CRÔNICA
Por Guilherme Maia
Todos temos uma relação pessoal e íntima com nossa cidade. Há aqueles que filtram o Rio de Janeiro como um filme de Faroeste do tipo Tarantino ou Sergio Leone e, por outro lado, há os que sentem um véu de nostalgia pelo tempo em que não viveram.
Eu me inscrevo na segunda categoria: quando ando pela Rio Branco, Arpoador e Vila Isabel, vejo Noel Rosa anotando versos e solfejando-os sobre sua pauta musical abstrata; Vinícius de Moraes e Antônio Maria sobrevivendo a mais uma das eternas noitadas pelas boates e desaguando na praia. Sigo cercado por vultos da intelectualidade de uma cidade iluminada e cosmopolita pelas ruas do Centro.
Não consigo associar o “meu” Rio a figuras espúrias como governadores presos e parlamentares egressos de milícias e tráfico de drogas. À minha frente está a estreia de Vestido de Noiva, no Municipal; encontros de sambistas estelares saindo do Café Nice. Viro para a praça Tiradentes: ali está o teatro de revista e gafieiras.
Se, cansado de tanto resfolegar no estrume da corrupção, o governador da vez renuncia ao tempo em que presidentes da Assembleia Legislativa estão presos, eu, de minha parte, viro o rosto para registrar um epítome da cultura popular: Luiz Gonzaga trazendo a vivência do Norte sobre a laje do Cinema Pax, na rua da Carioca. Mais à frente, caminhando ensimesmado passa Carlos Drummond – dá vontade de tomar um café com ele.
Acontece que – Zuenir Ventura explica bem no livro Cidade Partida – vêm dos Anos Dourados tanto a Bossa Nova quanto o esquadrão da morte: João Gilberto e o general Amauri Kruel. Cada um que opte pela vertente a dominar pelos anos afora.
Nada disso, amizade! As pedras portuguesas persistem do mesmo jeito que se ergue soberana a estátua de Cartola em frente à Estação primeira de Mangueira.
Está certo que passaram duas figuras trajando bermuda a meio-pau com pistolas e fuzis (provavelmente fornecidos pelo salvelindo Exército brasileiro); no entanto, estou envolto e protegido pelas linhas melódicas de Alvorada e Esquece: a estética verde e rosa prevalece!
Ergo meus olhos para o céu solar da minha cidade: vislumbro pontes entre embriões da decadência com o desaguar no esgoto institucional da atualidade. Não é difícil sintetizar as escolhas políticas erradas da classe média fluminense: Juscelino Kubitschek, presidente democrata e liberal-progressista, era tido como um “ladrão” amoral que mantinha apartamento para a amante no parque Guinle; Vinícius de Moraes e Tom Jobim não tomavam banho, por isso, eram desregrados e devassos.
Por aí vai… Se pararmos para pensar que havia um castelo sofisticadíssimo no início da Cinelândia, palácio Monroe (projeto ganhador de concurso nos USA e antiga sede do Senado no Rio), o qual foi demolido irresponsavelmente e vocês sabem por quê? Porque o ditador de plantão da época, o Sr. Ernesto Geisel, tinha desafeto com o filho do engenheiro que o projetou, Francisco Marcelino de Souza.
Não foi por causa da obra do Metrô.
E por aí vai… Dom Hélder Câmara, muito malvisto pela desavisada classe média pelo motivo de apenas querer manter os trabalhadores na Praia do Pinto próximos ao foco de seus empregadores (empregadas domésticas, pedreiros e afins). O sacerdote se pôs contra a transferência dos trabalhadores para a Vila Kennedy e criou o enclave da Cruzada São Sebastião, lá no Leblon até hoje.
Atualmente, o que há na Vila Kennedy que fora prometido à época? Nada! Carência e falta de saneamento.
Foram escolhas erradas, sempre erradas: Moreira Franco foi uma, Claudio Castro foi outra dentre tantas incontáveis.
Retomando Dom Hélder, trazendo-o conjugado com o vulto de Tristão de Athayde, faz pensar em como a espiritualidade fluminense optou por uma moral mundana de classe média (esta, cada vez mais pauperizada), escolha tão diferente da apresentada por aqueles homens de fé profunda.
Por isso a ética perde seus fieis para conglomerados econômicos que estão cada vez mais destilando o ódio da intolerância; imiscuindo-se à organização criminosa (não dá para escamotear o magnânimo André Valadão) e, pior, a falta absoluta de cultura de pertencimento à própria identidade regional.
Com aperto no peito e a vista turva inicio meu ritual do adeus, diviso os Arcos da Lapa, até lá, meu Deus!, até lá: rememoro a aleivosia baixa excretada por um secretário de transportes que, com o fito de privatizar a linha de bonde a qual segue para Santa Teresa, pôs a culpa do descarrilamento no motorneiro (que morreu no ato).
Parto reverso: a cerimônia do meu adeus à cidade-berço.
Como o Tom Jobim dizia “não moro no Rio, eu namoro o Rio”.
Mas, agora, emoldurando a minha decisão de sair sem olhar para trás, eu, amante desiludido, sinto nas minhas veias as palavras de Dolores Duran “tenho pensado que nosso caso está na hora de acabar”.
Adeus Rio de Janeiro. Que a Divindade ressuscite seu viço algum dia no futuro.







