RESENHA

Por Sabine Mendes Moura

Livros para Todos”, coletânea organizada por Daniel Louzada, traz informações atualizadas sobre a produção, a distribuição e o consumo de livros no Brasil.

Livro e leitura são questões públicas.” Eis o posicionamento de Daniel Louzada, proprietário da Livraria Leonardo Da Vinci (RJ), em texto introdutório à obra Livros Para Todos — ensaios sobre a construção de um país de leitores (Nova Fronteira, 2021), organizada por ele. “A formação de um leitor depende de aspectos econômicos, sociais e educacionais, e estes são integrados em várias frentes”, explica. “Sabemos que nenhum país do mundo alcançou sucesso econômico sem ter educação e cultura como questão estratégica nacional.”

A coletânea inclui 24 textos inéditos e surgiu como resposta emergencial ao Projeto de Lei 3.887/2020, cuja ementa institui a Contribuição Social sobre Operações com Bens e Serviços (CBS), tributando a produção, importação e venda de livros. “No caso da aplicação de uma alíquota de 12% de CBS nas vendas, estima-se que será necessário aumentar em 20% o preço final de capa”, argumenta Vitor Tavares, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), em seu ensaio para a obra.

A medida prejudica o acesso à leitura e foi defendida em documento publicado pela Receita Federal a partir do comentário: “pessoas mais pobres não consomem livros não didáticos”. Em Livros Para Todos, agentes do mercado editorial — incluindo editores, livreiros, bibliotecários e escritores — se propuseram a combater essa visão, elencando análises atualizadas, relatos e testemunhos afetivos sobre o setor. Para isso, inspiraram-se no icônico ensaio O direito à literatura, de Antônio Cândido, cujo texto foi inserido na obra em versão integral.

No entanto, Livros Para Todos faz mais do que apresentar argumentos econômicos, políticos e jurídicos sólidos contra a implementação da lei. De fato, a primeira de suas quatro seções — Taxação a uma hora dessas? — se dedica ao tema, destacando-se a contribuição de Beatriz Araújo de Jesus, aluna do primeiro ano do ensino médio e integrante do Projeto Defenda o Livro, cujo abaixo-assinado contra a taxação engajou 1.4 milhão de pessoas até o momento.

A segunda seção — Caminhos e descaminhos do livro no Brasil — aprofunda o tema, recuperando alguns dos principais mecanismos de pesquisa sobre leitura e políticas públicas no Brasil, em comparação com estratégias utilizadas por outros países. Em O brasileiro que lê, lê o quê?, Zoara Failla, do Instituto Pró-Livro, discute a última edição da Retratos da Leitura no Brasil, a pesquisa mais abrangente sobre perfil leitor no país. Também nesta seção, discute-se a trajetória do Programa Nacional do Livro e Leitura (PNLL) e os aspectos legais do acesso à cultura. Destaca-se o informativo texto de Haroldo Ceravoto Sereza, editor da Alameda, apresentando a proposta da Lei de Proteção ao Livro (também conhecida como Lei do Preço Comum), como uma das possíveis soluções para a sustentabilidade do mercado editorial a longo prazo.

A terceira seção — O livro nas trincheiras — nos ajuda a imaginar o dia a dia de editores (“independentes” ou não), de livreiros, educadores e pessoas que trabalham com perfis literários na internet. No caso dos editores, há uma interessante discussão acerca do termo “independente” no texto de Tadeu Breda, da Elefante. Ainda nesta seção, a defesa das livrarias de bairro como pontos de encontro do consumidor com suas próximas leituras, incluindo boas discussões sobre a falência do modelo Saraiva/FNAC, se alinha ao perfil de leitor discutido na seção anterior. Destacam-se, também, as participações de Ketty Valencio, contando sua experiência com a Livraria Africanidades, da escritora Cidinha da Silva, discutindo uma consulta pública da Fundação Palmares, e de Tamy Ghannam, falando sobre a formação de leitores a partir de perfis on-line.

A quarta e última seção — Iluminuras — é composta por cinco ensaios intimistas, que nos remetem a diferentes experiências de leitura, aos momentos em que alguém se entende como leitor pela primeira vez, iluminando a importância do gesto como o título sugere. “Como já amava escutar histórias, quando encontrei os livros descobri que eles também podiam ser encantados, como o tambor e o terreiro”, relata Luiz Antonio Simas em seu texto. Na mesma toada, Xico Sá nos apresenta um mestre de Santana do Cariri (CE): “Por onde andava, Bilé conseguia despertar em algum vivente o gosto pela leitura”. Nesta seção, destaca-se a participação de Tarso Genro, ex-ministro da Educação e ex-governador do Rio Grande do Sul.

Livros Para Todos é um volume robusto, um manifesto apaixonado que não apenas sugere a importância da construção de um país de leitores, mas oferece subsídios essenciais para quem deseje, efetivamente, se somar a essa luta. Trata-se de uma leitura recomendada a todos os profissionais e interessados na área, seja porque encontrarão informações estratégicas, pontos de vista múltiplos a partir dos quais dialogar ou inspiração para seguir. Vale dizer que a categoria “interessados” abrange aqueles que amam ler — este livro pode ajudá-los a entender como ocupar funções críticas na defesa do livro.

Para ter acesso à obra, visite sua livraria de bairro ou acesse este link.