O que resta de 2013. Conversa com Vladimir Santafé

28.06.2020 - Rio de Janeiro, Brasil - Carlos Contente

O que resta de 2013. Conversa com Vladimir Santafé
CINEMA

 

 

Junho de 2013 foi um acontecimento político, social, de múltiplas dimensões. Uma revolta popular. Um acontecimento multitudinário que envolveu diversas forças e grupos. Um acontecimento em disputa. Conversamos com Vladimir Santafé que, ao lado de Carlos Leal e Diego Felipe Souza realizou aquilo que chama de uma experiência cinematográfica artesanal, ou seja, um filme: O que resta de junho, que mostra a pluralidade de vozes mais à esquerda que estiveram nas ruas e promove uma excelente reflexão sobre a revolta. Um pacto de classes sociais foi rompido? Leiam a entrevista e assistam o filme.

– Vladimir, conte-me um pouco sobre sua formação e  a necessidade de fazer um filme sobre 2013.

– Sim, sou formado em cinema e filosofia, mestre e doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ.  Sempre trabalhei nesses dois campos, filmando, dando minhas aulas como professor de filosofia e teoria da comunicação. Hoje continuo na mesma trilha que há 20 anos atrás, a diferença é que a maturidade nos torna mais perceptivos e “melhores”, mais sensíveis aos nossos limites e possibilidades. A criação continua pulsando na minha veia, mas a partir de “recortes” mais realistas, sem perder, no entanto, a dimensão do sonho.

“O que resta de Junho” foi um filme feito a 3 (três) mãos, um “artesanato” cinematográfico que eu nunca havia experimentado antes, mas que rendeu “excelentes frutos” e momentos inesperados, “deixamos a vida entrar…”, como disse Renoir a Fellini. Eu vinha do cinema, Carlos Leal, meu amigo de mestrado na ECO-UFRJ, do jornalismo, Diego Felipe Souza, meu amigo de CAFIL (Centro Acadêmico de Filosofia) da UERJ, do mídia-ativismo, todos nós éramos, e até hoje somos, envolvidos na militância política, do movimento estudantil ao movimento sindical e popular. Enfim, nos reunimos e decidimos fazer um filme que condensasse o acontecimento Junho de 2013. Diego, como mídia-ativista pelo Linhas de Fuga, acompanhou, senão todas, a maioria das manifestações no Rio de Janeiro, ou seja, ele possuía um incontável acervo de imagens. Carlos e eu fomos os responsáveis pelo roteiro, mas toda a pesquisa jornalística quem fez foi ele. No final, encontramos uma síntese de nossas “vozes” na criação do filme.

Vladimir Santafé. Foto do seu acervo pessoal.

– Para começarmos nossa conversa, você acha que “os movimentos de dois mil e treze abriram a porta para a direita”?

– Junho de 2013 foi um acontecimento político, social, de múltiplas dimensões. Uma revolta popular. Um acontecimento multitudinário que envolveu diversas forças e grupos. Um acontecimento em disputa. No início das manifestações pelo Passe Livre, das reivindicações e atos em torno da Aldeia Maracanã, um marco que precipitou a radicalização das lutas durante as “jornadas” que se sucederam, os movimentos de esquerda, anarquistas e comunistas, hegemonizavam o processo. Mas na época, como havia um descontentamento geral, em vários segmentos, em relação ao governo de centro-esquerda representado pelo PT, os grupos neoliberais e de extrema-direita se apossaram de alguns aspectos das manifestações. Alguns analistas, eu, entre eles, acreditam que o modelo neodesenvolvimentista de coalização de classes (sempre tendendo, naturalmente, à defesa dos interesses do grande capital e da classe dominante) gerenciado pelo PT chegou ao seu limite. As ruas, de certa maneira, mostraram isso. O governo petista, apesar dos avanços na área econômica e social, “conservava” diversas contradições, como Belo Monte, as relações inescrupulosas com as empreiteiras e políticos do campo conservador, a defesa dos megaeventos (Copa do Mundo e Olimpíadas), que gerou inúmeras remoções, a mercantilização da cidade, como debatido em nosso filme, a ocupação pelo Exército da Favela da Maré, a continuidade do genocídio praticado contra as populações que habitam as favelas e as periferias do país, principalmente contra os jovens negros moradores dessas comunidades… Enfim, é claro que os movimentos da direita não se importavam com essas questões, muitos se mobilizaram contra as conquistas “colhidas” com muita luta e suor pelos movimentos sociais durante os governos petistas, mas a verdade é que o país estava atravessando o início de uma crise econômica que persiste até os dias de hoje, além do desgaste do PT e da representação política na democracia liberal burguesa. A maioria das pessoas, em Junho, exigia uma radicalização da democracia, uma democracia direta, sem intermediários. Mas isso foi em seu início, com a “chegada” ou adesão dos movimentos de direita, e também do senso comum conservador que caracteriza o nosso tecido social, cartazes pedindo o AI-5 ou a volta da ditadura militar, bandeiras monarquistas, outros exigindo o fim das demarcações indígenas e das cotas raciais, a privatização da Petrobrás, etc. começaram a “pulular” nas ruas, redes sociais e janelas da cidade. Mas a direita nunca foi hegemônica nessa época, as reivindicações e os movimentos de esquerda dominavam a dinâmica de Junho que se estendeu (e se estende) até hoje. No entanto, com a apropriação das manifestações pela mídia corporativa e o redirecionamento das demandas para o Impeachment da Dilma, as forças neoliberais e conservadoras, algumas representadas pelo que há de mais abjeto na política, como o bolsonarismo presente, tomaram posse do processo, mas isso só ocorreu em 2015. Nós mostramos isso em nosso filme, tanto que filmamos essas manifestações em seu início, em seu germe, assim como os atos organizados em defesa da ex-presidente Dilma Rousseff.

