A Batalha entre valores neoliberais e democráticos

10.09.2015 - Pressenza Budapest

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A Batalha entre valores neoliberais e democráticos

Uma delegação de Humanistas foi recentemente convidada a ir a Grécia, a fim de dar duas apresentações no evento TEDx em Anogeia na ilha de Creta, eles também participaram de reuniões com membros do governo local e nacional gregos. Antonio Carvallo, ex-secretário-geral da Internacional Humanista, estava entre a delegação e numa noite em evento que discutia a situação de crise na Grécia, ele desenvolveu esta análise que estamos muito felizes de ter transcrito e apresentar agora aos nossos leitores.

Nós percebemos que estamos em um momento de enorme mudança no planeta, como se as placas tectônicas estivessem se movendo. Após a Segunda Guerra Mundial, nós vivemos em um mundo que era bipolar. Após a guerra, houve, apenas um poder no oeste: os EUA. A Grã-Bretanha não ganhou a guerra, ela perdeu a guerra. Porque eles perderam o império. Sua fonte de poder era o império, porque ele era a fonte de mão de obra barata. Eles perderam a Índia, as colónias africanas, e os EUA assumiu e em vez de usar forças militares para controlar as nações eles criaram o Banco. Eles criaram as instituições de Bretton Woods: o Banco Mundial, o FMI, e todos os sistemas de controle.

Então, eles forçaram as potências coloniais a dar aparente liberdade política. É claro que eles não acreditam na liberdade política porque eles manipulam as nações de outras maneiras. Na Grã-Bretanha, por exemplo, eles terminaram de pagar seus empréstimos de guerra há apenas 10 anos. Através do Plano Marshall os EUA deu apoio financeiro a Europa, de modo a assumir o controle. A Europa usou o dinheiro para se reconstruir, mas os EUA mantiveram o controle indireto de todas as indústrias-chave.

Eles mantiveram o controle militar da OTAN que estava protegendo o mundo do comunismo. Sempre que queriam ir para a guerra, no Vietnã, por exemplo, e em outros lugares, eles tinham que imprimir dinheiro, mas porque eles controlavam todos os sistemas financeiros do mundo, eles poderiam exportar o custo de guerras para o resto do mundo. O sistema funcionou para eles por mais de 60 anos e eles foram a grande potência hegemônica, mas com a perestroika – as mudanças internas na Rússia onde eles entendiam os processos bem – a cortina de ferro caiu. Eles dissolveram o Partido Comunista e, em seguida, o mundo bipolar que justificou os controles que os Estados Unidos tinham sobre a Europa desapareceu.

Assim, os americanos disseram, “Nós ganhamos a Guerra Fria. Somos o maior poder no mundo, e nós ditamos as condições.” E eles continuaram fortalecendo o sistema financeiro em todos os lugares, mas na realidade, a Europa passou a consolidar ainda mais seu desenvolvimento. A União Europeia foi formada. As instituições europeias passaram a se fortalecerem, o euro começou a se tornar uma moeda comum. Na Europa há meio bilhão de pessoas com um alto padrão de vida com uma cultura muito antiga, com muita educação e a Europa tornou-se mais rica do que os EUA. O PIB da Europa é de cerca de 18 a 20 trilhões de dólares. O PIB dos EUA é de 16,5. Se somarmos a Rússia e a Ucrânia no sistema europeu ele teria em torno de 25 trilhões de dólares. O EUA está perdendo sua superioridade hegemônica. A Europa já não é o vassalo dos EUA. A Europa foi escrava dos americanos por muitos anos e isso está criando enormes problemas para os EUA.

Por outro lado a China está se tornando a maior economia do mundo e está começando a ganhar o controle geopolítico da Ásia e do Pacífico. Então, na verdade os EUA está perdendo o seu poder e está se tornando apenas uma das três grandes regiões do planeta e isso está produzindo enormes problemas económicos para os EUA porque eles não podem exportar os seus problemas econômicos para outras partes do mundo para pagarem por eles.

