Carta de uma indigenista para Julie Dorrico

20.05.2020 - Itália - Loretta Emiri

Carta de uma indigenista para Julie Dorrico
Julie-Dorrico. TEDxUnisinos, Outubro 2019. Captura de video

Querida Julie, muito importante tem sido o intenso trabalho por você desenvolvido, nestes últimos meses, de organização e divulgação da literatura indígena brasileira. A quarentena por coronavírus caiu justamente em abril, que para os parentes que moram nas cidades tem se tornado o mês propício para promover e participar das mais variadas atividades culturais.  Achei genial sua decisão de utilizar os canais telemáticos para assegurar, de alguma forma, a continuidade do Abril Indígena. A iniciativa pode não ter suprido os prejuízos econômicos produzidos pela quarentena, porém deu visibilidade aos escritores que você entrevistou, difundiu seus pensamentos, valorizou suas produções; portanto acredito que isso, pelo menos, os gratificou e animou bastante. As pessoas que acompanharam as entrevistas, que nem eu, só podem agradecer, pois tivemos acesso a uma vasta gama de reflexões, informações, subsídios, sugestões.

Há anos acompanho o movimento dos escritores indígenas brasileiros. Meu interesse foi despertado por uma entrevista que Daniel Munduruku concedeu em janeiro de 2013 a Fernanda Faustino para a Global Editora. As palavras do filósofo e escritor munduruku capturaram minha atenção. Achando elas profundas e originais, as guardei dentro de mim até que, um belo dia, me obrigaram a traduzi-las e divulga-las.  A versão em italiano da entrevista foi publicada em outubro de 2013, no número 53 da Sagarana, revista de literatura fundada na Itália pelo saudoso escritor carioca Júlio Monteiro Martins. O projeto coletivo idealizado por Daniel Munduruku, que tem motivado vocês autores indígenas a escreverem suas histórias e as histórias de seus povos, é um marco fundamental na formação da literatura indígena contemporânea brasileira. Alguns meses atrás comecei a pensar que aquilo que estava faltando era uma pessoa que tivesse o coração generoso e a mente brilhante do Daniel para valorizar a produção das mulheres indígenas, produção bem menos visível e organizada daquela dos homens. Aí chegou a notícia de sua colaboração com a Livraria Maracá, especializada em literatura indígena, na criação da necessária secção dedicada às escritoras e intitulada “Leia mulheres indígenas”.

Quero concluir esta carta evidenciando mais uma vez, querida Julie, que acho seu trabalho fundamental, importante demais. A palavra cria. Modificando os termos habitualmente usados, estamos modificando a própria realidade. O Brasil é um país multiétnico, evidência essa consagrada na Constituição de 1988, cuja elaboração os povos indígenas participaram criativamente através de seus representantes.  Na época muitos deles não utilizavam a modalidade da escrita para afirmar valores, porém seus pensamentos cristalinos, suas reivindicações firmes, suas palavras orais, fizeram com que direitos étnicos fossem assegurados. A reconstrução da identidade nacional passa agora pela luta de vocês pensadores, escritores e artistas, pois sem os indígenas o Brasil não existe.

Loretta Emiri, 16-05-2020

Categorias: Ámérica do Sul, Assuntos indígenas, Europa
Tags: , , , ,

Boletim diário

Digite seu endereço de e-mail para assinar o nosso serviço de notícias diárias.

Search

Informe Pressenza

Informe Pressenza

Caderno de cultura

Caderno de cultura

O Princípio do fim das armas nucleares

Documentário 'RBUI, o nosso direito de viver'

Canale YouTube

International Campaign to Abolish Nuclear Weapons

International Campaign to Abolish Nuclear Weapons

Arquivo

xpornplease pornjk porncuze porn800 porn600 tube300 tube100 watchfreepornsex

Except where otherwise note, content on this site is licensed under a Creative Commons Attribution 4.0 International license.