– O movimento passe livre, estopim de 2013, fazia manifestações frequentes, todo ano, pelo direito à cidade.  Alguém esperava que precisamente naquele ano a coisa tomasse as proporções gigantescas que tomou?

– A verdade é que ninguém esperava por isso, Carlos. Na época, eu estava em Alto Araguaia – MT, dando aulas na UNEMAT (Universidade Estadual do Mato Grosso) na Faculdade de Jornalismo como substituto. Nenhum analista, trovador, poeta ou “vidente” previu o vigor e a potência que se desdobrou em Junho de 2013, agora, dizer que Junho foi o “ovo da serpente” do bolsonarismo é uma visão estreita e oportunista, Junho foi uma eclosão de forças sociais díspares, multitudinárias, que encontraram nas ruas a sua melhor forma de expressão e “representatividade”, uma política rizomática, antiestatal no sentido libertário do termo, ou seja, “nós por nós mesmos”, tal como foram a Comuna de Paris, os sovietes ou os conselhos de operários e estudantes em Maio de 68. As jornadas ou a rebelião de Junho reuniu movimentos hegemonicamente de esquerda, como dito anteriormente, movimentos cuja “essência” está em sua mobilidade e flexibilidade estratégicas, enxames que ocupam os lugares sem medir, tal como “máquinas de guerra nômades”, mas que se mobilizam para além da “guerra”, ou seja, se compõem a partir de novos espaços de liberdade: sexual, política, estética… Mas também houve movimentos (de extrema-direita) que se apropriaram dessa máquina e lhe deram um  caráter fascista e suicidário, Bolsonaro seria a efetivação estatal desse arranjo abjeto. Junho foi um acontecimento paradigmático na história do Brasil e seus rastros se ramificam até os dias de hoje.

Não me convidaram, para esta festa pobre que os homens armaram para me convencer. Acreditava-se que os megaeventos trariam mais empregos para a cidade e que inclusive seriam eventos populares. Meu pai que era um grande fã de futebol achou um absurdo os preços dos ingressos e assistiu toda a Copa e toda as Olimpíadas pela tevê. Há quem mora ao lado do estádio do Maracanã e assistiu tudo pela telinha, como se estivessem sendo realizados em Paris, Tókio ou até no Alaska – tanto fez, como tanto faz. Seria mais justo que estes jogos fossem realizados em estúdios de tevê, logo, de uma vez – pois aturamos obras que nunca nos comtemplaram de fato. Será que caiu a ficha para o carioca que tipo de modelo de cidade estava sendo implementado através dos grandes jogos?

