transformou no professor mais querido devido a seu inconfundível carisma e habilidade em ensinar, mesmo sem falar português.

Um dia  Tom chegou a escola bem triste. A Universidade o rejeitara por não ter seguro social, o que o sonho de ser advogado e fazer política ficava cada vez mais distante.  Contei a Tom de onde eu vinha, da minha infância nas ruas pobres do subúrbio do Rio, da falta de oportunidades e orientação que marcou minha geração.  Disse a ele que um dia, sentado em uma confortável poltrona em um teatro na Broadway, quase chorei ao lembrar que havia chegado onde sempre desejei. Todos nós podemos chegar onde vivem nossos sonhos. É preciso querer.

Na infância – contei – meu único plano era escapar daquele lugar e percorrer as ruas limpas, com casas sem muros e gente feliz que via nos filmes da sessão da tarde.  E mesmo me confrontando a cada dia com uma América tão diferente dos meus sonhos de infância, eu não parei de sonhar  e fazer deles o dínamo da minha vida.  Uma nova América apareceu, cheia de novos desafios, mais pobre e injusta, mas extremamente rica de aventuras e esperança.  Um experimento social admirável, cheio de contradições.

Tom, aos 19 anos, fruto de tantos exílios e vidas marcadas pela procura de um porto seguro, estava na encruzilhada de um pesadelo e poucas opções.

Discutimos alternativas por horas e descobrimos que ele tinha uma saída e era o aeroporto. Como cidadão nascido em uma ilha que pertencia a Holanda teria direito a um passaporte Europeu.  O destino o brindou com essa possibilidade. Seus pais trabalhavam em um resort quando ele nasceu e foi registrado lá. Sugeri Londres, por todas as possibilidades que vi que lá existiam e começamos um longo plano de seis meses para fazê-lo redireccionar a vida e partir sozinho para uma experiência que poderá mudar seu destino e de seus filhos.

Após muitas consultas Tom saiu da escola, arrumou um subemprego e conseguiu os dois mil dólares para passagem e os primeiros dias em Londres. Partiu daqui em uma manhã de julho, apenas com a esperança e os tais impressos e dicas que consegui coletar na pressa.

O milagre que esperávamos aconteceu. Bem humorado me ligou alguns dias após sua chegada em Londres “consegui passar bem na imigração” comemorou. “Poxa Marco – você me mandou para o século XIX” reagiu bem humorado ao desenho urbano da cidade, parte medieval, com ruas estreitas e antigos casario, bem diferente da Flórida moderna, onde cresceu e de onde nunca havia saído.

Tom Saint Germain fez seu milagre acontecer. Vivendo como cidadão,  trabalhou de vigia de um estacionamento, começou a estudar, graças às vantagens criadas para cidadãos europeus.  Anos depois, conseguiu se formar e hoje é advogado.  Não sei se voltará a América para realizar seu sonho de ser Senador, mas está feliz por lá.  Não pude ir em sua formatura na década passada, mas sempre nos comunicamos  por e-mail e acompanhei passo a passo toda essa trajetória, com muito orgulho.

Conheceu uma linda jovem, de família nigeriana e se casou em uma linda cerimônia.  Eu estava lá. Nos reencontramos depois de dezessete anos. Não era mais um jovem franzino que levei ao Aeroporto.   Eu fui para ver para ver esse milagre, como um fiscal dos sonhos, confirmando todas nossas projeções de êxito e felicidade.  Nesse mesmo período, realizei muitos outros milagres na minha vida e provoquei outros tantos.

Muitas vezes uma palavra ou ideia, muda destinos. Na hora do casamento me apresentou sua esposa e disse “esse cara é o culpado de tudo” – e rimos juntos.  “Ele me enganou dizendo que viria logo e levou dezesseis anos para chegar”  “Às vezes precisamos projetar um futuro” – disse. Nos abraçamos, em meio aquela toda alegria. Estavam lá seu pai e seu irmão, que era uma criança na época que ele deixou a Flórida. A família haitiana reunida, eu testemunha dessa história, vestido de azul celeste, como recomendava o protocolo nigeriano. Era a cor da cerimônia, azul da cor dos mares, que deixamos para trás.

Tom já teve seu primeiro filho. É também resultado de uma história de superação, da vida que se renova. Um dia ouvirá que seu pai foi um herói de dois continentes.  Pode ser que eu já não esteja por aqui mas serei testemunha dessas primaveras, nas vidas de outros. E como todo amigo, de verdade, vibro e saúdo aos céus, cada milagre.

Categorias: América do Norte, Cultura e Mídia
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