Na última semana, um evento foi realizado, em São Paulo, onde se apresentou a indicação do nome de Geraldo Alckmin para compor como vice de Lula na chapa para disputar as próximas eleições presidenciais no Brasil. Conforme o ex-presidente petista, daquele momento em diante, ele chamaria o ex-governador de “companheiro Alckmin” e vice-versa. A grande discussão em torno desse evento não se deu por conta da aliança propriamente dita, mas da foto divulgada, na qual os dois aparecem com 15 homens, 2 mulheres e nenhuma pessoa negra.

As redes sociais, algumas mídias independentes e parte da militância petista não pararam de criticar a foto onde aparecem Lula e Alckmin, juntos, posando com mais 17 pessoas, das quais 15 são do sexo masculino e nenhuma delas é negra. Até o jornal hegemônico Folha de São Paulo entrou no debate, através de um artigo do arquiteto Antonio Isuperio, que é ativista LGBTQIA+ e antirracista.

Ações concretas

As reclamações giraram em torno da falta de diversidade, na foto. E fico me perguntando que diferença faria a presença de pessoas pretas naquele ato (e naquela foto), se, no fundo, a aliança entre Lula e Alckmin é o retrato da política hegemônica brasileira, cuja preocupação essencial é a “fórmula ganhadora das eleições” e não em um projeto capaz de fazer frente aos grandes desafios que se apresentam na realidade do país, e que afetam, majoritariamente, as pessoas e grupos mais vulnerabilizados, entre eles as pessoas pretas.

A representação simbólica tem seu valor em muitas situações. Mas não nesse caso. Em uma sociedade racista, patriarcal, lgbtfóbica como a brasileira, se faz necessário reivindicar que os grupos vulnerabilizados estejam representados em todas as instâncias. Mas, imprescindível é compreender o que está por trás dessas vulnerabilizações e empreender uma luta cotidiana não somente para identificar todos os tipos de injustiças que fazem parte da realidade desses sujeitos e grupos, ademais de implementar ações concretas, com vistas a construir uma sociedade na qual essas injustiças desapareçam. E é neste sentido que a política, quando exercida seriamente, desempenha papel fundamental.

Sendo assim, o questionamento em relação à aliança Lula/Alckmin não deveria se reduzir à foto de apresentação, mas ao seu singnificado em si, pois atende a interesses de setores que vulnerabilizam constantemente negras/negros, indígenas, população LGBTQIA+, com políticas de precarização de suas condições de vida, como as reformmas da Previdência e Trabalhista, o sucateamento dos serviços públicos de saúde, de educação, os baixo salários, entre outros.

É importante evidenciar, para além da foto, que Geraldo Alckmin, assim como hoje diz que Lula é “esperança do Brasil”, recentemente o chamou de “mentiroso”, associado-o à corrupção, ao tempo em que o ex-presidente, em um passado também não muito distante, aconselhava a impresa hegemônica a perguntar ao então governador de São Paulo acerca dos desvios de verbas nas obras do metrô e da merendar escolar, assim como sobre “os números maquiados de homicídios” daquele estado.

Combate às desigualdades históricas

Se a foto que anuncia a aliança entre Lula/Alckmin não tem negras e negros é o que menos importa. Importante, o entanto, é que, visando chegar ao Palácio do Planalto, esses dois políticos não se envergonham de passar por cima de acusações mútuas gravíssimas, o que demonstra o grau de descompromisso, de ambos, com a ética, característica que os desqualifica para assumir um cargo público, ainda mais aquele que direciona os destinos do País.

Mais do que se preocupar com a ausência de negras e negros, na foto, todas essas pessoas deveriam se questionar, por exemplo, sobre a real possibilidade de dois homens como Lula e Alckmin, que passam por cima de suas próprias palavras, se comprometerem com a melhoria da qualidade de vida da população brasileira, através da adoção de políticas capazes de diminuir os índices de pobreza, de desemprego, de degradação socioambiental, de desigualdade entre ricos e pobres e de outras injustiças sociais como o encarceramento em massa da população negra, por exemplo.

E por falar em política carcerária brasileira, o encarceramento de pessoas aumentou, substancialmente, nos 10 anos que vão entre 2006 a 2016. Conforme dados oficiais, a população carcerária quase que dobrou, passando de 401,2 mil para 726,7 mil. Portanto, excetuando-se o período que vai de 1 de setembro a 31 de dezembro de 2016, quando o governo federal estava a cargo de Michel Temer, após o impeachment da petista, esse incremento é obra dos governos petistas. E quando pensamos em população carcerária, não devemos nos esquecer que a maioria é formada por negros e negras, o que significa afirmar, mais uma vez, que o fato de naquela foto não haver pessoas negras, não é a questão mais grave nessa aliança.

Embora respeite, e até reivindique a necessidade de que haja diversidade nas representações, o que mais me preocupa é a representatividade. Ou seja, a adoção de políticas sérias com vistas a corrigir as desigualdades históricas existentes entre sujeitos/ grupos vulnerabilizados, entre os quais está a população negra, e os sujeitos/grupos hegemônicos. E essas desigualdades não podem ser resolvidas com uma foto.