Carta à Vossa Senhoria

14.06.2020 - Sevilha, Espanha - Miguel Ángel Gayo Sánchez

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Carta à Vossa Senhoria
RELATO BREVE

 

 

Desculpa-me, Vossa Senhoria, pelas rasuras e erros de ortografia. A Rosa diz para eu não me preocupar, que o senhor está acostumado a lidar com crianças da minha idade. Que o senhor é um bom homem. A Rosa diz que eu devia escrever sobre o papai e a mamãe. O meu pai também é um bom homem como o senhor e eu sinto muita falta dele, mas tenho mais saudades da mamãe. Para que o senhor me entenda, vou lhe dizer que sinto falta do meu pai tipo assim… um 7 e da mamãe um 9 (acabo de me arrepender e gostaria de riscar o 9 e pôr um 10, mas a Rosa disse pra eu deixar assim mesmo, que depois vocês corrigem). A Rosa também me disse que o senhor sabe o que aconteceu com a minha mãe, que o senhor vai pegar o homem mau que machucou ela, que eu tenho que ajudá-lo contando o que vi naquela tarde. Nossa! A Rosa acabou de dar um grito enorme aqui. Quase me assustou. Ela diz que esquecemos de nos apresentar. A gente revisou a carta e ela tem razão. O meu nome é Daniel Gomes da Silva, tenho oito anos, moro em… A Rosa está dizendo que já está bom, que não faz falta mais nada, que Vossa Senhoria já sabe o resto e que o senhor já a conhece. A Rosa é psicóloga e talvez eu seja psicólogo também quando crescer, estou pensando nisso. Mesmo que o senhor não saiba, a gente deixou de escrever por meia hora para fazer um lanche. Aqui no Centro tem muitas crianças e todas as pessoas são muito simpáticas e se come muito bem. Bom, na verdade eu gosto mesmo é do lanche, mas da janta e do almoço eu não gosto tanto. A Rosa está dizendo que eu tenho que contar o que aconteceu naquela tarde, que eu fale de como eram o papai e a mamãe. De como o meu pai se comportava com a mamãe. O meu pai é muito forte. Todo mundo sabe disso. Acho que, de todos os pais dos meus amigos, o meu é o mais alto e o mais forte de todos. Até o Pedrinho, o meu colega da escola, concorda com isso. A voz dele se escutava na rua toda. A mamãe não sorria muito e falava bem baixinho. Era muito carinhosa comigo. E tropeçava muito. Todos os dias ela tinha um hematoma diferente. Ela gostava de cobrir os seus hematomas para que as pessoas não os vissem, mas quando eu caía, ela dizia que o ar curava as feridas. A Rosa me perguntou se alguma vez a vi tropeçar. Um dia ela esbarrou no móvel da entrada e o vaso que a gente comprou numa lojinha ficou em pedaços. O pai ficou muito zangado e olha que o vaso só custou cinco reais, hein!? Só me lembro dessa vez. Mas a mãe deve ter tropeçado muito. O meu pai dizia que a mamãe era a mulher mais desajeitada do mundo. Algumas vezes o pai ficava tão zangado que a voz dele assustava os pássaros pela janela e matava os peixes. Vários peixinhos do aquário morreram, eu acho que foi por isso. A mãe chorou e disse “não na frente da criança”. Depois foram para o quarto e o pai bateu a porta com força. A mãe costumava tropeçar muito dentro do quarto. “Sou muito atrapalhada”, dizia ela, e me abraçava muito e me dava muitos beijinhos. Ela me disse que aqueles beijinhos curavam as feridas dela. Naquela tarde eles demoraram muito tempo dentro do quarto. Eles costumavam me deixar vendo os desenhos animados da televisão. Mas os desenhos acabaram e começou um filme onde os personagens passavam o tempo todo cantando e eu não gostei nada. Então fui para o corredor e vi a mamãe deitada no chão. Pensava que ela estava dormindo. A porta da casa estava aberta. Fechei a porta e fui chamar o meu pai no quarto. Mas como eu não consegui encontrá-lo, voltei para perto da minha mãe. Me sentei ao lado dela e assoprei a sua cara. Ela gostava que eu a acordasse assim. Desta vez, eu soprei com tanta força, com tanta força, que até saiu um pouco de saliva. Mas a mãe continuou dormindo. Eu acariciei o rosto e o cabelo dela. A mamãe pintava o cabelo, sabe? Ela gostava de se cuidar para ficar bonita para o meu pai. Foi aí que eu comecei a chorar.  A Rosa está me perguntando por que, se é porque o sangue me assustou. Eu Juro para o senhor que eu não vi nenhum sangue. Tudo o que sei é que comecei a chorar, que eu fiquei com tanto medo que abri a porta de casa e chamei a Guilhermina, a nossa vizinha da letra B. Agora penso que não foi uma boa ideia. Ela foi para perto da minha mãe e chorou ainda mais alto do que eu. Foi aí que eu soube que a mamãe estava morta. Eu só entendi por que a Guilhermina gritava “ele a matou, ele a matou” e assim, repetindo, muitas vezes, sem parar. A Rosa quer que eu lhe diga o que penso sobre o que aconteceu. Tenho certeza de que um ladrão invadiu a casa e estrangulou a minha mãe. O pai devia estar dormindo depois do almoço. Aposto que ele saiu correndo detrás do bandido e foi por isso que deixou a porta aberta. Quando o meu pai pegar esse ladrão, ele vai ver só…. O meu pai é muito forte, o mais forte da vizinhança. Tenho tantas saudades dele. A Rosa diz que Vossa Senhoria vai encontrar o papai. Ela me diz que eu devo confiar no senhor.


Esta obra foi premiada com o 1º Premio no Concurso de Contos e Histórias de Viajens Solidárias “Lo vives, lo cuentas” da Fundação Juan Bonal de Zaragoza-Espanha

Categorias: Cultura e Mídia
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