Apresentação de Paulo Genovese no workshop da Pressenza no Global Media Forum

20.07.2014 - Paulo Genovese

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Boa tarde a tod@s

Minha apresentação está focada no Brasil. Especialmente nos protestos ocorridos em junho de 2013. Milhões de pessoas foram às ruas em centenas de cidades. Tudo começou com 20 centavos. Este foi o valor do aumento das passagens do transporte público para os ônibus e Metrô na cidade de São Paulo.

Um pequeno grupo, conhecido como MPL – Movimento Passe Livre, fez uma manifestação, como sempre fazem quando a passagem aumenta nos últimos 8 anos. Normalmente as manifestações do MPL juntam entre 500 a 2 mil pessoas nas ruas, a fim de protestar contra o aumento e reivindicar tarifa zero. Fazem protestos pacíficos. Porém, sempre há um pequeno grupo mais exaltado que quebra vidraças ou queima latas de lixo. Os protestos procuram parar o trânsito em alguma avenida de grande circulação no horário de maior movimento. São reprimidos pela polícia, que no Brasil é uma Polícia Militar.

Só que neste ano de 2013 uma coisa nova aconteceu. A repressão policial foi ainda mais violenta do que sempre é, com o uso intensivo de armas “não letais”, balas de borracha, gás lacrimogênio, etc. A chamada grande Mídia desde o início se posicionou contra os protestos e a favor da repressão. Continuamente exibiam cenas da violenta ação policial e a ação do grupo menor que procurava quebrar uma vitrine ou queimar uma lata de lixo. Jornais escreveram editoriais pedindo o fim das manifestações. Claramente tentavam incutir medo nos telespectadores/leitores enfatizando cenas de violência.
As mídias sociais mostraram o outro lado das manifestações: jovens feridos por balas de borracha, detenções arbitrárias da polícia, ação extremamente violenta da polícia em cima de jovens, adultos e idosos que estavam apenas exercendo seu direito de se manifestar. As manifestações foram acontecendo não apenas uma, mas uma série de vezes, convocadas pelas redes sociais e em solidariedade aos que tinham sido reprimidos nas manifestações anteriores.

A cada manifestação reprimida duramente pela polícia, as pessoas, ao invés de ficarem com medo da repressão policial, decidiram voltar às ruas. O chamado dos manifestações ficou conhecido como #VEMPRARUA. E, as fotos a seguir ilustram o que aconteceu em centenas de cidades em todo o Brasil.

largo da batata são paulo junho 2013 São Paulo, Largo da Batata, Junho/2013. Foto: Midia Ninja

 

SAO PAULO AVENIDA PAULISTA JUNHO 2013 São Paulo, Avenida Paulista, Junho/2013. Foto: Marcelo Camargo/EBC

 

NATAL JUNHO 2013 Natal, Rio Grande do Norte, Junho/2013 Foto: Isaac Ribeiro RIO DE JANEIRO CANDELARIA JUNHO 2013 Rio de Janeiro, Candelária, Junho/2013. Foto: Manoel Tosta BRASILIA CONGRESSO NACIONAL “Casa do Povo”, Congresso Nacional, Brasilía, Junho/2013. Foto Marcelo Camargo/EBC

A reação das pessoas à chamada Grande Mídia

Estas enormes manifestações foram totalmente não-violentas. E as pessoas começaram a perceber o papel que a chamada Grande Mídia estava desempenhando durante as manifestações e também ao longo da história, por exemplo quando apoiaram a longa Ditadura que houve no Brasil nas décadas de 60 a 80. Os primeiros 30 segundos do vídeo abaixo, mostram as “boas vindas à Grande Mídia”

VÍDEO “BOAS VINDAS À GRANDE MÍDIA”
O repórter impedido de trabalhar está telefone talvez dizendo para seu chefe: – O que eu faço agora? Terminou indo embora

Neste outro vídeo, temos a maior rede de televisão do Brasil, uma das maiores do planeta sendo obrigada a esconder seu logotipo!!! Um dos principais símbolos de um meio de comunicação, especialmente uma TV que trabalha com imagens, teve que esconder seo logotipo para poder estar nas manifestações.

VÍDEO “CADÊ O LOGO? (da maior rede de televisão do país!)”
(outro tema a destacar é que todos os entrevistados são brancos, num país em que mais da metade da população se declara negra)

Finalmente neste último vídeo, um exemplo do que os meios grandes tiveram que fazer. Voltar atrás e apoiar as manifestações para não perder mais ainda seu público. O maior jornal do país fez um vídeo emotivo apoiando as manifestações 5 dias depois de escrever um editorial muito duro contra as manifestações, como mostra no final do vídeo.

