Argentina, Vila Regina: os jovens protagonizam uma mudança não violenta

10.01.2015 - Redacción Argentina

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Argentina, Vila Regina: os jovens protagonizam uma mudança não violenta
(Crédito da Imagem: Pressenza)

Em Vila Regina, cidade de 33 mil habitantes, situada ao sul da Argentina em Rio Negro na Patagônia, há 4 anos teve início um processo para convertê-la numa “Cidade Não Violenta”.

Hoje encontramos ali dois centros de formação permanente para a Não Violência Ativa (a Universidade Nacional de Comahue e a Escola de ensino médio 70), um grupo promotor de 32 voluntários capacitados no método triplo de mudança (a maioria jovens) e o apoio do governador, prefeito, vereadores da cidade, de autoridades do sistema educativo estadual e municipais, assim como dos meios de comunicação e instituições civis.

Integrantes da equipe e outros participantes começaram a aplicar o método em três cidades próximas e estão aplicando a capacitação para a participação e a solidariedade em diversas instituições onde testemunham a superação da própria violência.

Entrevistamos o Licenciado Juan Jose Pescio, um dos integrantes da rede de construtores de Cidades Não Violentas, para que nos comente quais foram os passos para chegar a esses resultados e em que consiste a rede de construtores dos diversos nós.

 

Pressenza: Esse processo de mudança em Vila Regina faz parte de um projeto maior?

Pescio: Sim, Esse processo se estende hoje em dezenas de cidades de vários países da América e Europa. Começou com um grupo de militantes do Humanismo Universalista há 12 anos. É uma atividade que várias centenas de pessoas compartilham e que chega a muitas outras. O procedimento construtivo aplicado nas diferentes cidades que participam dessa rede é similar, ainda que não igual, e tem em comum o uso de um manual de capacitação intitulado “Para uma cultura solidaria e não violenta” que pode ser encontrado no site www.consejosnoviolencia.org

 

Pressenza: Quando começou esse processo construtivo em Vila Regina?

Pescio :Foi em 2011, a partir da capacitação a distancia que se realizou desde a Universidade Tecnológica Nacional de Buenos Aires.

Ao terminar essa capacitação, o Diretor da Escola estadual secundaria 70 de Vila Regina se propôs a concretizar em sua cidade a proposta de construir “Cidades Não Violentas”.

Começou a implantar o projeto em sua escola da qual participam 700 alunos e 137 trabalhadores da Educação.

A escola, desde então, vive importantes avanços no nível de participação de seus integrantes e no contato de cada um com suas aspirações profundas de viver em âmbitos solidários.

 

Pressenza: Quais foram as primeiras ações?

Pescio :O Professor Nestor Zancanelli avançou na democratização da escola que dirige abrindo-a para a participação e o diálogo. Aplicou a capacitação no método triplo de mudança aos alunos e professores que se interessaram pela proposta de formar um Conselho Permanente para a Não violência Ativa, colocando ênfase na superação da violência interna e na relação com os outros durante os primeiros anos do processo.

Paralelamente realizou um convenio com a Universidade Nacional de Comahue que se transformou em um Centro de Formação Permanente, onde os cursos foram ministrados a cada quinze dias durante oito meses consecutivos com encontros intensos de 5 ou 6 horas.

 

Pressenza: Em que consiste essa capacitação?

Pescio :É principalmente prática e tem o marco teórico necessário para dar um novo significado para a violência; suas causas e as formas de supera-la. Por exemplo, se realizam práticas para o autoconhecimento, para a superação da própria violência em reuniões de trabalho interno.

Outro aspecto é a formação de grupos que começam a atuar organizadamente levando essas ideias e experiências a outros na instituição e simultaneamente levando essas mudanças para suas famílias e comunidades.

Isso não se limita à superação da violência cotidiana, mas se amplia o olhar para a compreensão da desigualdade de oportunidades como expressão da violência econômica no plano social, para o autoritarismo nas instituições, os ressentimentos pessoais e para a falta de sentido que leva ao individualismo possessivo dessa cultura globalizada.