– Exatamente, como debatido em nosso filme, os megaeventos foram feitos e “desfrutados” pela elite, a mercantilização da cidade foi aprofundada, o monopólio das empreiteiras ligadas aos governos da época, a partir de uma coalização de vários partidos da ordem (PT, PMDB, PSDB, DEM, etc.), foram consumados em diversas cidades do Brasil. O povo ou uma parte considerável de segmentos populares e da classe média, de certa forma, sentiu esse “esquema”, a partir de percepções e ideias variadas, e foi para as ruas, protestou em suas redes, em seus locais de sociabilidade, enfim… Eu me lembro que havia obras tanto em Cuiabá quanto no Rio de Janeiro, dentre outras capitais do país, na época eu fazia essa ponte aérea com frequência. As cidades estavam em constante processo de transformação, elas sempre estão, mas não com essa “carga de investimentos”, não com essas cifras megalomaníacas… Agora, essa mobilização urbana sempre se deu em função dos interesses das elites econômicas e políticas do país, ainda que novos atores tenham surgido no seio dessa elite. Na época, os logotipos da Odebrecht, Camargo Correia, Andrade Gutierrez, dentre outras empresas que compunham este oligopólio, dominavam as paisagens urbanas. Os PACs promovidos pelos governos petistas, certamente, tiveram alguma relação, de forma direta e indireta, com esta reinvenção capitalista da cidade.

Frames de “O que resta de junho”. Fotomontagem por Carlos Contente

– “Sem partido!” um grito que pode soar esquisito, porém revelou uma insatisfação com um comportamento – apontado por Mauro Iasi, no filme – que os partidos de esquerda aos quais havíamos outrora depositado esperança, vinham se comportando na época: capturando bandeiras de luta para as eleições e depois abandonando. Não teria sido este vácuo de representação que de fato, “abriu a porta para a direita”?

– A representação política na democracia liberal burguesa, ou democracia representativa, é, em si, um vácuo. Um nada, um vazio. No sentido em que reproduz o padrão das sociedades dominantes no capitalismo atual, o que Deleuze e Guattari chamam de “maioria”, mas que não é uma maioria quantitativa, e sim dominante, qualitativa. Nas sociedades atuais, quem enuncia a verdade é o “homem branco, morador de uma metrópole, falante de uma língua europeia”, todas as relações de poder tendem a ele como significante hegemônico, toda a sociedade se articula em torno de sua reprodução e da acumulação do capital. Junho de 2013 dinamitou as bases dessa democracia burguesa hipócrita e decadente, numa sociedade altamente desigual e neoescravocrata como a nossa, os partidos ou movimentos sociais que não se reinventarem, aprofundando essa potência libertária de radicalização democrática que Junho trouxe à tona, descortinou em diversas nuances, devem ser “enterrados” com os ossos dessa necropolítica, essa junção soberana do biopoder com o neoliberalismo em sua face mais cruel e eficiente, que chamam de Estado. Mas a análise de Mauro Iasi, sociologicamente, faz sentido, pois parte da ascensão da direita e da extrema-direita se deu pela defesa dos megaeventos, das empreiteiras e dos negócios que eram realizados durante o governo petista, ou seja, o PT se “acovardou” e, de certa forma, criou esse vácuo citado pelo Iasi.

– Como foi a conversa com o pessoal na Aldeia Maracanã? Será que a Aldeia não foi a precursora das jornadas de junho carioca – por causa da resistência à remoção em abril do mesmo ano?

– Sem dúvida, a Aldeia Maracanã impulsionou as Jornadas de Junho no Rio de Janeiro e sua militância esteve presente em quase todos os atos. Inclusive, muitos militantes do MPL (Movimento Passe Livre) e de outros movimentos sociais e organizações políticas que integraram as manifestações participavam das atividades políticas e culturais na Aldeia. Pode-se dizer que a militância na Aldeia Maracanã deu corpo a Junho no Rio de Janeiro. Nosso filme mostra essas conexões e a forma como elas se realizaram nas jornadas.

– O filme é bastante completo em mostrar as várias vozes que protagonizaram os enfrentamentos mais radicais nas cidades – e também na periferia, como vemos na entrevista com o MTST .  Bandeiras da moradia, da periferia e do direito à cidade, a pauta indígena, a luta contra as remoções. Também dá voz ao pessoal das mídias independentes, novidade na época que foi abraçada como alternativa ao tremendo monopólio dos meios de comunicação no Brasil. Isto foi um recorte, específico do teu filme ?

– Sim, são recortes importantes e inéditos na maioria dos documentários sobre Junho de 2013. Queríamos fazer um documentário a partir da fala dos atores sociais que participaram diretamente das “jornadas”, um filme que fosse, ao mesmo tempo, plural e realista, que fosse um mergulho estético e político neste acontecimento singular e inexorável da história. As maiores manifestações populares que o país que já conheceu e vivenciou.

– A Dilma , poderia ter abraçado os movimentos de 2013 e ela sim, golpeado seus sócios na governabilidade, chacoalhando o sistema de uma vez – ou estava amarrada pelos negócios?

