CINEMA

Por Alessandra Costa

O Centro AfroCarioca de Cinema realiza mais uma edição do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul, desta vez comemorando os 18 anos de  travessia histórica, política e espiritual, que conecta territórios separados pela geografia, mas unidos pela memória e pelo destino comum dos povos africanos e de suas diásporas.

Entre os dias 09 e 17 de abril, espaços consagrados do cinema carioca receberão a exibição de obras e mesas de conversas com importantes nomes da intelectualidade negra brasileira, debatendo cinema, literatura, pensamento negro e saúde mental. 

Desde sua criação, o Encontro foi pensado por Zózimo Bulbul a partir de um princípio fundamental: o pan-africanismo. Mais do que um conceito político, o pan-africanismo é um horizonte de união e solidariedade entre africanos do continente e seus descendentes espalhados pelo mundo que ajudam a estruturar esse pensamento que defende a autodeterminação e a emancipação dos povos negros. 

A ideia é poderosa: África para os africanos, e liberdade para todos os seus descendentes. Ao criar o Encontro de Cinema Negro, Zózimo Bulbul não pensou em um festival competitivo, mas em um espaço de convergência. Um encontro, no sentido mais radical da palavra: um território de reunião, troca e reconhecimento entre realizadores negros do Brasil, da África, do Caribe e de outras diásporas. Seu gesto era profundamente pan-africanista.

“Dezoito anos de olhares entrelaçados, de imagens projetadas, de vozes que se afirmam e de memórias reavivadas. Dezoito anos de descobertas, resistência e sonhos partilhados. Hoje, o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul entra em uma nova dimensão. Mais do que uma comemoração, esta edição representa uma travessia — através do tempo, dos territórios e dos imaginários., analisa Laza Razanajatovo, diretor de curadoria do Encontro.

O vínculo com o pan-africanismo também se manifesta na própria estética do festival. As cores que orientam a identidade visual deste ano dialogam diretamente com uma das mais poderosas referências simbólicas do pensamento pan-africano: a bandeira da Etiópia, único território africano a resistir com sucesso ao avanço colonial europeu.

Suas cores — verde, amarelo e vermelho — tornaram-se, ao longo do século XX, as chamadas cores pan-africanas. Criando uma verdadeira linhagem visual de nações que compartilhavam o sonho de autodeterminação. Essas cores também atravessaram o Atlântico e se tornaram parte da cultura da diáspora. Reafirmaram a centralidade simbólica da Etiópia como território espiritual e político da identidade africana. 

“Trabalhar na 18ª edição tem sido sinônimo de maturidade, crescimento e mudanças, o que nem sempre é fácil, mas nos ensina muito. São dezoito anos de um compromisso inabalável com a cultura brasileira, com a memória e com a continuidade do cinema negro. A cada ano que passa, me sinto mais e mais entranhado com o legado de Zózimo Bulbul e o trabalho do Centro AfroCarioca de Cinema. Hoje, sinto que não apenas faço parte deste projeto, ele faz parte de mim. É uma simbiose onde a celebração e o esforço caminham juntos”, reflete Vitor José, diretor de Gestão do Encontro.

Ao trazer essas cores para o centro da identidade visual desta edição, o Encontro reafirma sua filiação a essa história mais ampla de luta, memória e imaginação coletiva. 

“Mais do que uma mostra de filmes, o Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul permanece como um território de aquilombamento intelectual, artístico e político. Um lugar onde imagens circulam como sementes de pensamento, onde diásporas se reconhecem e onde novas alianças se constroem”, afirma Biza Vianna, diretora presidente do Centro AfroCarioca de Cinema e Direção-Geral do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul.

“Dezoito anos não são apenas uma celebração de passado. São um sinal de continuidade. Um convite para seguir ampliando esse círculo iniciado por Zózimo Bulbul, um círculo que, como ele próprio dizia, não se fecha. Apenas cresce”, acrescenta Biza. 

Além das cores, o Encontro deste ano também traz três palavras norteadoras para este percurso: movimento, espaço e ressonância, uma vez que as histórias diaspóricas se movem, como os corpos, e elas viajam, se transformam, se misturam e renascem.

“Porque nossas imagens ocupam e reinventam espaços, íntimos, urbanos, políticos. E porque cada filme, cada olhar e cada silêncio trazem consigo uma vibração que ecoa através das fronteiras, das gerações e das lutas”, analisa Laza. 

Desde sua criação, o Encontro se consolidou como um dos mais importantes territórios de circulação, formação e pensamento do cinema negro no Brasil e nas diásporas africanas. Chegar aos dezoito anos é reconhecer a maturidade de um projeto que nasceu como gesto de resistência e hoje se afirma como um espaço fundamental de criação de imaginários e articulação internacional.

O Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul se destaca por exibir o Brasil em toda a sua diversidade, com narrativas e olhares distintos. A cada edição, o evento ganha mais prestígio, o que incentiva todos os participantes a se esforçarem para apresentar produções cada vez mais elaboradas, tanto esteticamente quanto narrativamente e conceitualmente, buscando um cinema negro à altura dos tempos atuais.

Danny Barbosa, Juh Almeida, Leandro Santanna, Leila Xavier e Milena Manfredini assinam a curadoria nacional. Já a internacional fica sob a responsabilidade de Laza, diretor de curadoria, Vânia Lima e Macario 

Homenagens

A edição de 18 anos do Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul também traz homenagens a escritores e cineastas que marcaram seus nomes no cinema e na literatura nacional. Dentre as personalidades está Ana Maria Gonçalves, que em “Um defeito de cor”, nos devolve uma linhagem. Ali, cada palavra carrega travessia, cada página respira ancestralidade. 

Além dela, Viviane Ferreira também será uma das homenageadas. Ativista do movimento negro, dirtora, roteirista, produtora, advogada e cineasta, Viviane também é fundadora da IAMO, Odun Filmes, empresa produtora voltada para o audiovisual identitário. É uma das fundadoras da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN).

O Encontro também receberá a presença de Cheick Oumar Sissoko, uma das figuras mais icônicas e respeitadas do cinema africano contemporâneo. Cineasta maliano, Sissoko é internacionalmente reconhecido por sua habilidade única de mesclar a narrativa visual com as questões políticas, sociais e culturais que marcam profundamente o continente africano. Sua obra não apenas reflete a rica tradição oral e as complexidades históricas de seu país e de toda a África, mas também denuncia as injustiças e celebra a resiliência dos povos africanos.

Além da presença do cineasta maliano, Cheick Oumar Sissoko, o evento também estabelece conexões com outros países africanos como Madagascar, Ruanda, Chad, Congo e África do Sul, por meio de organizações como o Madagascar Court, um dos festivais de curtas-metragens mais importantes do continente africano e o único festival de cinema em Madagascar. A iniciativa foi fundada pelo diretor, roteirista e presidente da APASER, Laza Razanajatovo, que também assina a curadoria do Encontro de Cinema Zózimo Bulbul. Neste ano, recebemos pela primeira vez o Tresor Senga, presidente do Mashariki African Film Festival em Ruanda.

Essa articulação com importantes agentes e festivais do continente africano se amplia ao dialogar com eventos de grande relevância internacional, como o Festival Pan-Africano de Cinema e Televisão de Uagadugu (FESPACO), considerado o maior e mais prestigiado festival de cinema da África. Realizado bienalmente em Burkina Faso desde 1969, o FESPACO é dedicado à valorização de produções africanas e da diáspora, promovendo o cinema como ferramenta de resistência e desenvolvimento cultural.

Assim como a Federação Pan-Africana de Cineastas (FEPACI) uma organização continental dedicada ao desenvolvimento e à promoção do cinema africano. Desde a sua criação, tem trabalhado para apoiar cineastas africanos, defender os seus interesses e fomentar a produção e distribuição de filmes do continente. Através de diversas iniciativas, a FEPACI incentiva a colaboração entre profissionais da indústria, apoia a formação e promove políticas cinematográficas em África.

Rodas de conversa

A Mesa “Passagens e Mergulhos” reúne importantes nomes da intelectualidade negra brasileira como Ana Maria Gonçalves, Helena Theodoro e Pai Dário, sob a mediação de Janaína Refém. Já a Mesa sobre saúde mental e população negra debate o cuidado subjetividade e saúde mental nas comunidades negras com Lucas Veiga, Aline Gomes e Lúcia Xavier, mediada por Roberto Borges. 

Mesa Cinema Oferenda é uma conversa com a pesquisadora e curadora Janaína Oliveira e o debate aborda o conceito de cinema como gesto de memória, espiritualidade e reparação histórica.

Descentralização

Com programação distribuída entre centros culturais, teatros históricos, museus e territórios periféricos, o Encontro reafirma sua proposta original de levar o cinema negro para diferentes espaços da cidade e promover o diálogo entre arte, pensamento e comunidade.

Este ano, o Encontro realiza atividades na Penha, Complexo de Favelas da Maré e Complexo do Alemão, todos na zona Norte do Rio, além dos espaços já consagrados, como o Cinema Odeon, Teatro Municipal Carlos Gomes, Casa Brasil, Museu de Arte do Rio (MAR), na região Central do Rio de Janeiro. 