Vemos como as causas da violência nesses três planos se potencializam em uma espiral negativa. Esse fenômeno de retroalimentação entre os três planos: individual, institucional e social e também como pode se converter em espiral positiva quando se começa a superar as causas da violência em cada um.

 

Pressenza: A Universidade outorga certificados no final do curso?

Pescio :Sim e um dos requisitos para receber o certificado é que ao terminar o curso de “Capacitador/a em Formação de Conselhos Permanentes para a Não Violência Ativa em instituições e redes” os participantes reproduzam o curso em outras instituições e comecem a construção dos conselhos permanentes nas mesmas.

Capacitam principalmente na aplicação de técnicas para a superação da violência interna e no trato não violento com os outros de seu meio familiar, de trabalho, de estudo, baseados no Curso de distensão do livro “Autoliberação” de Luis Ammann, “Experiências Guiadas” de Silo e outros.

 

Pressenza: Depois de terminar o curso os participantes continuam aplicando-o nas instituições e na comunidade?

Pescio :Sim, os participantes de 2013 continuaram a atividade construtiva iniciada durante o curso. Trabalharam em Vila Regina e outras cidades próximas dentro do estado de Rio Negro (Roca e Allen). Hoje estão começando em Cipolletti.

RIO NEGRO 2

Vários que terminaram o curso são integrantes do grupo motor de Vila Regina que conta com 32 participantes. São jovens que o reproduziram para 2 grupos de 20 pessoas cada, em uma faixa etária entre 15 e 65 anos, compostos por professores e alunos da escola secundaria, alunos da Universidade, profissionais, vizinhos e outros, que por sua vez se aplicaram a aprofundar a “construção do” método triplo de mudança” em diferentes instituições.

Essa equipe do “nó” tem uma relação horizontal com as demais equipes da rede “Cidades não violentas”. Suas decisões são autônomas, já que a rede é uma organização descentralizada que estimula a comunicação entre seus membros.

O trabalho solidário organizado em equipes por um lado e a rede que os vincula em uma unidade de ação e reflexão conjunta por outro é o que permite alcançar transformações em uma escala muito maior em menos tempo, o que não seria possível em ações solidárias individuais.

Esse trabalho horizontal organizado, permite construir o que chamamos “âmbitos humanos solidários e não violentos”. Os integrantes desses âmbitos compartilham um ideal comum definido como “o mundo que queremos” e o mesmo procedimento para tratar de alcança-lo.

Este conceito de “mundo” admite diferentes escalas: pode ir desde o meio imediato Até o nível de cidade, estado, continente ou planeta.

 

Pressenza: Poderia nos comentar alguns indicadores de avanço na instituição onde o processo começou?

Pescio :Poderíamos enumerar os seguintes:

a- A equipe de alunos do quarto e quinto ano da Escola 70 capacita os alunos do primeiro e segundo ano durante as horas que têm disponíveis e adaptaram o curso inicial para essa idade ao formato de jogos.

b- Os alunos mais avançados são convidados por outras escolas para reproduzir o que estão fazendo, ou seja, ao ser uma cidade pequena esses efeitos demonstração circulam no boca a boca.

c- Na escola ha diálogo e a comunicação entre os diferentes níveis melhorou. Os níveis de violência caíram dentro e fora da escola que foi considerada pelas autoridades educativas como modelo a ser multiplicado.

d- Muitos pais agradecem pelas mudanças em seus filhos e se somam à capacitação para “Famílias não violentas” que já estão em marcha desde o ano passado.(Esse programa de trabalho pode ser encontrado no manual” Hacia una cultura solidária y no violenta”)

e- Mais de 20 jovens assistiram ao IV Encontro Internacional Cidades Não Violentas na Universidade Tecnológica Nacional de Buenos Aires e testemunharam sobre a superação da própria violência interna e também sobre os vínculos de colaboração e ajuda que vivem como participantes desse processo.