China tem fabricado todos os produtos vendidos em nossos supermercados no Ocidente e nos EUA. Eles tinham um enorme saldo positivo do comércio por causa dos custos do trabalho barato. Eles não sabiam o que fazer com o dinheiro então compraram títulos do Tesouro dos EUA. Bilhões de dólares a cada ano voltavam para o Tesouro dos EUA.

Quando a recessão começou e a China compreendeu que essa recessão tinha sido criada pelas instituições financeiras dos EUA, o ministro das Finanças chinês disse ao seu colega nos EUA que até ontem queria ser como você, mas a partir de hoje nós estamos olhando no sentido oposto.

Então, realmente, na situação atual eles não estão recebendo de volta todo o investimento da China e o dólar americano está em uma posição difícil. Em termos geopolíticos a América quer enfraquecer a Europa. O principal alvo é a Europa no momento, mas eles não podem dizer isso porque a Europa é sua aliada, por isso há um jogo de padrões duplos. Eles criaram guerras no cinturão ao redor da Europa; Iraque, Síria, Líbia, Ucrânia, a fim de parar a energia livre vinda da Rússia. Isso lhes dá a oportunidade de fortalecer a OTAN e vender mais armas para a Europa, que tem um compromisso de gastar 2% do PIB em defesa. Eles fornecem a defesa; eles têm as melhores armas, os melhores aviões, isso é o que eles dizem. 2% é cerca de 360 bilhões de dólares por ano que a Europa gasta, uma grande parte parte disso vai para os EUA.

Como resultado das guerras ao redor da Europa, vemos o aumento da imigração e do terrorismo e a Europa está em um estado de pânico e desequilíbrio interno. O terrorismo está crescendo. Os grupos financeiros na América que estão conectados aos bancos alemães e britânicos agora querem enfraquecer os estados-nação. Eles não querem que os Estados-nação mais. Eles tem estado por aí por volta de 200 anos e antes que houvessem reinos.

Eles querem se livrar dos Estados-nação, porque isso representa o poder do povo, então eles promovem políticas onde tudo tem de ser privatizado. Todas as fontes de serviços fundamentais: eletricidade, água, educação, saúde, habitação, estradas, tudo tem que ser privado.

No Reino Unido, eles só privatizaram o Royal Mail, que foi um dos melhores serviços postais do mundo. Eles venderam ao mercado por 1,5 bilhão de libras, dois meses depois, o valor das ações no mercado era 3 bilhões de libras, então eles pegaram o dinheiro do povo, deram as corporações para lucrarem. Agora eles querem fazer a mesma coisa com a Grécia. Eles querem destruir o Estado-nação na Grécia tomando todos os seus ativos: portos, aeroportos, escolas, ilhas, de modo que ações sejam emitidas tendo como garantia todos os imóveis, todos os bens do país, e vendidas no mercado internacional .

A Grécia está sendo tratada como uma empresa. Eles estão tomando o poder do povo e dando para os mercados. E esta é uma experiência que eles estão fazendo e é por isso que eles estão tão interessados nela. Uma análise na mídia internacional chinesa diz que, mesmo se a Grécia declarasse default uma terceira vez, a Alemanha teria lucro.

No Reino Unido, o governo também está tentando privatizar o NHS, o serviço de saúde, que é um dos mais eficientes do mundo. Se você tiver de ser operado você não tem que pagar nada e recebe serviço e tratamento excelentes.

Eles convenceram as pessoas de que os mercados criam a riqueza e nós somos apenas pessoas inúteis que se aproveitam dos benefícios que os mercados criam para nós. Isso é uma falácia, uma mentira. Os únicos criadores de riqueza são as pessoas. Eles mudam tudo ideologicamente e nos convencem de coisas que estão erradas.

