O Fórum Humanista visto de fora

16.05.2019 - Bahia, Brasil - Débora Nunes

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O Fórum Humanista visto de fora

Deixei Santiago com a memória do mais lindo fechamento de evento que já tenha vivido. E olha que em minha vida de professora universitária, escritora e palestrante não faltaram eventos, sem contar os que eu mesma organisei. “Construindo Convergências” foi o título do IV Forum Humanista realizado em maio de 2019 e o espetáculo artístico participativo que finalizou o evento mostrou com graça, inteligência e emoção, muito das convergências construídas, dentro do espírito estimulado por Silo, de conectar a mente, o corpo e o coração.

Vim ao Chile a convite de Alícia Blanco, da Argentina e de Ricardo Arias da França-Colômbia, para conhecer melhor o Movimento Humanista e criar convergências com a rede internacional Diálogos em humanidade, da qual faço parte e que também valoriza a conexão entre a transformação pessoal e a construção de um mundo melhor. A cena final das coloridas fitas sínteses produzidas pelas 24 redes que trabalharam durante o evento descendo de um alto poste e sendo entrelaçadas pela dança circular de seus porta vozes em torno desse pilar foi muito simbólica, além de bela. A visão de sínteses co-construídas se tecendo com sínteses de outras redes no compasso de uma dança dos povos originários chilenos foi um momento muito original e expressivo do Fórum. Fiquei extasiada e vi que não estava sozinha em minha admiração. Os e as humanistas que me cercavam, muito mais de uma centena, tinham expressões de alegria e emoção ao ver a cena. Ainda guardavam nos rostos a comoção inspirada pelas músicas latino americanas que tinham cantado juntos pouco antes e que celebravam a união do continente. Como brasileira me vi um pouco fora desse momento pois, infelizmente, não reconhecia as músicas cantadas em espanhol e pensei: a parte lusófona dessa América precisa se integrar mais ao resto do continente, pois partilhamos alegrias e dores parecidas e muito da contribuição que damos ao mundo é comum.

Ao longo de todo evento observei atentamente os sorrisos e troca de calorosos abraços entre participantes, que se conheciam de longa data. Como na rede Diálogos, parece que o que chamamos de “política da amizade” também é praticada pelos siloístas, ou seja, celebrar a alegria de estar juntos e transformar a cumplicidade e a sinceridade de amigos e amigas em uma força política de ação conjunta. Senti-me pessoalmente integrada por essa política da amizade, pois fui tratada com confiança e carinho pelas pessoas com quem partilhei momentos, seja nas sessões oficiais do evento, seja em momentos criados pelos desejos pessoais que se cruzam, como a visita à La Sebastiana, a inspiradora casa de Pablo Neruda, em Valparaíso. Mencionar essa cidade leva-me a comentar os momentos políticos partidários do Fórum: a visita ao Congresso Nacional do Chile e a deputados do Partido Humanista e a busca de convergências entre parlamentares de diferentes países do Cone Sul que se passou no auditório do comovente Museu da Memória, em Santiago. Que ousadia e temeridade dos Humanistas de criarem um partido e buscarem intervir diretamente na política vigente via eleição de seus próprios.as representantes…o entusiasmo dos e das visitantes ao parlamento, os comentários admirativos e a séria atenção prestada aos discursos da representação política no Fórum mostram que a decisão não é objeto de divisões importantes no seio do movimento. Não acredito que isso fosse possível no ambiente da rede Diálogos em humanidade…mas temos pouco tempo de existência diante dos 50 anos do Movimento Humanista. A multitude desse movimento, sua implantacão em tantos países, seu ancoramento na Terra através de suas dezenas de parques, suas  ramificações em tantas áreas de interesse da humanidade, sua imprensa própria – Pressenza- publicada em oito línguas, os projetos realizados e tantos outros planejados nesse Fórum deixam-me admirada. Comprometo-me particularmente a convidar os “dialoguistas” a participarem da 2a. Marcha Mundial pela Paz e a Não Violência entre 2019 e 2020, um evento admirável que segue depois de dez anos o primeiro, realizado com louvor.