 

CPNVA RIO NEGRO

Pressenza: E que sinais podem ser observados como indicadores de avanço na construção de uma cidade não violenta?

Pescio:

  • Muitos alunos, já capacitados e com experiência, que concluíram o quinto ano ingressam esse ano em diferentes universidades e se propõem a seguir multiplicando a proposta.
  • Integrantes do grupo motor também atuaram como mediadores em situações de violência extrema na comunidade, protegendo as vítimas, encaminhando-as para as instituições ou organismos correspondentes, acompanhando-as e apoiando durante todo o processo.
  • Através de um programa de radio local, testemunharam suas experiências e capacitaram a distancia, via e mail, aos ouvintes que solicitaram.
  • Dois alunos, integrantes ativos da equipe, foram convidados para o Encontro do Parlamento Juvenil do Mercosul como representantes dos CPNVA, em novembro de 2014, na Argentina.
  • O Ministério da Educação da Nação, através de seu Programa Nacional de Mesas Sócio Educativas, incluiu os CPNVA em 2015 para a formação de 50 alunos do 7mo. grau da escola primaria e jovens da secundaria, para que se capacitem no tema da Não Violência como valor universal.

 

Pressenza: Que aceitação a proposta está encontrando nos organismos oficiais?

Pescio:

  • A câmara dos vereadores de Vila Regina declarou de interesse para a cidade o “método triplo de mudança” pelo quarto ano consecutivo.
  • Uma vereadora propôs na Legislatura de Rio Negro, para que fosse declarada de interesse educativo e comunitário no estado.
  • O Governador de Rio Negro patrocinou a viagem a Buenos Aires de 31 pessoas (a maioria jovens) para o IV Encontro Internacional Anual “Cidades Não Violentas” (uma viagem de mais de 1000 Km).Esses jovens testemunharam sobre as mudanças para a não violência e se comprometeram com a instalação de uma cultura não violenta.
  • O prefeito de Vila Regina liberou os recursos necessários para o alojamento e os transportes dessa delegação.

 

Pressenza: Quais são os próximos passos da rede?

Pescio: A tendência é continuar aprofundando as mudanças internas e externas com a realização de retiros e reuniões de trabalho pessoal, levar a proposta a novos lugares, traduzir o manual a vários idiomas e capacitar novos formadores.

Começamos uma etapa de complementação entre as varias equipes do “nó”. Ha poucos dias se realizou um encontro de avaliação do ano e planificação da nova etapa entre participantes de três “nós” de Moreno, próximo ao Parque de Estudo e Reflexão la Reja.

Com respeito a chegar a novos países e cidades de um modo acelerado, seguiremos com a formação virtual a distância com o curso “Cidades Não Violentas”. Esses cursos são de 15 dias e chegamos em novembro de 2014 a capacitar interessados de 9 países e 6 estados da Argentina.

Ativando esses links se pode encontrar a apresentação desse curso na web do Instituto Educativo no qual é ministrado:

http://www.imwonline.org/curso/ciudades-violentas-una-transformacion-cultural-profunda-individual-institucional-y-social-por-medio-de-la-no-violencia-activa/

 

Pressenza: Como poderíamos visualizar outros sinais evolutivos do processo de Vila Regina?

Pescio: Até aqui pretendemos nessa nota comunicar o nível de desenvolvimento do processo de 4 anos em uma cidade e mostrar paralelamente como cresce e se organiza a rede. Para apreciar por comparação com momentos anteriores as mudanças progressivas em um lugar especifico, contamos com essa entrevista realizada ha dois anos pela TV local com integrantes da Escola 70, instituição onde em 2011 se iniciou a construção de “Vila Regina não violenta”.

 

Veja também o Video: www.youtube.com/watch?v=102ZoU37Cyo

Traduzido por Maroly Penteado a partir do espanhol, revisão de Cristina Obredor.

Categorias: Ámérica do Sul, Educação, Entrevista, Não violência
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