Aumento da pobreza, dos protestos e da repressão: a Argentina de Macri segundo líder comunitário

12.08.2018 - Porto Alegre, Brasil - Redação São Paulo

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Aumento da pobreza, dos protestos e da repressão: a Argentina de Macri segundo líder comunitário
Fidel Ruiz em entrevista com KolectiVOZ Digital. Captura de tela.

Por Luís Eduardo Gomes/Sul 21

Fidel Ruiz, membro do movimento social La Poderosa, fala sobre a experiência de organização de favelas na Argentina

Porto Alegre recebeu neste último fim de semana o 2° Fórum Latino-americano de La Poderosa, movimento social nascido na favela de Villa Zavaleta, em Buenos Aires, e que hoje já se espalha por 11 países da América Latina. Mais de 3 mil pessoas passaram por Porto Alegre, a grande maioria vindas das mais de 80 comunidades em que a entidade já está organizada. Antes do evento, o Sul21 conversou com Fidel Ruiz, uma das lideranças — ainda que o movimento preconize a horizontalidade e que ninguém fale por todos –, para entender como La Poderosa surgiu, se organizou e agora pretende se expandir para o Brasil.

Fidel tinha apenas 9 anos quando La Poderosa surgiu em Villa Zavaleta, em 2004, com o intuito de organizar as disputas de futebol no bairro, que eram uma versão miniaturizada da realidade de uma comunidade carente de Buenos Aires: violenta e sem organização. Ele era um dos meninos que corriam atrás da bola. Com o tempo, foi se tornando uma das vozes a serem ouvidas nas assembleias semanais, que, além de tratar das regras das partidas, passaram também a abordar os problemas vividos pelos moradores e como resolvê-los. Brinca que, aos 23 anos, é um “jovem aposentado” no movimento social.

Apesar de La Poderosa rejeitar apresentar seus membors como liderenças, Fidel reconhece-se como uma referência, porque assim é visto em sua comunidade. “Não porque eu seja melhor, mas porque podem me abordar e me veem como alguém que pode contagiar a luta da comunidade”, diz.

La Poderosa é uma organização que se apresenta como apartidária, diz não ter uma plataforma política, mas não nega sua ligação com a esquerda — aliás, o nome vem da motocicleta que Ernesto Che Guevara usou para percorrer a América Latina. Ele ressalta que o movimento não nega a política, não é anarquista, pois compreende que ela não é ruim em sua essência, não chama o voto em branco como crítica aos governos que os deixaram na mão, tampouco chama o voto em alguma pessoa ou partido, deixando seus membros livres para votarem em quem quiserem. “Mas construímos um acordo para ninguém votar no macrismo”, demarca Fidel, que ao longo da entrevista vai abordar o aprofundamento da pobreza no País nos anos de governo Maurício Macri.

Para Fidel, a luta de La Poderosa é para dar voz para àqueles que nunca tiveram, não para apoiar “iluminados” que falem pelos bairros pobres mesmo sequer conhecendo 1% de sua realidade. Por isso, em 2011, a organização colocou para circular a revista Garganta Poderosa, o meio de comunicação para que as comunidades falassem delas e para elas. “Obviamente, precisamos de companheiros que não são dos bairros se somem à luta, porque é uma luta de todos. Na Poderosa há muitos companheiros de fora, mas os moradores são aqueles que vivem a luta 24 horas, sete dias por semana”, diz.

Fidel também entende que, para mudar a sociedade, é preciso primeiro construir a mobilização e organizar as comunidades. Só depois, em sua visão, seria possível pensar em uma mudança estrutural que lhes permita sonhar em ocupar os espaços dos quais sempre foram excluídos, como a política e o judiciário. “Isso ainda vai demorar muitos anos para ser possível”, diz. Mesmo já com uma abrangência importante e tendo conquistado uma voz, criar um partido não passa pelo ideia. Além disso, não seria interessante ser mais um partido a dividir o já fracionado voto da esquerda na Argentina. “Quando nasceu La Poderosa, nasceu de uma necessidade de fazer diferente”, diz, ressaltando, contudo, que a organização sabe de onde partiu, mas não tem um ponto de chegada. A aposta é na caminhada e na construção coletiva.

La Poderosa surgiu do futebol popular e hoje está presente em 11 países da América Latina. Foto Emergentes

Confira a seguir a entrevista com Fidel Ruiz.

–Como se deu a formação de La Poderosa e deste movimento de organização entre bairros populares?

