Por Raphael Pinheiro*

Admito que ainda me dá um frio na espinha quando me lembro, na época de faculdade, do professor me pedindo para que definisse arte. A conceituação era tão diversificada que praticamente qualquer colocação que fizesse se encaixaria de alguma forma. Isso era bom, pelo lado acadêmico, pois dificilmente alguém ficava com uma nota baixa, mas ruim, por outro lado, pois fazia parecer que arte era a coisa mais complexa do mundo, ao alcance de apenas poucos privilegiados que podiam verdadeiramente compreendê-la.

Tal amplitude inerente à arte é natural e permite que experimentemos infinitas sensações e também que vivenciemos as mais diversas manifestações artísticas, limitadas apenas pela capacidade criativa humana. Estamos cercados por tais manifestações e, na maioria das vezes, nem as notamos, simplesmente porque elas fazem parte do nosso dia a dia. A arte também é conectada ao cotidiano. E isso é que traz sentido à provocação inicial do tema.

A capacidade de criação humana define a arte. Contudo, ela precisa ainda do “belo” para existir. A estética é equação sine qua non no processo de se definir corretamente o que arte significa. Por isso, é tão comum que a nossa identificação do que é ou não arte esteja intrínseca aos nossos gostos pessoais. Se algo não nos parece belo, não pode ser artístico. Mas, acredite, pode. A conceituação de beleza difere de período para período, de cultura para cultura e, até mesmo, de indivíduo pra indivíduo.

Mas antes de eu gastar linhas e mais linhas tentando explicar o que é arte (o que possivelmente você, meu leitor, já está cansado de saber), vou aproveitar melhor o nosso tempo e espaço falando sobre os NFTs.

Então, o que são NFTs? Bom, essa sigla significa Non-fungible tokens. Em português, seria algo como tokens não fungíveis. Está bem. Confesso que não ajudou muito. Então, vamos lá…

Um token não fungível é um ativo digital único. Logo, refere-se a um produto virtual como uma foto, um vídeo ou outro item não tátil. Esse item, naturalmente, precisa ser validado, certificado, para que se possa garantir a autenticidade e exclusividade. E é a essa validação que damos o nome de NFT. Ela é, então, a nova fronteira no mercado das artes associada à tecnologia blockchain.

Blockchain? Está bem. Farei um parêntese rápido, já que o assunto é extenso e ideal para um texto inteiro acerca dele.

Blockchain é um livro-razão digital compartilhado e imutável. Sequenciados em uma cadeia (chain), ele armazena transações em blocos (block). Cada uma delas recebe uma impressão digital chamada hash, uma sequência matemática única que permite dar a exclusividade para cada movimentação. Essa individualidade é imprescindível para o funcionamento do blockchain, uma vez que essa assinatura digital é o que impede que uma criptomoeda seja replicada livremente (como a maioria do arquivos digitais pode ser, com um simples comando control + c e control + v). Se o ativo digital não tivesse sua singularidade atestada, ele não valeria nada.

O Museu Britânico de Londres é uma das grandes instituições culturais que apostam na tecnologia para criação de produtos com certificado NFT. Desde 2020, mais de 200 NFTs do japonês Katsushika Hokusai, entre eles o da obra “A Grande Onda de Kanagawa” foram comercializados.

Mas não são apenas os grandes museus, galerias ou marchands que podem fazer uso dessa tecnologia. O potencial de comércio de NFTs é tão extenso – e sua democratização tão acessível quanto a própria internet – que até o povo indígena Paiter Suruí, de Rondônia, está usando essa tecnologia para promover sua cultura e financiar a proteção de 13 mil hectares de floresta na Amazônia. A expectativa da comunidade é angariar recursos suficientes para garantir o anteparo do território, investindo, ainda em outras ações sustentáveis. Drones, GPS e dispositivos de geoprocessamento estão nos planos daquele povo.

Antes que tentemos nos inspirar no Museu Britânico de Londres ou na comunidade Paiter Suruí, é claro que temos que ter em mente que não é por causa da facilidade de acesso à tecnologia em questão que podemos banalizar o seu uso e tentar transformar qualquer coisa em arte, tentando vender ativos medíocres a preços exorbitantes (embora já façam isso com alguma frequência hoje em dia). Do que adianta eu fotografar o meu dedão do pé esquerdo e transformá-lo em token não fungível. Quem iria comprá-lo? Que valor isso teria?

Com isso, chegamos à solução da questão. NFT é um tipo de arte? Não. NFT é um tipo de tecnologia que permite usar os protocolos descentralizados do blockchain para validar um ativo digital. É como se fosse uma espécie de certificado de autenticidade. Apenas isso. Se eu tenho uma guitarra utilizada pelo lendário Jimi Hendrix arrematada num leilão, com o seu respectivo certificado de originalidade, o que eu devo exibir na minha parede? A guitarra ou o papel?

Contudo, os calafrios das minhas aulas de história da arte estão tomando conta do meu corpo novamente. A voz do meu professor reverbera tanto na minha cabeça, com aquelas infinitas possibilidades do que pode ser arte que agora me vejo sem outra alternativa a não ser dizer: NFTs são uma forma de arte? Bem… por que não?


* Raphael Pinheiro es postgraduado en Marketing Diginal y profesional con más de dos décadas de experiencia en el área tecnológica. Actualmente es editor en jefe del portal de la Academia Brasileira de Letras, una de las mayores y más importantes instituciones culturales del Brasil.