Por Abdullah AlQalawi

A escalada da intolerância na França não para de aumentar nos últimos anos, criando divisões dentro da sociedade e entre os cidadãos. Na verdade, essa tensão social e política não é resultado do acaso. A intolerância que vivemos hoje é fruto de uma estrutura política que se reflete no nível social e na esfera pública. Também não é um fenômeno cultural, em termos de práticas sociais cotidianas, do que é tolerado ou não tolerado de uma cultura para outra (intolerância primária). Além disso, existem as ações intoleráveis em qualquer parte do mundo em matéria de valores humanos na vida civil, tais como a preservação da vida dos outros ou a posse ilegítima da propriedade de um indivíduo. A intolerância a que nos referimos é uma mudança de valores fundamentais, não simplesmente de uma convivência harmoniosa; é algo que ultrapassa essas fronteiras e chega a ponto de atingir liberdades básicas, como a escolha de manter a própria identidade ou de preservar a cultura de origem, sempre respeitando as regras elementares e civis de direito comum, compartilhadas por uma sociedade tida como democrática e livre.

O que queremos ilustrar visa reconstituir uma república com base democrática, igualitária e legal para, assim, poder estabelecer novas regras. Podemos esperar uma separação ou exclusão de parcelas da população consideradas inconvenientes e que não atendem às novas normas, que chamo aqui de “normas impostas de assimilação de identidade”. O vetor desse fenômeno é o nacionalismo puro e duro, que desapareceu logo após a Segunda Guerra Mundial, mas que hoje está por trás de um novo emblema de identidade radical que não admite, nem tolera, qualquer diferença ou cultura considerada contraditória e indesejável, a fim de excluí-la de seu espaço público. Este é particularmente o caso da China em relação aos uigures (minoria étnica muçulmana), ou dos hindus em relação à minoria muçulmana indiana, por exemplo. No entanto, foi na própria Índia que nasceu a noção de democracia humanista!

A intolerância na França está no auge, principalmente porque se apoia em tendências político-midiáticas que continuam a alimentá-la. Essas tendências legitimam explicitamente, com a cumplicidade da mídia, um discurso de ódio contra uma parcela da população. As palavras ditas na televisão em intervalos regulares por pseudopolíticos, como Zemmour e seus colegas, só aumentam a divisão e o ódio contra o outro. Esse bando contribui à sua maneira para tornar o ódio e a rejeição ao outro como algo aceitável, o suficiente para banalizar a intolerância. Isso por meio de discursos de natureza ríspida, ao mesmo tempo em que reiteram as mesmas mensagens que induzem a intolerância como valor. Há ainda a questão de uma retórica tenaz que questiona contra-argumentos buscando desacreditar e destruir todas as respostas contrárias às pretensões do discurso, em particular as de representantes políticos de diferentes correntes.

Trata-se de um movimento que quer fazer da diferença uma alavanca que promova outra ideia de Nação, a do nacionalismo que deve excluir e dividir os cidadãos segundo diferenças culturais e de identidade. Neste caso, trata-se de separar os povos em dois campos distintos: por um lado, europeus e assimilados, seguindo uma monocultura que não tolera a diferença cultural; por outro, categorias forçadas a fazer uma escolha. Nesta hipótese, trata-se de abandonar a própria identidade para assimilar outra, ou seja, ser forçado a fundir-se em uma hegemonia cultural uniforme. É um afastamento alarmante dos valores republicanos que deveriam estimular o pluralismo cultural como uma teia de enriquecimento e de coesão social entre diferentes grupos sociais dentro de uma mesma nação.

A sociedade como a conhecemos hoje é o resultado de uma evolução societária que ocorreu após o período pós-colonial. Em outras palavras, desde a década de 1960, os valores defendidos pela República favoreceram muito a aceitação e o respeito pelo outro, e o convívio tolerante no cerne de uma sociedade moderna. No entanto, esses valores universais estão hoje seriamente ameaçados.

A divisão que parece ser atualmente almejada não é outra senão a expressão de um movimento radical e retrógrado, o de um fascismo latente. Nessas campanhas pelo poder, a palavra de ordem da extrema direita e dos seus apoiadores fanáticos é “dividir para conquistar”. Nenhuma jogada é inocente por trás dessa máscara de franqueza dos representantes da extrema direita, que concentram seus discursos em alguns dos estrangeiros que vivem na França, acusando-os de serem a causa de todos os males. A extrema direita procura induzir a maioria dos eleitores a aderir a esse discurso de desconfiança, ódio e exclusão.