–La Poderosa nasceu há 14 anos, em 8 de outubro de 2004, entendendo que tinha que ser uma organização que saísse dos bairros, para atender as necessidades da comunidade e entendendo que os únicos fatores importantes da luta eram os vizinhos. E assim foi crescendo de uma maneira que muitos subestimavam. Começamos com uma atividade de futebol popular, com uma bola, jogando futebol. Entendendo que dessa forma se poderia construir, porque o futebol era onde mais repercutia a violência, onde mais repercutia a discriminação, o machismo, todas essas problemáticas. Então, nós entendemos que se fizéssemos um futebol misto não era para sermos revolucionários, mas para que o bairro começasse a crer que poderiam conviver em um mesmo campo mulheres e homens. E jogando sem árbitro, não porque ele era ruim, mas porque acreditamos que assim se produzia um intercâmbio maior. Para nós, o futebol não é só um esporte, é um espaço de disputa, de formação social, de educação social, como dizemos, porque é ali que repercutem muitas emoções, muitos saberes, muitas interpelações e muito dessa união popular que muitas vezes os meios de comunicação, pelo menos na nossa experiência da Argentina, não mostram. Sempre mostram todo o lado ruim, mas não mostram essa união comunitária que existe. E assim nasceu e cresceu La Poderosa, trazendo os pais das crianças que estavam discutindo sobre como iam disputar o futebol popular para uma assembleia, uma reunião semanal para discutir as problemáticas dos bairros.

–Quais eram os problemas que apareciam nas assembleias?

–Os mesmos problemas de agora, o tema da habitação, o tema da fome. A nossa primeira regra do futebol popular foi tomar café da manhã, porque muitas das famílias das crianças, se compravam dois pacotes de arroz, tinham que reservar um para o dia ou a semana seguinte. Então, o café da manhã se convertia na janta, nem sequer na merenda ou no almoço. Os problemas de habitação eram muitos. Muitas das crianças iam jogar descalças porque tinham que guardar os chinelos, porque era o único par de calçados para ir ao colégio no dia seguinte. E assim milhões de problemas, como também a falta de educação, que não era porque as crianças não queriam ir à escola, mas porque não podiam ir porque não tinham dinheiro para o transporte, porque colégios não aceitavam pela falta de cultura e também porque os livros escolares não chegavam à periferia. O tema habitacional é o grande problema que temos há muitos anos e alguns dos nossos bairros estão sob o mesmo governo local há mais de 50 anos. Isso demonstra que há falta de vontade de resolver.

–Os problemas são mais resultado da falta de compromisso dos governos locais ou da ausência de políticas nacionais para estas populações?

–Acredito que as duas coisas andam juntas. Atualmente, governo Macri e o governo que está na cidade de Buenos Aires são do mesmo partido, a assim foi na Província e em muitos lugares ao longo da história. Mas entendemos que não há vontade, não há compromisso. Sempre falam de urbanizar, de localizar as pessoas que não têm casas, mas isso nunca termina sendo cumprindo. Eu vivo em Villa Zavaleta, onde começou La Poderosa, em que se urbanizou apenas um quarto dele e depois o dinheiro que estava designado para a urbanização desapareceu.

–Quando ocorreu essa urbanização?

–As obras ocorreram entre 2003 e 2007. Mas isso não foi por compromisso estatal, foi porque os moradores se organizaram e acamparam, com barracas, na frente dos ministérios. A policia os reprimiu muitas vezes. Tinha pessoas que ouviam promessas há 40 anos e continuavam sem moradia digna. Aí vemos que tanto os governos locais, como os nacionais, não têm a vontade de erradicar a pobreza.

–Quais foram as obras feitas?

–Fizeram edifícios e casas. O plano principal previa um espaço cultural, praças e parques. Em 2009, nós fizemos a praça Kevin, em homenagem a um menino vítima de uma bala perdida. Essa praça quem fez foi a comunidade, não o Estado.

Fidel diz que a mudança para as comunidades pobres só pode vir com a organização popular nos próprios bairros. Foto Emergentes

–Estamos falando da década passada, quando a Argentina tinha um governo popular ou supostamente popular. Há alguma diferença entre como os governos kirchneristas e o atual trabalham os programas sociais e as políticas para as comunidades populares?

–Há diferenças. O que acontece e o que o kirchnerismo nunca fez foi revitalizar as bases, sempre subestimou a luta das bases. Sempre reinou nos bairros o assistencialismo e o clientelismo, nunca uma formação política de valorização das referências sociais e dos lutadores. Nós, no La Poderosa, temos moradores que, quando aderiram ao movimento, já tinham 30 de anos de experiência de luta. Não estavam em nenhum partido político, não porque a política seja má, mas porque a política lhes mentiu. O kirchnerismo teve muitos avanços de direitos humanos. Começaram os julgamentos de lesa-humanidade dos militares. Houve muitos avanços, mas também tivemos muitas deficiências.

