Como nunca, a reivindicação de liberdade individual tem sido a tônica da sociedade contemporânea, na qual o neoliberalismo avança em todas as frentes, inclusive a ponto de sustentar, com veemência, que o lucro financeiro é mais importante do que a vida. O neoliberalismo atua como um tanque de guerra que arrasa tudo o que vê pela frente. Questões socioambientais, de modo mais amplo, e agora a pandemia da Covid-19, mais especificamente têm nos mostrado, no entanto, que esse caminho nos está conduzindo à autodestruição.

Os postulados neoliberais consolidados na segunda metade do século 20 tiveram como prioridade o afastamento do Estado de todas as atividades produtivas, bem como a interrupção de toda e qualquer ação intervencionista. Os defensores desse liberalismo apregoam, com muita ênfase, a supremacia da economia sobre a política, entendendo com isso que, para realmente haver liberdade, é necessário o afastamento de qualquer ação do Estado na regulação da economia.

“Grande demais para quebrar”

Os discursos e ações que apregoam a ineficácia do Estado no comando da economia ecoaram nos diversos cantos do mundo, e conseguiram se fortalecer, inclusive, em regiões que haviam sido fortemente influenciadas pelo pensamento socialista gerado pela Revolução Russa de 1917. A queda do muro de Berlim, em 1989, significou, junto a outros fatores, uma importante e imponente vitória do pensamento neoliberal.

De acordo com os defensores desse sistema, esta seria a melhor maneira de se chegar a uma ordem econômica otimizada, deixando as atividades produtivas completamente livres, submetidas ao “movimento natural” da lei da oferta e da procura. Nem tanto assim. Isso mesmo. Porque, quando fazemos um pequeno retrospecto e miramos a crise econômica de 2008, por exemplo, constatamos que os neoliberais ficaram muito felizes com a intervenção do Estado.

Quando as grandes corporações financeiras foram “socorridas” pelos Estados, em detrimento de cidadãos e cidadãs do mundo inteiro (sobretudo nos Estados Unidos e na Europa) que perderam saus casas, empregos, famílias, os que defendem o não-intervencionismo estatal – como JP Morgan, Goldman Sacs, Lehman Brothers e seus análogos em diversas partes do mundo – se mantiveram no topo do sistema, com todos os seus privilégios. Enquanto milhões de pessoas passaram à condição de indigentes.

Em seu livro “Quem manda no mundo?” (2017), Noam Chomsky ressalta que esse quadro não é problemático para os muito ricos, pois se beneficiam da “apólice de seguros governamental do ‘grande demais para quebrar’”. Ainda para esse sociólogo estadunidense, quando o sistema entra em colapso, “os grandes” podem correr em busca do “Estado-babá”.

Até alguns liberais, como o economista e ex-ministro da Fazendo do Brasil Luiz Carlos Bresser-Pereira, entendem essa questão como contraditória. Para ele, esse surgimento do Estado como “a única tábua de salvação” evidencia a absurda oposição entre mercado e Estado apregoada pelos neoliberais.

Mas não se trata de contradição. Essa defesa de Estado mínimo para o povo e “Estado-babá” (como diz Bresser-Pereira) para as grandes corporações atesta o grau de individualismo e a consequente falta de solidariedade dos que defendem o neoliberalismo como modelo de vida. Para corroborar essa afirmação, utilizo duas questões como exemplos: a falta de consciência socioambiental que tem causado inúmeros problemas em todas as áreas do Globo, e a pandemia da Covid-19 (que, para muitos especialistas, está relacionada às questões socioambientais) que já tirou milhões de vida em todo o Planeta.

No que tange à falta de consciência socioambiental, amplamente agravada a partir da adoção do modelo neoliberal, é indiscutível o fato de que a exploração desmedida da Natureza esteja fomentando o enriquecimento de uma pequena fração da população mundial, em detrimento do necessário atendimento às reais necessidade humanas da maioria. A destruição da Natureza tem sido perpetrada, sem nenhum critério.

O desmatamento desmedido, para o incremento do agronegócio; a utilização dos combustíveis fósseis, que poluem e acirram o aquecimento global e todas as consequências dele advindas são, para os neoliberais, questões menores. Porque o importante é o avanço do capital. Desde Thatcher e Reagan, no final da década de 1970 e início da década de 1980, passando pelo Consenso de Washington (em 1989) que esse movimento tem sido intensificado.