VÍDEO “MUDANDO DE LADO”(o maior jornal do país é forçado a negar seu próprio editorial!)

E o papel das Novas Mídias ?

Antes de mais nada, vejamos alguns dados da mais recente pesquisa sobre o uso da Internet no Brasil, realizada entre setembro de 2013 e fevereiro de 2014 (http://www.cetic.br/usuarios/tic/2013/analises.htm)
– 85,9 milhoes de usuários de Internet no Brasil
– 143 milhões de usuários de telefones celulares
– 52,9 milhões usam a Internet no celular

Mídia Social X Sites
De todo o tempo utilizado na Internet no celular:
– 30% é utilizado acessando Redes Sociais
– 26% para compartilhar fotos, vídeos ou textos
– 23% acessando sites na Web

As mídias sociais são muitíssimo populares no Brasil. Somos uma cultura que gosta de se mover em grupos, gosta de se comunicar. As mídias sociais foram extensamente utilizadas para difundir as fotos e vídeos das manifestações que a grande mídia não mostrava. Denunciou amplamente a violenta repressão policial. Compartilhou testemunhos de quem esteve na manifestação. Divulgou todas as manifestações, muitas delas surgiram por iniciativas de pessoas comuns.

Foram criados muitos grupos, chamados “coletivos”. Pessoas se agrupando para registrar os acontecimentos e postar e compartilhar. Muitos grupos no Facebook, hashtags no Twitter, blogs, páginas foram criados para se manifestar. Até o uso do apelido (nickname) foi utilizado como forma de protesto. No mesmo ano, por exemplo, uma aldeia de índios chamados Guarani Kayowáa divulgou uma carta em que declararam que cometeriam suicídio coletivo se fossem removidos de suas terras. A carta causou grande comoção e as pessoas usaram seu nome, por exemplo, um amigo chamado Wagner Oliveira mudou seu apelido para Wagner Guarani Kaiowáa Oliveira.

Não houve apenas uma forma de manifestação, nem um único tema, diversas formas, diversos temas, muito além do transporte, exigindo direitos humanos para todos.

Finalmente os governantes tiveram que voltar atrás naquele aumento de 20 centavos nos transportes.

Diante de tudo isso, cabe perguntar: O que a Nova Mídia apoia? O que a chamada Grande Mídia tenta desesperadamente ocultar?  Será que existe algo novo no interior das pessoas que tenta se expressar em todo o mundo?

Em nossa opinião há uma Nova Sensibilidade Humana, que se expressa especialmente nos jovens com essas características:

Compaixão: solidariedade com a luta dos outros, por exemplo, os índios Guarani Kayowáa, os pobres que sumiram nas mãos da polícias, os “Amarildos”, etc.
Insatisfação/Tensão: Diante da situação atual, mesmo com as recentes conquistas sociais se percebe que estamos muito longe dos direitos básicos
Rejeitar o estabelecido: não se sentir representado pelos políticos, pela mídia. “Não me representam”
Horizontalidade: protestos e manifestações sem uma liderança, não querer ou necessitar de liderança
Multi-centro: manifestações diversas, grupos diversos nas redes sociais, diversas hashtags no twitter, diversos coletivos, etc.
Diversidade: na temática dos protestos, nas formas de protesto (exemplo vigília dos professores, as ocupações estelita)
Não Violência Ativa: atuar pela denúncia, pela pressão da presença na rua, usar o humor para criticar, ocupar os espaços (occupy, camping, etc.)
Fazer a mídia, Ser a mídia: procurar vários meios de informação além da mídia tradicional (e seus portais), usar seu próprio nome (nickname) para protestar, fazer seu álbum, juntar-se com companheiros e criar coletivos, procurar financiamento de forma horizontal, criar sua página, seu grupo, seu blog.

Sim, há uma nova sensibilidade que atua levando em conta a situação humana real!

Bem como afirmou Silo, nosso Guia, mentor da Agência Pressenza e fundador do Movimento Humanista no qual participamos, a nova sensibilidade está querendo construir algo novo, uma Nação Humana Universal onde o ser humano seja o valor central.

Obrigado a tod@s
Paulo Genovese, 30/06/2014

Categorias: Ámérica do Sul, Cultura e Mídia, Diversidade, Humanismo e Espiritualidade, Internacional, Não violência, Opinião, Política
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