O Tempo e a Espera

28.06.2020 - Rio de Janeiro, Brasil - Clementino Junior

O Tempo e a Espera
Frame do vídeo da câmera de segurança que captou o rompimento da Barragem em Brumadinho.

 

Você bem sabe de onde vem sua lama
Sangrada de adubo de gente
Engrossada de carne humana
(…)
Você bem sabe de onde vem sua fama
Suas mãos lavadas três vezes
Não limpam as suas façanhas

(Sujo de Lama. Nelson Maca. 2019)

Usei um trecho destas rimas ricas de Nelson Maca para abrir um capítulo de minha futura tese sobre pedagogias que emergem da luta de atingidos pela mineração, nos recentes crimes ambientais ocorridos no estado de Minas Gerais. Me vejo a utilizando de novo, agora neste texto, para disparar algumas inquietações. Na televisão, assisti aos familiares das vítimas de Brumadinho serem impedidos de realizar suas manifestações mensais, exigindo justiça e celeridade na solução deste caso explícito de irresponsabilidade ambiental da mineradora responsável. No último dia 25 de março, a manifestação foi cancelada, por causa das medidas de segurança para frear o contágio do Covid19. Neste momento, percebi uma segunda perda para estas pessoas.

O tempo de espera na imagem das câmeras de segurança, que flagraram o estouro da Barragem e correram os telejornais, espetaculariza uma dor de pessoas mortas, em uma região que depois ficou vazia, restando apenas a lama. Um deserto visível de sujeira do capital, que não se percebe tão visível nas capitais desertas pelas medidas de isolamento no mundo.

Este texto não parte do desejo, existente da minha parte, de justiça para atingidos das barragens, mas para pensar em outra rima, não tão rica e nem tão poética: pandemia e sindemia.

As reflexões urgentes trazem a pergunta: o que seremos após a quarentena? Os hábitos de higiene entraram na regra do dia a dia, porque o vírus novo tem uma “eficiência” no contágio, para além dos vírus comuns.

Covid19, Influenza e Dengue estarão em tour, não como line-up do Lollapalooza, mas como um alerta de que os calendários de contágios estão cada vez mais afinados e que, aparentemente, nos acostumamos a isso, pois “para tudo há um remédio”. Não é bem assim, pois deveria se “matar o mal pela raiz”, como diziam os ancestrais, quando estes acreditavam em “bem versus mal”.

Sindemia Global foi um conceito apresentado em 2019, no relatório The Lancet, e se refere a “Sinergia de Pandemias”. Sindemia Global ocorre, no caso, quando índices de saúde, que causam sintomas como obesidade e depressão, por exemplo, são frutos de inúmeros problemas potencializados por poluição, desmatamento, aquecimento global e violência. O conjunto dos resultados dolosos nos ecossistemas apresentam desde o retorno de doenças outrora extintas, até as mutações que – quando não “surgidas”, como especulam, “em laboratório” –, causando inúmeras mortes, em função do tempo que se leva para entender o que está acontecendo, como está acontecendo e como pode ser combatido. E até então esse “como ser combatido” envolvia algum remédio e não “matar o mal pela raiz”.

No caso das represas de rejeitos de minérios, não houve “tempo para evitar”, pois elas deveriam ser evitadas desde que apresentado o risco de ruptura e mortes a médio ou longo prazo, ainda em seu planejamento. Algo parecido com as atitudes de um governante, ao saber da chegada da Pandemia ao país.

O tempo para o ecossistema tentar se restabelecer é muito longo. E quando você agrega a este legado da morte, deixado pelos desastres da mineração, a chegada de uma doença que atinge com mais forças os pulmões, já afetados por toda uma poluição presente no ar, os resultados na região podem vir a ser igualmente desastrosos. A cada chuva, os metais absorvidos pela vegetação se reanimam e reativam, trazendo mais contaminação. Este alerta já foi aceso às empresas envolvidas. “Lavar as mãos três vezes” não vão limpar ou reduzir os diagnósticos.

O padrão do atendimento no Brasil, desde que a OMS declarou o estado de Pandemia, no início de março, foi não testar massivamente os casos suspeitos do COVID19 – por falta de testes e de vontade política momentânea –, pois não foi tomada nenhuma providência para tal, enquanto o risco ainda era previsto. O risco de “algumas mortes” não pode parar o desenvolvimento, pois morto não precisa de emprego e quem tem seu emprego não quer correr riscos de não poder usufruir do mesmo com seus familiares. A empresa, após um ano, não conseguiu, ainda, responder aos familiares onde foram parar seus funcionários, que seguem desaparecidos, após a ruptura da barragem. Esse desastre tecnológico em Brumadinho não foi uma novidade, por ocorrer quase cinco anos depois da Barragem de Fundão, em Mariana, que não matou tanta gente de imediato, mas causou danos à saúde e, posteriormente, a morte de um número maior de indivíduos e famílias. Distritos de Mariana desapareceram do mapa, a empresa não reassentou os atingidos e, além disso, o tempo para reparação contribuiu para uma série de outros agravamentos nos quadros da saúde local.

Os bombeiros e demais servidores, que foram dispensados do incessante serviço de busca de corpos após 14 meses, precisam deste tempo para estarem vivos e poderem, em algum momento, retomar este trabalho doloroso de tirar debaixo do tapete de lama a vida de trabalhadores que a ganancia de alguns varreu para acelerar o serviço.

Manifestações, pequenas como as dos familiares ou grandes, como as que hoje, só chegam até as janelas, com o som das panelas. O isolamento ajuda a evitar que as vozes indignadas deem trabalho às forças do Estado – agora mascarados como os manifestantes das ruas –, que respondem gastando a munição e o ódio que carregam na cintura.

O vírus “estrangeiro” poderia ser uma alegoria da colonização, mas o tempo que ele levou para chegar aos trópicos o fez conhecer um país adoecido há tempos, que sofre os efeitos colaterais do desenvolvimento de uma economia para a qual não há remédio. É viver com essa dor é pedir tempo para se curar.

As doenças se alinham nesse quadro de sindemia, seja pela água com lama no Rio, seja pelo rio que não é mais doce, ou pelas chuvas seguidas de enchentes nas cidades, que não deixam saber onde começa o rio e termina a rua. Que o tempo de mudança seja urgente, mais horizontal enquanto mobilização e mais vertical que o isolamento proposto pelo governo.

Diria Nelson Maca em outro trecho:

“Suas mãos estão sujas de sangue
Sua mente está suja de lama
Seu nome se afunda no lodo
Sua fama prepara sua cama”

Categorias: Ámérica do Sul, Ecologia e Meio Ambiente, Opinião
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