“Receita neoliberal”

No campo mais pragmático, esse modelo tem trazido uma vasta diminuição dos custos trabalhistas para as empresas, principalmente as grande; diminuição de tributação sobre rendimentos; precarização das condições de trabalho e desemprego; perdas de direitos.

O Brasil serve como um grande exemplo. Basta observarmos os efeitos das reformas trabalhista e previdenciária; do ontrole dos investimentos públicos em setores essenciais, como a chamada Proposta de Emenda à Constituição 55/2016, aprovada no Brasil em 2016 que congela o orçamento público durante 20 anos, conhecida como PEC da Morte, que agravaram o empobrecimento da classe trabalhadora.

Toda essa “receita neoliberal”, quando ainda não aplicada, conta os “esforços” dos setores interessados para forçar sua aplicação em parte considerável do mundo, sobretudo nos países de capitalismo periférico. O governo argentino é um dos exemplos. Com uma dívida externa de mais de 300 bilhões de dólares, tem sido pressionado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) a realizar “ajustes” (leia-se, aplicar a receita meoliberal) para se adequar às expectativas do capitalismo (principalmente o financeiro) internacional.

Enquanto isso, o país rioplatense amarga com um índice de pobreza que afeta a mais de 40% de sua população. E não é por falta de alimento. Ocorre que o destino prioritário da produção de alimentos é o mercado externo, como no Brasil. Segundo o Servicio Nacional de Sanidad y Calidad Agroalimentária (Senasa), órgão do Ministério da Agricultura da terra de Lionel Messi, entre janeiro e maio de 2020 a Argentina aumentou as exportações de carnes (14,5%) e frutas frescas (17%) em relação ao mesmo período do ano passado, incluindo-se os últimos três meses que teve a quarentena obrigatória por conta da Covid-19.

Além dos crimes ambientais, o agronegócio mata de pobreza e de fome a população mais vulnerável.São apenas pequenas demonstrações do quão pernicioso é o neoliberalismo, sistema que faz um país rico manter boa parte de sua população em níveis absurdos de pobreza, porque a “máxima” é o lucro e não as pessoas. É o capital, e não a vida.

A ignorância dos ricos

E, por falar em vida, já são mais de 5 milhões de vidas ceifadas pela Covid-19. Grande parte delas por conta do individualismo, que fez com que países europeus e também de outros continentes (américa do Norte e Oceania) comprassem seis ou sete vezes mais doses de vacinas do que o tamanho de suas populações, enquanto em outras áreas do mundo (não coincidentemente as periferias do capitalismo) ficaram sem vacinas. Ao observarmos o mapa da vacinação, encontramos números absurdamente díspares.

Conforme dados da OMS do dia 27/11/2021, enquanto Burkina Faso, Mali, Sudão, Senegal e Monçambique tinham respectivamente 1,3%, 1,5%, 1,3%, 5,5% e 11% de sua população com a pauta completa de vacina contra a Covid-19, Canadá, Suécia, Alemanha, França, Estados Unidos tinham 76,3%, 67,8%, 68,6%, 69,6% e 59,1%, respectivamente.

E se não estão com 100% de cobertura não é por falta de vacinas, mas por questões outras, como, por exemplo, a recusa de parte de suas populações em submeter-se à imunização. Há, inclusive, risco de muitas doses da vacina perderem a validade, por falta de uso.

Essa discrepância mostra o individualismo. Mas também a ignorância dos “ricos”. A variante Ômicron do Sars-Cov-2, recém descoberta, é prova inconteste. Encontrada primeiramente na parte Sul do continente africano, tem sido responsável por novos alarmes referentes ao recrudecimento da doença.

Ou seja, independentemente de situação econômica, o vírus já está na Europa e já gerou medo, angústia e incertezas ainda maiores em relação ao fim dessa pandemia. Conforme especialistas (infectogistas e virologistas) do mundo inteiro, ou há vacinação massiva e universal, ou tão cedo não poderemos falar no fim desse pesadelo.

Moral da história: o individualismo mata. Literalmente. Porque esse sistema acelera o processo de degradação socioambiental e também “aposta” na desigualdade como maximizador do lucro. Sendo assim, ou a solidariedade se apresenta, ou a autodestruição está a um passo.