Tivemos o caso do menino Kevin, de 9 anos, morto por uma bala perdida das forças nacionais, em 2013. Forças enviadas pelo mesmo governo Kirchner para “custodiar” Villa Zabeleta. Então, tinha dois lugares com a força nacional, supostamente para a nossa segurança, mas nesse dia não estavam. E esse dia não foi único, tivemos muitos casos anteriores e muitos casos depois também. Assim, acreditamos que também não existe a vontade de cuidar da nossa segurança. Sempre dizemos que essas forças de segurança estiveram para cuidar de quem estava fora, pois nos violentaram. Tivemos que criar um controle comunitário que chamávamos de controle popular, onde vizinhos e vizinhas se organizavam para controlar as forças de segurança que deviam estar cuidando de nós. Acreditamos então que estavam violentando os direitos humanos, no tema habitacional, cultural, esportivo, social, agora também nos violentavam os direitos de segurança. Assim, entendemos que a única união que vamos ter é dos que estão embaixo, porque, lamentavelmente, não há Estado que nos resguarde, resguarde o nosso futuro. Quando aconteceu com Kevin, dissemos que a próxima bala viria para nós. Não queremos que nos roubem mais futuros. Queremos que nossos meninos sigam sonhando, sigam desfrutando uma infância tranquila. E isso nós vemos ainda mais no Macrismo. Se os nossos direitos não estavam garantidos, com esse governo muito menos.

–As informações que chegam são de que a pobreza extrema está crescendo sob o governo Macri. Como isso está afetando os bairros populares? As favelas estão crescendo?

–Primeiro, está tudo ruim, pelo menos o que está acontecendo nos bairros populares. Por exemplo, antes, os táxis não entravam nos bairros, mas se podia chegar até certo ponto e caminhávamos o resto das quadras. Em algum momento, isso deixou de acontecer, porque passou a ser muito caro para os moradores. Então, se formaram cooperativas, que chamamos de ‘remises’, que são moradores dos próprios bairros que cobram um pouco menos que os táxis e que se pode chamar. Se tu está no Obelisco, por exemplo, te buscam e te deixam dentro dos bairros. Hoje, o que está acontecendo é que muitos moradores estão perdendo essa oportunidade de trabalho com os remises porque os demais não têm dinheiro para pagar.

Hoje, se tu tem dinheiro vivo, tem que pensar minuciosamente os gastos que vai ter semanalmente. Se tu consegue tal quantidade de dinheiro, já na tua cabeça está pensando no que tem que gastar. Isso está repercutindo muito nos bairros, e também a falta de trabalho. Eu tenho 23 anos. Aos jovens de 18 a 24 anos está custando muito para conseguir um trabalho. E assim com muitos moradores. A venda ambulante está crescendo muito, porque se está sofrendo muito e já leva três anos de governo macrista em que isso se nota. Imagina que chegou no ponto de desespero que hoje os nossos vizinhos estão observando se o dólar aumenta ou não. Imagina. Imagina também todo esse apocalipse que vem dos meios de comunicação também, porque tem meios que são próximos do governo e outros que não são, mas te vendem um mundo que está caindo aos pedaços. Ninguém fala a partir dos bairros e o que está acontecendo em nossos territórios.

–Por isso que La Poderosa construiu um canal próprio de comunicação?

–Sim. Quando pensamos na Garganta Poderosa, que é nosso veículo de comunicação, pensamos que, de uma vez por todas, se fossemos falar dos bairros, isso deveria ser em primeira pessoa. Isso era importante para as pessoas, porque a Garganta não nasceu porque sim, não nasceu para um fim comercial, nasceu por uma necessidade de informar ou de gritar, de nos expressarmos. Chamamos de Garganta Poderosa porque a garanta é o nosso grito, nossa voz. E Poderosa porque a luta que fazemos nos territórios também se faz pela comunicação. Para nós, a comunicação é um espaço de luta, porque nossos moradores não estiveram 50, 60 anos trancados nas suas casas, estiveram 50, 60 anos lutando. E, no meio de tudo isso, os meios de comunicação despejando porcarias nas comunidades e não sabiam nem 1% do que se passava por lá. Então, a Garganta representa isso, contar todas as problemáticas que passam nos bairros e também contar todas as coisas boas. Desde um espaço do futebol popular, um espaço artístico, até uma nova casa para que as mulheres tenham um espaço próprio, para que no futuro os meninos tenham um espaço polidesportivo e também para formação social.