Tomemos o caso da China, que se tornou independente em 1948 após a Longa Marcha de Mao Zedong que unificou a China, com os nacionalistas indo para Taiwan. Depois de anos de guerra civil, a China ficou absolutamente empobrecida. Eles não tinham capital, auto-estradas ou barragens. Eles precisavam de grandes represas para conter a água dos rios e o mundo ocidental não queria ajudá-los porque a China era comunista e os russos não podia ajudá-los, porque eles não tinham dinheiro, e o povo chinês teve que construir tudo com as próprias mãos. Eles carregavam pedras para construir estradas. 40 ou 50 anos depois, eles são a maior economia do mundo.

No final, quem criou a riqueza? Os mercados? Quem reconstruiu a Europa após a Segunda Guerra Mundial: os mercados ou as pessoas? Quais são os maiores bens na Grécia, na Europa, em todos os países? É o povo. Nós criamos riqueza todos os dias, e eles roubam, eles empobrecem o povo. E no momento nós estamos testemunhando uma luta incansável contra o Estado-nação, é uma batalha entre valores neoliberais e democráticos, mas as pessoas estão muito confusas em todos os lugares, porque a história está se movendo muito rapidamente. É por isso que nós, como humanistas em diferentes partes do mundo, estamos refletindo, estamos estudando e estamos treinando para reforçar os valores da não-violência, a fé em nossa própria evolução como indivíduos, e para pensarmos e refletirmos sobre como queremos que nossas sociedades sejam no futuro.

Não estamos pensando muito sobre o passado, mas como a sociedade vai ser daqui a 50 anos. Como queremos que o mundo seja?

Estamos em um momento de uma grande mudança na sociedade, um grande passo à frente para a civilização, mas há uma série de poderes destrutivos afetando o mundo, porque um poder imperial está caindo aos pedaços e gerando muita violência em diferentes partes do mundo. Há uma chance de uma guerra na Ucrânia e conflitos em outras partes do mundo. É por isso que estamos tão preocupados com a ameaça nuclear e porque queremos alertar sobre isso. Há um grande risco de um acidente nuclear e queremos nos fortalecer como indivíduos e ter uma visão muito clara e um centro de gravidade centrado em nós mesmos porque há muitas mudanças no mundo.

Para isso temos vários instrumentos, porque nós temos o privilégio de compartilhar uma filosofia que Silo, o fundador deste movimento, que antecipou esses processos que mencionamos, nos disponibilizou para compartilharmos. Ela explica que só você pode tomar a responsabilidade sobre a sua vida e se desenvolver. Ninguém pode fazer isso por você. É uma responsabilidade individual que temos de tomar em nossas mãos.

Quando uma pessoa começa a pensar assim, ela muda a sua posição diante do mundo. Você não espera que o governo, outras pessoas ou deus resolvam seus problemas. Você toma para si a responsabilidade e faz o melhor que puder para outros seres humanos ao seu redor e isso pode nos fazer muito fortes para que possamos caminhar adiante no meio deste tumulto.

O processo histórico está se acelerando, o tempo está se acelerando, agora sabemos imediatamente o que está acontecendo na China, em todo o mundo, o nosso tempo mental está em parafuso. Podemos imaginar qualquer lugar do mundo, porque, se quisermos saber onde Anogeia é, por exemplo, vamos no Google Maps e a procuramos e encontramos uma imagem, por isso o nosso conceito de espaço também está mudando. Podemos passar de um país para outro muito rapidamente, é caro, mas podemos fazê-lo.

Assim, alguns conceitos fundamentais de tempo e espaço estão mudando dramaticamente. Recebemos milhares de pedaços de informação todo dia que precisamos processar, por isso precisamos de um forte centro de gravidade e temos de trabalhar muito próximos com outros seres humanos que se sentem da mesma maneira, e, assim, quando fazemos isso não há nada a temer, porque temos muitas coisas que são muito valiosas e com as quais podemos avançar.

Tradução: Cleverson Rubedo

Categorias: América do Norte, Europa, Humanismo e Espiritualidade, Opinião
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