NOTA PRETA

Por Mauro Viana

 

Assistente Social, Carla de Almeida Cruz (Carla dos Turbantes) encontrou no saber ancestral a ferramenta de luta política contra a opressão e marginalização do povo negro. Filha da rezadeira das Minas Gerais, dona Maria Dorcelina de Almeida e do artista popular do Murilo Batista de Almeida. Primogênita, ela divide os sobrenomes com os irmãos Rodrigo de Oliveira Costa e Adriana Santos. Não satisfeita com o bacharelado em Serviço Social, “a periférica”, como ela mesma se intitula, do bairro Estrada da Saudade (“nascida e criada”), a Petropolitana, anexou ao ativismo o Curso Superior em Segurança Pública na Universidade Federal Fluminense. A seguir, a conversa o jornalista Mauro Viana abre o privado de NOTA PRETA para a comunidade de fãs da PRESSENZA.

Você tem uma trajetória profissional muito rica. Quais são suas primeiras ações culturais?

Após meses de pesquisa, elaborei o projeto/escola Carla dos Turbantes, de onde sairão as histórias clássicas e contemporâneas da comunidade negra de Petrópolis. As Leis 10.639 e 11.245 são as grandes impulsionadoras da Escola Carla dos Turbantes. A partir deste projeto, a cidade Imperial de Petrópolis estudará as contribuições dos povos originários e do segmento afrodescendente de nossa cidade, em particular e, por extensão, da Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro.

Você pode nos contar algumas particularidades desta ação?

A Escola Carla dos Turbantes é uma ação-social têm o forte intuito de pesquisar os diferentes signos de cada amarração, de cada estampa, cor e, principalmente, as identidades e histórias pessoais das mulheres afro-indígenas do Morro do Félix. O trabalho tem caráter itinerante através da mobilidade física e digital em diversos espaços. O primeiro módulo foca na Oficina de Turbantes Africanos cujo aprofundamento vai nos levar a países como Angola, Nigéria, Senegal, Moçambique, África do Sul, entre as 54 nações do continente.

Dados do Censo 2010 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na semana passada mostram que nos últimos 10 anos houve um crescimento de 2.963% na população de comunidades carentes (favelas) em Petrópolis. Inovações metodológicas e o aperfeiçoamento de trabalhos, através de recursos de imagens feitas por satélite, por exemplo, contribuíram para um diagnóstico mais preciso no levantamento feito pelo IBGE no ano passado. Os aglomerados subnormais frequentemente ocupam áreas menos propícias à urbanização, como encostas íngremes no Estado do Rio de Janeiro. Enquanto no ano 2000 o Censo indicava a existência de uma única favela na cidade, com 820 habitantes residentes em 210 domicílios, o levantamento feito no ano passado mostrou que hoje Petrópolis tem 15 localidades com infraestrutura precária. Ao todo, são 7.268 domicílios e uma população de 25.117 habitantes, sendo 12.337 homens e 12.780 mulheres – uma média de 3,5 pessoas por domicílio nas 15 localidades apontadas.

A mais populosa das comunidades que aparecem no relatório do IBGE é o Morro da Glória, em Corrêas. Somente ali foram contabilizadas 1.457 casas, com 4.890 moradores – uma média de 3,4 pessoas por residência. Deste total, 2.382 são homens e 2.508 mulheres. A segunda área mais populosa da cidade está no Alto Independência/Quitandinha, onde os recenseadores contabilizaram 1.450 casas com 4.860 moradores, sendo 2.411 homens e 2.449 mulheres – uma média de 3,4 pessoas por domicílio cadastrado.

Além destas duas, estão na lista divulgada pelo IBGE as comunidades: Cantinho da Esperança (Atílio Marotti), Caxambu -Buraco do Caxambu, Loteamento Elísio Alves (Centro), Comunidade São Francisco – Alto da Derrubada (Moinho Preto), Comunidade São João Batista e São Jorge (Duarte da Silveira), Comunidade Unidos Venceremos (Quarteirão Brasileiro), duas comunidades no Contorno I e II (Bingen), Duques (Quitandinha), Estrada da Saudade – Veridiano Felix, Leito BNH Pedro do Rio, Morro da Oficina – Rua dos Ferroviários (Alto da Serra), Morro do Neylor (Retiro) e Vila São Francisco.

Apesar da infraestrutura precária de saneamento básico e serviços públicos, como coleta de lixo e atendimento em postos de saúde, por exemplo, comunidades de Petrópolis têm algumas características diferentes de favelas dos grandes centros urbanos como Rio de Janeiro e São Paulo. Enquanto nas capitais a maior preocupação dos moradores é a violência decorrente da ação do tráfico de drogas, em Petrópolis o maior problema são as áreas de risco, uma vez que boa parte das construções são ameaçadas por deslizamento de barreiras e pedras. A ação da população que procura frequentemente o apoio da Polícia através de denúncias conseguiu impedir até hoje, por exemplo, que bandidos de facções criminosas vindos de outros municípios se instalassem nas favelas da cidade.
“Um ponto positivo que temos é que em Petrópolis as favelas não são associadas à violência. Não existe na cidade nenhum área em que a Polícia ou o poder público não possam entrar, em que visitantes ou moradores não possam circular livremente. Os maiores problemas que temos são a falta de saneamento básico e o fato de muitas famílias morarem em áreas de risco”, aponta José Alencar de Oliveira Lisboa, representante da Federação das Associações de Moradores de Petrópolis (Fampe), que representa 70 comunidades.

Presidente da Associação de Moradores do Independência, Maria Rosa Ferreira Santos lembra que nos últimos anos a comunidade cresceu muito e com ela também as oportunidades de trabalho dentro do bairro, mas aponta a ausência de ação do poder público como maior problema. “Muitas pessoas hoje não precisam sair do bairro para trabalhar, pois o comércio aqui cresceu muito. O que precisamos é de uma maior atuação do poder público, de uma infraestrutura mais eficiente. A falta de saneamento básico também nos preocupa, pois compromete a saúde da população. Os moradores também sofrem com a ausência de médico no único posto de saúde aqui do Independência. Hoje não temos clínico geral nem cardiologista, somente um pediatra”, diz a presidente da associação. Outro problema apontado por Rosa é a falta de projetos voltados para jovens e mulheres. “Temos uma quantidade muito grande de jovens que ficam nas ruas e que poderiam se profissionalizar. Projetos assim seriam importantes para nossa comunidade”, finaliza.

A falta de projetos para orientar principalmente adolescentes também preocupa moradores de comunidades com o Morro do Neylor. O Censo apontou que a comunidade tem hoje 659 moradias e um total de 2.216 habitantes. “O governo deveria fazer palestras sobre controle de natalidade. Hoje vemos meninas de 12, 13 anos que já estão grávidas. Tenho aqui perto de casa uma jovem de 20 anos que já tem três filhos, cada um deles de um pai diferente. Eles deviam orientar melhor estas meninas. Percebemos também que muitos adolescentes ficam pela rua e acabam se envolvendo com drogas”, contou uma moradora.

Fonte: https://www.dadosmunicipais.org.br/index.php?pg=exibemateria&secao=4&subsecao=&id=3411&uid=