De pouquinho em pouquinho, vamos contando nós, e também dando uma visão da favela do que está passando, tanto na conjuntura argentina, como latino-americana. Hoje, as vozes da Poderosa são conhecidas pelos meios de comunicação, porque quando o governo toma uma medida, ou tal pessoa disse tal coisa sobre os bairros, nos chamam. Por quê? Porque construímos a legitimidade vinda de baixo. Quando lançamos a revista, em primeiro de janeiro de 2011, escolhemos a data por duas razões. Primeiro, porque é a data da revolução cubana. E segundo porque era o único dia que a imprensa que tem o monopólio do papel na Argentina não circulava, o único dia que não jogariam porcaria nos bairros.

Inauguracão da Casa da Mulher na Vila 21. Foto Emergentes

–Como o movimento pensa em crescer para as comunidades que ainda não estão organizadas? Como ocorre esse trabalho de comunicação e organização nos novos bairros?

–Primeiro, nós não temos um livro que diga ‘é assim’. Nós sempre dizemos que La Poderosa, mais do que nunca, se reconhece pela prática, se conhece pela ação. Então, nós mostramos a legitimidade autônomo, autogestionada. A revista, vendemos nós mesmos, em todas as universidades, em todos os espaços culturais, nas ruas. Nós nascemos da luta, o que nós fazemos é contagiar esses lugares mostrando como fomos nos organizando frente às necessidades. La Poderosa nasceu de uma necessidade. A Garganta nasceu de uma necessidade também. E lamentavelmente nascem de uma necessidade, porque não nascemos no mundo ideal, nascemos neste mundo com contradições, muitos preconceitos. E também mostrando a grande organização que existe nos territórios. Mostramos isso em cada palestra para a qual somos convidados nas universidades, em cada espaço cultural que nos convidam para falar, em cada espaço que temos.

–E como ocorre o processo de chegada em cidades de outros países da América Latina, como no Brasil? [La Poderosa tem relações com movimentos sociais de Porto Alegre e de cidades como Salvador e Niterói]

–Primeiro, entendendo que, quando nós começamos, em 2004, chamamos de La Poderosa por dois motivos. Primeiro, porque defendemos a palavra poder. Sempre nos acostumamos a acreditar que a palavra poder era ruim e não poderia se construir a partir dali. Mas podemos construir, sim, de baixo. Os governos que mais foram reivindicativos do povo saíram de baixo também. Então, nós acreditamos que é possível. E chamamos Poderosa também porque assim se chamava a moto de Che, com a qual ele percorreu toda a América Latina. Nós acreditamos nisso, que não podemos falar de Venezuela sem conhecer a realidade da Venezuela. Não podemos falar da Colômbia sem conhecer a realidade. Tudo o que fazemos, e nos custa muito, é viajar, conhecer a realidade, conhecer as experiências e convidá-los a fazer parte desta experiência que soubemos construir na Argentina. No Brasil, certamente em Porto Alegre, pensamos nisso. Por isso fazer um Fórum Latino-Americano, uma Cúpula de Bases, também para que Porto Alegre possa se somar à luta Poderosa latino-americana. Por isso reunir referências de direitos humanos, feminismo, cultura, esportes, da problemática da terra, para expressar e demonstrar que as lutas latino-americanas não são dispersas, que agora é quando mais juntas elas devem estar. Acreditamos que, quando começamos a nacionalizar a Poderosa na Argentina, tínhamos que conhecer a realidade. Se a Garganta tinha que comunicar algo sobre outros estados, deveria comunicar a partir das pessoas que viviam nesses locais. E assim acreditamos em cada setor da América Latina, por isso fazemos assembleias em todos os países da América do Sul, Cuba e México.

–Voltando à situação política na Argentina. O governo Macri, assim como o governo brasileiro, tem uma política econômica que os meios de comunicação vendem como a única possível. Não se pode gastar com políticas sociais porque é preciso pagar os credores, os juros, porque têm que fazer o ajuste fiscal e ocorre a negação das alternativas. Nos dois países, a pobreza também voltou a crescer. Como as pessoas e os meios de comunicação estão tratando esse crescimento da pobreza?

­–Na Argentina, é muito difícil a comunicação. Hoje, todos os meios tradicionais, se podemos falar assim, jogam junto com o governo macrista. Há um que outro que pode fazer algo diferente, mas todos estão com o macrismo, tratando de justificar certas políticas de estado, o porquê a inflação da Argentina não baixar, que agora só vai baixar em fevereiro do ano que vem, enquanto o próximo semestre seguirá muito mal. Em março deste ano, em Tucumán, um policial matou um menino de 12 anos com um tiro na nuca, pelas costas. Todos os meios de comunicação trataram de justificar a ação do policial e até hoje permanecem justificando. Ou seja, tentam justificar que a vida de um menino de 12 anos não vale nada, porque era um delinquente, quando todos sabemos dos problemas que existem por trás.

