As cidades litorâneas do Brasil têm sofrido enormes impactos ambientais dos mais variados. Uma boa parte desses impactos está sendo provocada pela especulação imobiliária, uma das facetas do capitalismo, muito fomentada pelo setor bancário. Esse boom imobiliário tem invadido e destruído o meio ambiente, contribuído significativamente para as mudanças climáticas, como vemos, por exemplo, em Ilhéus, no litoral Sul da Bahia.

A especulação imobiliária e os desastres socioambientais dela consequentes não acontecem apenas no Brasil. Infelizmente, temos muitos exmplos espalhados pelo mundo. Isso decorre do modelo capitalista de sociabilidade, que fomenta o “desenvolvimento” que apregoa e institui um estilo de vida baseado no consumo desenfreado, o qual, além de “devorar” quantidades enormes de áreas verdes, de energia e de água, contribui significativamente com a produção de despejo de grandes quantidades de resíduos no meio ambiente.

Concreto e asfalto versus Natureza

É isso que vem acontecendo, por exemplo, em Ilhéus, situada na Costa do Cacau, cidade que possui o litoral mais extenso do estado da Bahia (cerca de 100 km), localizada a pouco menos de 500 km da capital Salvador. Há muito tempo considerada a capital do Cacau, a antiga Vila de São Jorge dos Ilhéus (nome recebido no ano de sua fundação, 1536) é conhecida através de vários romances do famoso escritor brasileiro Jorge Amado, como Gabriela, Cravo e Canela e Terras do Sem Fim.

A Costa do Cacau é caracterizada por grandes extensões de praias, o que lhe confere grande potencial turístico. Outra característica é a Mata Higrófila do Sul da Bahia, da qual Ilhéus e Una (cidade vizinha) são as maiores detentoras. Com formação semelhante à Amazônica, esse tipo de mata se desenvolve na faixa costeira.Trata-se de uma das principais características naturais de Ilhéus, que tem seus dias contados, dada a devastação desenfreada.

Nos útimos anos a cidade tem sofrido com o boom imobiliário, que devasta, desenfreadamente, grande parte de sua vegetação, incluída a Mata Higrófila. Nesse tipo de mata são comuns árvores de grande porte com substrato arbustivo denso que, infelizmente, têm desaparecido, dando lugar a concreto, asfalto, rede de energia elétrica que dão forma a grandes e luxuosos condomínios de casas e/ou apartamentos.

Tudo isso com a anuência do Poder Público Municipal, que faz “vistas grossas” aos desastres socioambientais que vêm sendo perpetrados, em nome desse “desenvolvimento predatório”. Embora haja o Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Condema), quase nada tem sido feito para barrar esses desmandos.

Aventura destrutiva

Como se não bastasse a oferta de inúmeros imóveis vazios, dos mais variados preços e gostos, recentemente esse mesmo Conselho aprovou a construção de um empreendimento imobiliário na Zona Sul de Ilhéus, ao que tudo indica através de manobras, como, por exemplo, marcar primeiramente uma reunião virtual e posteriormente mudar para presencial (em plena pandemia) e assim restringir a participação democrática.

O pior de tudo é que a maioria das pessoas não se dá conta do grande mal que está sendo infringido a elas prórpias, afinal, somos parte integrante do meio ambiente. As construtoras, as imobiliárias e, principalmente, as instituições bancárias, têm conseguido fazer valer sua voraz sede de lucro, porque muita gente tem embarcado nessa “aventura destrutiva”.

Tudo isso em nome de uma suposta qualidade de vida, que faz essas mesmas pessoas comprarem o que não precisam, a um preço completamente abusivo, e com um dinheiro que, muitas vezes, nem dispõem, já que a maioria precisa se endividar com o sistema bancário.

Nos meses de julho e agosto de 2020 o avanço do mar causou muita destruição na zona norte da cidade, destruindo casas e derrubando árvores. Nas últimas semanas estamos presenciando grandes nuvens de insetos se formarem na zona sul, onde a especulação imobiliária é muito mais intensa.

É nessa dinâmica que a ganância do capitalismo tem seguido em frente. Só não sabemos até quando vamos suportar essa autodestruição. A única certeza que temos é que não será por muito tempo, pois a Natureza tem dado mostras de que já não está suportando tantos maus-tratos.