– Estava amarrada pelos negócios e, simultaneamente, ou em função desses negócios, “deu mole”. O PT nunca quis “chacoalhar o sistema de uma vez”, apesar da ingenuidade de alguns militantes que ainda acreditam nesse discurso e fetichizam o partido. O PT se alimentou do sistema e o conservou, e ainda que tenham tido avanços sociais e econômicos importantes em seus governos, as contradições políticas e sociais que estruturam o nosso país não foram superadas, em muitos casos, elas foram “amenizadas”, mas em dado momento, explodiram. Junho é um efeito dessa explosão…

Imagem de “Rodrigo, uma vida”. Captura de tela.

– Você está com um novo filme Rodrigo, uma vida relacionado ao tema dos autos de resistência. Conte-nos um pouco mais sobre ele.

– Este documentário fiz com um amigo, Pedro Guilherme Freire, que foi professor do Rodrigo Cerqueira, assassinado cruelmente pela PM do Rio de Janeiro e, em seguida, criminalizado pela instituição, que alega “auto de resistência” para justificar o assassinato, como ocorre em milhares de casos espalhados pela cidade e no resto do país. Um verdadeiro genocídio, uma necropolítica articulada pelo Estado para defender seus interesses de classe e manter as relações de poder inalteradas. É um filme essencial, necessário, no sentido de resgatar a memória do Rodrigo e provar sua inocência. Foi, sem dúvida, o filme mais emocionante que já fiz, e um dos mais importantes. O Pedro não é do meio audiovisual, ele é da Sociologia e da Letras, então as imagens não foram tão bem trabalhadas. O filme é composto de imagens captadas por ele, por alunos do Pré-Vestibular Comunitário Machado de Assis e por amigos e familiares do Rodrigo.

(Esta é parte da sinopse que escrevi com o Pedro para publicitar o caso)

“No dia 21 de Maio de 2020, quando professores e estudantes do Colégio Estadual Reverendo Clarence e do Pré Vestibular Comunitário Machado de Assis, na Providência, se organizavam para começar mais uma entrega de cestas básicas para os alunos da escola, do pré e da Ocupação Elma, policiais da UPP da Providência assassinaram o estudante Rodrigo Cerqueira da Conceição. Rodrigo era aluno da escola e estava na fila para receber uma cesta. Infelizmente não pode, pois foi assassinado antes. Na véspera do assassinato completar 1 (uma) semana, mais de 100 (cem) pessoas se despediram de Rodrigo em uma cerimônia próxima à escola onde estudava, local em que as cestas básicas continuam sendo entregues todas as quartas-feiras, com exceção do dia em que ele foi covardemente assassinado. Rodrigo estava no 2◦ Ano do Ensino Médio, trabalhava como ambulante para ajudar a família, nunca teve passagens pela polícia, mas, ainda assim, foi assassinado cruelmente por policiais militares na Rua do Livramento, Morro da Providência, Rio de Janeiro. Este filme é também parte da luta de familiares e amigos de Rodrigo em defesa de sua memória e da luta por justiça.”

Frame do filme O que resta de junho.

– O que resta de junho, sete anos depois?

– Como eu disse anteriormente, Junho ainda está vivo, pois a democracia burguesa e o capitalismo ainda se conservam, mesmo que em percalços, “soluços”, tensões constantes. Como acontecimento, como incorporal, Junho vive e amedronta aqueles que se acomodam na representatividade política dos gabinetes, no “galpão de negócios da burguesia”, como escreveu Marx, e sua materialidade se efetiva nos movimentos sociais que instauram uma nova forma de fazer política, sem intermediários, sem as delimitações que o capital impõe, uma política rizomática que não se centraliza num partido ou num aparato estatal, mas que cria o comum a partir das diferenças que o compõem. Atualmente, enfrentamos a rearticulação do campo neoliberal e os ataques constantes do neofascismo ou populismo de direita representado pelo governo Bolsonaro, mas repetir os “velhos esquemas”, como o populismo neodesenvolvimentista do governo anterior, o chamado lulismo, para se contrapor a essas forças reacionárias, não é e nunca foi a “solução”. Ou a esquerda se reinventa ou ela “perecerá”, ampliando as bases do novo fascismo que ascende, assustadoramente, no Brasil e no mundo. Como eu escrevi há pouco tempo atrás no meu Facebook, relançando o trailer do nosso filme: “E as perguntas continuam, voltam com um teor de intensidade renovado, abrem novas brechas e fecham alguns canais, mas sempre a partir da singularidade “absoluta”, irredutível, dos eventos… O que resta de Junho?”

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