E, no ano passado, também tivemos a má experiência de um caso de desaparecimento forçado seguido de morte, de Santiago Maldonado, no sul da Patagônia Argentina, que lutava junto com os mapuches argentinos, que hoje estão sendo violentados e sendo tratados como terroristas, obviamente, com o acompanhamento do Chile, que está fazendo uma política de segurança em que cada dia os reprimem mais. Todo os meios tratando de dizer qualquer barbaridade, levantando hipóteses de qualquer magnitude, dando voz para os funcionário do macrismo que diziam que Santiago Maldonado estava escondido no Chile, estava num lado ou no outro. Dois meses depois, o corpo apareceu no mesmo rio onde supostamente não o encontravam. Agora, tentam dar outra justificativa. Um mês depois, acontece o caso de Rafael Nahuel [morto em novembro de 2017 durante uma operação de reintegração de posse na província de Rio Negro], também de violência da força nacional contra a luta mapuche. Tentaram justificar que Rafael estava armado, quando as principais hipóteses dizem que não estava, e assim com muitas causas em que os meios de comunicação ficaram do lado do macrismo.

Foto Emergentes

Hoje, reivindicam a abertura de um restaurante comunitário, quando todos sabemos que abrir um restaurante comunitário é reconhecer e afirmar que está em pobreza. Em todas essas coisas, em questões econômicas, sociais, comunitárias, os meios ficam do lado do macrismo. Nesses três anos [de governo Macri], muitos veículos despediram trabalhadores e os próprios funcionários saíram a justificar suas demissões. Muitos que ficaram também saem a justificar a demissão dos seus colegas, companheiros que conheciam há anos, então assim vemos que estão com esse governo todos os meios econômicos, judiciário, de segurança e também de comunicação.

–Mas com o crescimento dos problemas, também cresce uma pressão popular. Qual tu achas que será o resultado dessa pressão diante do contínuo crescimento da pobreza?

–Hoje, na cidade de Buenos Aires, por exemplo, não há um dia em que não haja uma manifestação social, porque se entende que, se não sairmos para a rua, nada vai acontecer. E também porque os meios de comunicação interpretam mal as informações, não informam o porquê de as pessoas estarem as ruas, apenas o caos no trânsito, nunca a causa. Hoje, as pessoas estão se manifestando por uma necessidade. No ano passado, sofremos repressão como há muitos anos não sofríamos na Argentina na luta contra a reforma da Previdência. Aumentaram a idade de aposentadoria e cortaram benefícios sociais, e o povo saiu para as ruas. O povo está protestando a cada segundo. Também protestou quando morreu Santiago Maldonado. E essa semana voltou a sair contra o projeto do governo nacional de voltar a instalar as forças militares na segurança interna, que supostamente vão controlar as fronteiras argentinas para combater o narcotráfico e o terrorismo que pode vir do exterior. Mas entendemos que, na última vez que isso aconteceu [na ditadura militar], todos sabemos as consequências. Por isso o povo vai protestar, não vai porque sim, mas porque nunca mais queremos isso. O povo argentino está resistindo muito para que terminem todos os ajustes, toda as políticas, todos os decretos. Mas também porque tem um valor na sociedade argentina que é o de lutar. Ao longo da história, a Argentina lutou nas ruas, desde a ditadura militar, depois, antes, em todos os anos 90, 2000, nos últimos anos.

Também tentamos tratar de interpelar as demais classes sociais para que não seja uma luta de classes, que só os pobres estão marchando porque não tem trabalho. Tem que ser uma luta conjunta. Quando na Argentina se cantava, em 2001, “Piquete y cacerola ¡la lucha es una sola!” [Piquete e panela, a luta é uma só!], os piquetes faziam convocações para as marchas a todas as classes sociais. Hoje, parte da resistência popular se dá também na classe média, porque ela também está passando mal, não somente os que vivem nos bairros populares. Tem que haver essa hecatombe, esse desajuste, para que o povo se una. Nós, com a Garganta Poderosa, tentamos fazer isso, tentamos interpelar. Não tentamos dizer “essa é a verdade”, dizemos o que está acontecendo e tentamos informar a sociedade para que cada vez mais estejamos do mesmo lado e lutando. O que está acontecendo na Argentina é isso.

Foto Emergentes

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