CRÔNICA

 

 

Por Marco Dacosta

 

 

O inverno no hemisfério norte vai desaparecendo lentamente até o fim de março. Naquele ano parecia que a natureza não queria cumprir seu rito. As flores insistiam para brotar, mas o vento frio insistia em cortar nossa pele. Assim, na Semana Santa, decidimos partir para ainda mais ao norte, em busca do sol, que brincava de se esconder mais cedo.

Há um estrada que nasce no sul da Flórida e vai até quase o Canadá – na verdade duas – a federal highway, que corta dezesseis estados passando por dentro das cidades e suas áreas urbanas, próxima ao litoral, com vistas espetaculares e outra, a I-95 – que é expressa e vai por fora dessas regiões, com paisagens monótonas, porém mais estrutura ao viajante, como áreas de descanso, zonas com hotéis e postos de gasolina, etc.   A maioria das “road trips”, acontecem sem pressa em chegar ao destino e focadas na aventura de viajar, escolhem a mais longa e a que fica próxima das experiências gastronômicas e humanas.  Essa não é uma história recheada de lugares exóticos, pelo contrário, como na vida, por imaturidade, escolhemos as vezes o caminho mais curto, os que não possuem variedade de escolha.  Deixamos uma variedade de doces para desfilar entre caramelos e chocolates. 

Durante os primeiros anos nos Estados Unidos tentei sobreviver aos profundos e longos invernos do norte do país, migrando para o sul, por temporadas. O movimento, bem conhecido da classe média e aposentados, apelidados de “snow birds” – ou pássaros da neve, que fogem do frio, foi uma constante em minha vida, mas não por opção mas por necessidade psicológica.  O frio intenso e meses de neve me impedem de caminhar e interagir com o mundo e sozinho essa experiência é profundamente triste. 

Quando me foi oferecido um trabalho na Flórida, na Costa do Golfo do México, aceitei imediatamente. O ano era 2004 e Nova Iorque ainda se recuperava dos atentados do 11 de setembro, que eu inclusive havia presenciado. Fiquei lá no sul por algum tempo, tentando me convencer que não estaria preparado para viver no frio, que meu corpo criado nos trópicos e nas noites abafadas do Rio de Janeiro, não sobreviveriam a meses de neve e escuridão. Ainda não entendia que  as ruas de Nova Iorque me energizam. Que não vale a pena viver em uma casa maior e barata, mas isolado das coisas e pessoas que impactam minha criatividade e meus afetos. 

Minha relação com a cidade sempre foi interrompida por alguma ideia, projeto ou cansaço. Acometido do “winter blues” – a tristeza que vem do longo inverno – tentei buscar na Flórida a vida que havia projetado para mim.  Erro e acerto.  De novo, trocando prateleiras de doces coloridos e variados por alternar chocolate e caramelo.

Decidimos sair à noite para evitar o sol forte e o congestionamento. Uso o plural porque embora tenha feito dezenas de viagens e aventuras sozinho, tive ao meu lado meu amigo de infância, Itamar.  Ele veio do Brasil para tentar ficar aqui por algum tempo e uma longa viagem até Nova Iorque seria uma grande experiência para conhecer melhor o país.  

Sair a noite não foi uma decisão inteligente – o sono chega rápido e a estrada vazia e escura não é segura. O carro saiu pesado com malas, televisão e tudo que consegui colocar no porta malas e nos bancos traseiros.  Em um tempo que o GPS não era popular, nosso trajeto foi cuidadosamente desenhado por uma mapa da AAA (American Automobile Association).  Eles traçaram cada milha em detalhes, lugares para parar, trechos em obras etc.  Era uma mapa em capítulos, com folhas que íamos dobrando como um bloco de notas. Dezenas de páginas coloridas, reforçadas por uma caneta marca texto que um funcionário da organização tinha a gentileza de fazer para nós, em uma aula de geografia.  A mensalidade de nove dólares valia só por essas poucas vezes que precisei de ajuda nos mapas.  O serviço seria interrompido anos depois com o advento do Google Maps e tantos aplicativos, mas nada substitui o cafezinho e a água gelada, o olhar atencioso e o aperto de mãos que os funcionários da “triple A” nos concediam na visita. 

Caramelos e chocolates.  Seguimos fazendo escolhas monótonas, mas que nos dariam rapidez e que facilitassem nossa chegada a Nova Iorque para o início de uma nova temporada na vida. Na época, não tínhamos ideia que a melhor memória seria a viagem e não o destino.  Na vida, aprendi. Temos que fazer escolhas que nos encham mais de prazer e experiência. E que tudo possa ser registrado, como faço agora,  para que vinte anos depois, como agora, as imagens possam brotar da mente com mais facilidade. 

Itamar é uma pessoa extremamente divertida. É um prazer imenso tê-lo em minha vida, uma amizade que me encha de alegria, fiel e amigo nos momentos mais complicados.  É daquelas pessoas que podem estar anos fora de nossas vidas e de repente nos momentos cruciais sentir que tocam nosso ombro, que nos afagam diante das tragédias.  Desde os 15 anos de idade atravesso sua vida com ideias fantásticas, aventuras e dele tenho sempre um sorriso, pronto a me acompanhar em minha loucuras.  Foi assim naqueles dias quando decidi nos salvar saindo do cansaço da Flórida, que havia se esgotado como experiência, para buscar uma nova vida em Nova Iorque.  A estátua da liberdade já cansou de me ver saindo e voltando e com toda sua gentileza parece dar uma piscada a cada regresso, como se entendesse minha necessidade de voltar.   Assim como minha mãe, sempre disposta a respirar fundo e entender que eu precisava ir embora, que eu com certeza voltaria para seus braços. 

E foram vários caminhos, saímos da Flórida naquela madrugada e prometemos que iríamos registrar tudo em fotos e vídeos, para que um dia pudéssemos contar com imagens das paisagens delirantes que compartilhamos.  Eu no volante,  Itamar trocando fitas cassetes e cantando, dois dias de paisagens cansativas e repetitivas, barulho estridente de caminhões enormes passando ao lado, luzes intermitentes, cidades ao longe.

Depois de 24 horas de estrada e centenas de registros fotográficos e imagens, em uma parada, trocamos a fita da Câmera VHS e a  deixamos no teto do carro.  Meu pé no acelerador deve ter jogado o cartucho para longe e todos nossos registros desapareceram. Chegamos exaustos, acabei errando a saída da rodovia.   Se alguém achou nosso VHS pode ser que ainda em algum lugar existam longas horas de pôr do sol, sorrisos e nossos rostos ainda jovens e cheios de esperança.  E aprendi que nem sempre o menor trajeto é o melhor, que é necessário ter o caminho sempre cheio de alternativas a uma estrada longa e com saídas programadas por outros. 

Desde então  viajo sempre pelos caminhos mais longos e cheios de vida, onde eu decido onde devo parar, sair e recomeçar.