Uma pergunta rondava minha mente ao vir para o Fórum: quem era esse Silo, capaz de atrair tantas pessoas, de ser ouvido em tantas culturas diferentes, de manter a lealdade de quem foi atraído por sua mensagem durante tantas décadas? Ter lido “O dia do leão alado”, passeado pelo site em suas entrevistas e compartilhado a admiração de seus seguidores e seguidoras por sua inteligência e sorriso contagiante não respondia a pergunta. Após conversar com muita gente em Santiago, creio que uma pista que se apresenta são as famosas “disciplinas”, as quatro diferentes formas de buscar ser mestre de si mesmo e ajudar outros, como mestres formados, a terem mais clareza de sua missão nessa vida, a expandir sua consciência e a ser mais humano.a. Não presenciei trocas sobre esse tema nas sessões do Fórum, nem os fundamentos das disciplinas aparecem facilmente no site do movimento. Alícia e outras pessoas me introduziram ao tema, contando sua experiência. Nos idos das décadas de 1960 e 1970, assim como hoje – talvez ainda mais – a busca interior é uma experiencia indélevel. O fato de Silo, o Negro, ter guiado os e as humanistas nessa busca, de esses e essas terem entrado nessa viagem com um guia seguro e com a companhia uns dos outros provavelmente conta muito na perenidade da mensagem de Silo e na amizade que une as pessoas no movimento. Outra pista é o slogan do novo humanismo, que resume também, de certa forma, seus objetivos: Paz, Força e Alegria. Ver como as e os humanistas gritam com entusiasmo essas palavras de ordem e fazem o gesto de 1, 2 e 3 dedos seguindo a pronúncia das palabras é uma forma de perceber a vitalidade do movimento. Uma coisa leva a outra e falar em vitalidade lembra a idade media dos participantes do Fórum. Acima dos 50 anos, provavelmente. Embora cheios de energia e compromisso, esses senhores e senhoras enchiam as salas do evento e faziam com que o jovem Andrez – que veio da Colombia de bicicleta para Punta de Vacas (“onde tudo começou”) – ou ver Abril, a curiosa menina cheia de perguntas aos participantes, tornassem-se um interesse à parte entre o público, por serem tão jovens. Não estavam sozinhos, claro, mas eram muito minoritários. A renovação do Movimento Humanista, assim como a da rede Diálogos em humanidade, são temas incontornáveis. Outro tema correlato, o papel das mulheres no movimento, precisa ser levantado: como na rede Diálogos, elas são a maioria das pessoas envolvidas, sustentam alegremente a rede em sua organização e logística, nas manifestações artísticas e de acolhimento de visitantes, no papel de moderadoras e articuladoras, mas são menos presentes como palestrantes, ou em outras situações de destaque público e de prestígio. Claro que em face do mundo patriarcal em que ainda vivemos, a situação feminina em redes como a Humanista ou os Diálogos é destacada, mais ainda precisa melhorar muito, para que seus pontos de vista sejam mais ouvidos e seu modo de ver e intervir no mundo mais considerados. Uma política afirmativa interna podia ser tentada para que a intenção de igualdade, que certamente é compartilhada por homens e mulheres, possa ser vivida mais intensamente.

Observando a dinâmica do Fórum, lembrava que no livro que escrevi com Ivan Maltcheff, “Os novos coletivos cidadãos”, a expressão da novidade de um movimento cultural e político era a incorporação da dimensão sutil de sua existência, ao lado da horizontalidade e da busca de coerência entre o que se pensa, o que se diz e o que se faz. Posso dizer que o Movimento Humanista se expressa como um novo coletivo da cidadania planetária. Ele, como outros, está se organizando para renovar a cultura e a política humanas e os momentos de introspecção e de meditação coletiva, assim como a co-responsabilidade organizativa e a busca de inteireza na ação mostram isso. Como defende Elisabeth Sathouris, bióloga que estudou a metamorfose da borboleta e a colocou como modelo para a transição humana em direção a uma sociedade mais justa, democrática, pacífica e ecológica, precisamos formar rede de redes. Para Sathouris, as chamadas “células imaginais” que conduzem a metamorfose das lagartas em borboletas são entidades inovadoras do corpo dessas, que, ao se conectarem umas com as outras, vão construindo a transformação. A metamorfose é, portanto, obra coletiva, que se dá sem chefes, mas que nasce da articulação dos que se comportam diferentemente e sabem onde querem chegar. Já somos essas células transformadoras, precisamos encontrar como centenas de outras redes mundiais, milhares de outras organizações nacionais e milhões de iniciativas locais que estão construindo hoje o outro mundo possível de amanhã. Obrigada por existirem, amigues humanistas e por fazerem o profundo trabalho que fazem, sobre si mesmos.as e sobre o mundo.

A História é feita também de força, mas a aspiração de paz e de alegria é que lhe dá sentido. Força ao novo humanismo!


Fotos Walker Vizcarra/Pressenza

Categorias: Ámérica do Sul, Humanismo e Espiritualidade, Opinião
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