Ficha Técnica

Criação: Zózimo Bulbul (in memoriam)

Direção Geral: Biza Vianna

Gestão de projetos e Coordenação Geral: Biza Vianna e Vitor José

Coordenação Institucional: Leandro Santanna

Relações Internacionais: Vania Lima

Coordenação de Ações Descentralizadas: Pamela Carvalho

Conselho Consultivo do Centro Afrocarioca de Cinema:

Sinara Rubia; Dani Balbi; Roberto Borges; Rui Moreira; Helena Theodoro; Leandro Santanna; Joel Zito Araujo

Direção de Curadoria: Laza Razanajatovo

Coordenação de Curadoria: Macario

Curadoria Nacional: Antonio Molina; Danny Barbosa; Juh Almeida; Leandro Santanna; Leila Xavier; Milena Manfredini; e Vânia Lima

Produção de curadoria: Gleyser Ferreira

Direção de Produção: Damiana Inês

Assistente de Produção de Base: Juninho

Direção de Programação: Macario 

Desenho de Programação: Biza Vianna: Vitor José; Gleyser Ferreira

Assessoria de Imprensa: Alessandra Costa

Relações Públicas (RP): Naira Fernandes

Promotores: Pamela Carvalho; Dermerson D’Álvaro

Concepção e Identidade Visual: Raphael Cruz

Design Gráfico e vinheta: Giulia Santos

Trilha Sonora: Zubikilla Spencer

Coordenação artística: Leandro Santanna

Roteiro: Dani Ornelas; Macário; Pamela Carvalho

Criação/Desenho de luz: Valmyr Ferreira

Edição de imagem/Trailers: Raquel Beatriz

Fotógrafos: Paulo Liv; Tiago Liel; Ierê Ferreira; Alexandre Rosa

Direção de Imagem e Câmera: Luis Gomes

Edição: Matheus Teixeira

Direção Administrativa: Adriana Nunes

Serviços – Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul

9 a 14 de abril – Cine ODEON – Praça Floriano, 7 – Centro, Rio de Janeiro

14 de abril – Mesa “Passagens e Mergulhos”

Encontro que reúne importantes nomes da intelectualidade negra brasileira: Ana Maria Gonçalves; Helena Theodoro e Pai Dário. Mediação de Janaína Refém

15 de abril – Mesa sobre saúde mental e população negra

Debate sobre cuidado, subjetividade e saúde mental nas comunidades negras com: Lucas Veiga ;Aline Gomes e Lúcia Xavier. Mediação de Roberto Borges.

Sessões especiais – Horror no cinema negro

Nos dois dias, o MAR apresenta sessões dedicadas ao cinema de horror e terror no cinema negro, um gênero em crescimento internacional que tem explorado narrativas afro-diaspóricas através do fantástico e do suspense.

Museu de Arte do Rio (MAR)  – Praça Mauá, 5 – Saúde, Rio de Janeiro

Teatro Municipal Carlos Gomes – Prç. Tiradentes, s/n° – Centro, Rio de Janeiro

A abertura das sessões com as participações de Viviane Ferreira, com o filme AfroLatinas; Pioneiras do Macacão Azul, obra que resgata trajetórias de mulheres negras pioneiras na saúde mental. Outras exibições incluem filmes de realizadores como Flávia Vieira; Luiz Guilherme Assis; Ana Lu

Noite dedicada a cineastas cariocas: Sessão especial com obras de realizadores do Rio de Janeiro, incluindo Milena Manfredini; Marcell Carrasco; Dom Filó; Clementino Júnior e Macário.

16 de abril: Casa Brasil – R. Visconde de Itaborai, 78. Centro, Rio de Janeiro

Mesa – Cinema Oferenda – Conversa com a pesquisadora e curadora: Janaína Oliveira

Sessão de Cinema Indígena, às 15 horas

Exibição dedicada às narrativas audiovisuais dos povos originários, ampliando o diálogo entre cinema negro e cinema indígena.

Homenagem à cineasta Joyce Prado, às 17 horas

Sessão especial dedicada à obra da diretora Joyce Prado. A homenagem contará com pocket show musical de Jonathan Ferr.

17 de abril: Cinema nas comunidades

Sessões de cinema LGBTQIAPN+ com ativação cultural com o coletivo Noite das Estrelas – Mediação de Pamela Carvalho. 

Galpão Bela Maré – Rua Bitencourt Sampaio – Maré, Rio de Janeiro 

Sessão especial dedicada ao cinema africano com debate conduzido pelos curadores Laza e Vânia Lima

Cine Carioca Penha – Av. Brás de Pina, 150 – Loja 121 – Penha, Rio de Janeiro

Atividades culturais e sessões de cinema com mediação de Pamela Carvalho e René, ampliando o diálogo entre o festival e os territórios periféricos da cidade.

Cine Carioca Nova Brasília (Alemão) – Praça Nossa Senhora de Fátima – R. Nova Brasília, S/N – Bonsucesso, Rio de Janeiro