Por que os Guarani Kaiowá continuam morrendo em Mato Grosso do Sul

20.07.2016 - Mato Grosso do Sul, Brasil - Calle2

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Por que os Guarani Kaiowá continuam morrendo em Mato Grosso do Sul
(Crédito da Imagem: Mídia NINJA)

Por Marcelle Souza para Calle2

Disputa entre ruralistas e indígenas se arrasta em clima de guerra; alta produtividade das terras da região convive com povos em condições de campos de refugiados.

Já era noite quando um grupo de atiradores entrou na última segunda-feira (11) na fazenda ocupada pelos kaiowá em Caarapó, no sul de Mato Grosso do Sul. Aproveitaram a escuridão para chegar com carros e armas no local. Três índios ficaram feridos, dois adolescentes e um adulto, segundo a Funai (Fundação Nacional do Índio). Os três foram atendidos e não correm risco de morte. A ameaça é um sinal claro da tensão que vive a região, que tem disputas de terras entre índios e produtores rurais, e também um lembrete do luto: há um mês um índio foi morto no mesmo local.

Clodiode Aquileu Rodrigues de Souza, 26 anos, enfrentou sem armas, de peito aberto, os inimigos do seu povo. Naquela manhã, um grupo de homens armados chegou na fazenda ocupada pelos kaiowá em caminhonetes e tratores. Queriam tirar à força os índios que tinham entrado dias antes na área privada. Não conseguiram, mas balearam o agente de saúde indígena, que deixou um filho que ainda não tinha completado um ano e a jovem esposa.

“Eu estava em outro lugar, numa reunião de professores a 7 km de distância do lugar onde foi o tiroteio. Recebemos uma ligação e corremos para lá. Quando cheguei, tinha bombeiro, ambulância, era um cenário de guerra, uma mini-guerra, o pessoal tinha sido baleado e a gente não podia entrar”, diz Nelson Avila da Silva, 50, kaiowá estudante de biologia na UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados).

“Eu nunca tinha visto uma situação como aquela, o pessoal estava na fazenda quando eles chegaram com umas 50 caminhonetes, F4000, Hilux, trator agrícola. Tinha um em cima dessa carregadeira atirando, usava uma parte do trator como escudo para vir avançando pra cima de nós”, diz.

Clodiode era filho do vice-cacique da aldeia, tinha sangue de líder e achava que conseguiria parar sem bala o confronto que se arrasta há anos na região. Não conseguiu.
Morreu e engrossou o número de vítimas da disputa entre kaiowás e fazendeiros em Mato Grosso do Sul. O tiroteio começou por volta das 10h daquele 14 de junho e deixou outras cinco pessoas feridas – uma delas tinha 12 anos.

‎Uma história de violências

Em MS existem cerca de 30 mil kaiowá, distribuídos em reservas (regularizadas ou não), acampamentos ao longo de estradas e em fazendas ocupadas. As condições da população variam de acordo com a localização, o tamanho e o status de demarcação da terra em que estão, mas de maneira geral o acesso à saúde, à segurança e à educação são piores entre os indígenas. Nessas comunidades há altos índices de suicídio e homicídio, bem como já foram noticiados casos de desnutrição severa de crianças kaiowá. Há, portanto, um descaso do poder público que se soma aos conflitos por terra na região.

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Categorias: Ámérica do Sul, Assuntos indígenas, Direitos Humanos
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