Enquanto isso, o problema que realmente deveria preocupar os franceses e a Nação é o de buscar a paz e a vida em harmonia. Quando passamos a ter como objetivo a paz, podemos repensar os projetos econômicos e ecológicos que nos preocupam. Além disso, sob essa perspectiva, é mais útil encontrar também uma coesão social saudável e duradoura. Se renunciarmos a essa coesão, uma vez plantadas a disseminação do ódio e da intolerância na sociedade, veremos surgir patologias sociais difíceis de remediar.

Quais são as verdadeiras razões para a escalada da intolerância? Para qual mundo nos encaminhamos?

Nos últimos anos, temos conhecido uma tendência nacional rumo à monoidentidade e um movimento em busca de uma identidade exclusiva em nossas sociedades. Esta identidade pretende ser coletiva e singular. Por isso, esse fenômeno social hoje tende a deixar muito espaço para generalizações abusivas, em particular para a intolerância às diferenças culturais. É assim que vemos surgir um caminho para a “purificação” cultural.

De fato, originalmente era uma identidade de referência construída para reunir as pessoas em torno de uma identidade nacional, uma identidade que se conformava com o princípio do Estado-nação dos tempos modernos, embora admitisse o pluralismo cultural (Cuche, 2020)1. No entanto, hoje esta equação está sendo seriamente questionada, já que atualmente uma ideologia nacionalista está em processo de sacudir esse princípio básico, em direção a uma doutrina de exclusão dentro de uma mesma nação, para extrair dela uma minoria julgada diferente. Essa crise causada por certos políticos não nos impede pensar que corre o risco de nascer uma ideia de neorracismo, para designar o bode expiatório que deve ser difamado. Sem dúvida, observamos uma violência e uma intolerância emergentes em relação a uma categoria da população (imigrantes e cidadãos de fé muçulmana) cuja prática social é discriminada. É algo não necessariamente declarado, e que pode ser visto em vários contextos: no trabalho, na educação, nos discursos, no comportamento hostil na vida cotidiana etc. Para além da questão da raça e do racismo, trata-se de sua ressonância palpável e conflitante na esfera pública por meio de uma realidade social mais sentida hoje (Schaub, 2015)2.

Existe alguma saída possível para esta crise de intolerância?

Nós, da Pressenza, como outros canais de vozes livres para a não violência, nos dedicamos a difundir uma mensagem de paz e a lutar contra todas as formas de violência. A paz passa pela reflexão, pela razão e pelo diálogo. A crítica construtiva nos ajuda a enxergar com mais clareza o que está acontecendo na cena pública, conscientes de que todos estamos preocupados. Optamos por um discurso contra a violência midiática e política. Nossos valores podem ser ouvidos por todos, principalmente por aqueles que preferem escutar a voz da inteligência através de pensamentos e raciocínios construtivos, a fim de dissipar e até de eliminar valores destrutivos, pois “a violência é sinal de fraqueza” por definição.

O que precisamos é de harmonia em nossas consciências coletivas e pessoais, porque uma pode prevalecer sobre a outra e vice-versa. Assim, se começarmos por nós mesmos a fazer brotar paz e harmonia, essa força mansa, e a transmitir, ou até mesmo a difundir essa energia benéfica ao nosso redor por todos os meios possíveis, conseguiremos ecoar a voz da harmonia, da não violência e da doçura da convivência. Neste caso, trata-se de trabalhar na direção certa: “Mais gentil do que violento”, diz Jean de La Fontaine.

A lei do universo nos ensinou que há sempre duas forças opostas em todas as coisas, assim como encontramos Yin e Yang, branco e preto, positivo e negativo, água e fogo, inteligência e estupidez. Optamos pela inteligência da paz e da compreensão, pelo diálogo ao invés das brigas, pelo conhecimento do outro à ignorância e, por fim, pelos valores de uma humanidade serena ao invés da lei do mais forte e da barbárie. Se esses valores forem usados corretamente, experimentaremos uma sociedade pacífica. Podemos, assim, inspirar-nos nestas palavras de esperança, de Fiodor Dostoiévski: “Viver sem esperança é deixar de viver”.


(1) Cuche, D. (2020). A noção de cultura nas ciências sociais. A descoberta.

(2) Schaub, JF (2015). Por uma história política da raça. Transmissão de mídia.

 

Traduzido do francês por Aline Arana / Revisado por Graça Pinheiro